UOL Notícias Internacional
 

05/12/2009

O futuro do Irã será decidido nas ruas?

Le Monde
Mirza Bozorg
Em 7 de dezembro, celebração do Dia do Estudante, os iranianos sairão novamente às ruas para protestar contra o governo ilegítimo no poder e reiniciar sua luta democrática contra a junta e o islamismo miliciano de Ahmadinejad. Desde o histórico dia de protesto nacional de 15 de junho de 2009 - quando milhões de cidadãos saíram espontaneamente às avenidas da capital para insultar Ahmadinejad e o bando de trapaceiros que tentavam impor esse "iluminado" como presidente - , a maioria dos cidadãos e o movimento dos Verdes saem regularmente às ruas para manifestar nas barbas das forças repressivas sua oposição ao regime golpista.

Ainda que uma comparação não seja prova de nada, lembrem que a queda da monarquia em 1979 foi preparada por uma sucessão de protestos populares que obrigaram o xá a ceder à pressão das ruas em menos de um ano.

Além disso, esse processo parece caracterizar bem a lógica dos regimes totalitários: como não podem satisfazer as reivindicações legítimas do cidadão, tentam bloquear os canais de expressão da vontade popular, reprimir os direitos fundamentais das pessoas, entre os quais sua liberdade de expressão, e, consequentemente, a vox populi só tem uma escolha para se fazer ouvir: sair às ruas!

Irã: a esperança democrática

"É uma revolta? - Não, senhor, é uma revolução!" Esse célebre diálogo entre Luís 16 e o duque de Rochefoucauld, no dia seguinte ao 14 de julho de 1789 nos vem à mente diante das imagens surpreendentes transmitidas no dia 28 de outubro pela televisão iraniana. Nesse dia, o aiatolá Khamenei, líder supremo há vinte anos da República Islâmica, encontrava estudantes iranianos selecionados entre "a elite universitária" do país



Há mais de cinco meses, é o que faz corajosamente a maioria dos iranianos, apesar da violência da milícia islâmica, das prisões e dos julgamentos arbitrários. O teor dos slogans do movimento democrático agora mudou, pois não se trata mais de protestar contra as eleições fraudulentas ou de todas as noites vaiar Ahmadinejad, o mini-ditador.

Hoje, a recente manifestação de 4 de novembro mostrou - retratos do líder Khamenei foram rasgados e pisoteados - , é o regime islâmico que é visado! O islamismo político instaurado em 1979 por Khomeini e militarizado pela junta golpista atual não é mais a aspiração nacional. Pode-se dizer que três quartos da população querem um sistema de governo que não seja o chamado jurisconsulto governante (velayat-e faghih). As condições de possibilidade dessa mudança parecem se reunir, visto que o governo miliciano de Ahmadinejad não dispõe mais de base social sólida e deve impor seus objetivos pela força ou pela ameaça. Pode-se falar de seu crescente isolamento:

- por dentro, onde as dissensões no cerne do bloco no poder (entre ultraconservadores, junta do Sepah e círculo de Khamenei) se acentuam, como indica a política sem pé nem cabeça do governo em todos os domínios: também sobre as questões econômicas, a questão nuclear, o emprego modulado da repressão contra a oposição reformista, as posições dos dirigentes e dos parlamentares que se opõem às dos militares do Sepah (Guardiões da Revolução) que nem têm medo de contradizer o líder Khamenei. Essa confusão geral também se encontra nas alegações oficiais que dizem respeito à morte súbita de Kordan - o ex-ministro do Interior que havia comprado títulos universitários falsos acaba de morrer de câncer?! - ou ao suicídio inesperado do infeliz médico da prisão de Kahrizak - em julho, muitos jovens foram estuprados, espancados ou assassinados lá - , mortes bruscas que dão margem a rumores contraditórios e fazem pensar que as autoridades não se incomodam com as pessoas consideradas incômodas! A isso, juntemos a última historinha desta semana: o porta-voz do governo veio anunciar, sem medo do ridículo, que o bloqueio da conta pessoal da Prêmio Nobel da Paz, Chirine Ebadi, foi decidido porque ela não havia pago seus impostos!

- por fora, tanto no plano regional quanto em escala internacional, a eleição contestada do presidente Ahmadinejad e a repressão brutal das manifestações desacreditaram ainda mais o regime islâmico, cuja imagem já era bem inexpressiva. No seio do mundo ocidental ou árabe, ele exibe um perfil discreto, levando em conta suas interferências no Iêmen ou em outros lugares, seus vários testes de mísseis de longo alcance, e seu jogo duplo na questão nuclear (o local escondido de Qom denunciado pela Agência Internacional de Energia). Após diversas negociações e garantias recíprocas, Obama conseguiu convencer os russos e os chineses do perigo de deixar essa junta agressiva, defensora de uma ideologia islâmica extremista, dispor de um arsenal atômico.

Se as novas sanções das grandes potências receberem logo o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas, elas terão repercussões notáveis sobre a economia do país e sobre o custo de vida, e, neste inverno, será muito difícil para a junta no poder conseguir dormir, pois reações sociais de grande escala poderão estourar.

Cada vez mais isolado, tanto dentro como fora do país, objeto de uma dupla pressão em nível nacional e internacional, que provavelmente se ampliará no decorrer dos próximos meses, o que o governo miliciano de Ahmadinejad fará diante desse cerco que vai se fechando?

Na verdade, quando um governo não sabe mais o que fazer, quando ele se vê acuado em diversas frentes, geralmente ele se afunda no tudo ou nada e na política do quanto pior, melhor. Também deve-se esperar que a junta islâmica intensifique sua repressão contra a oposição popular e sua hostilidade em relação ao Ocidente e instituições internacionais, ainda mais que os regimes desse tipo acreditam encontrar dentro da violência, do confronto ou da guerra uma solução provisória a suas contradições.

De qualquer forma, em todos os níveis, a batalha interna se desenvolve contra o islamismo miliciano de Ahmadinejad, como confirma o anúncio da retirada do eminente aiatolá Javadi Amoli, que acaba de abandonar suas responsabilidades em Qom. Assim, vemos que o clero se distancia progressivamente do governo atual, pois, do seu ponto de vista, a junta militarista do Sepah está aniquilando o islamismo xiita tradicional para instaurar a religiosidade extremista e messiânica defendida pela seita hojjatiye, minoria denunciada no início da revolução pelo fundador da República Islâmica, Khomeini. Essa ideologia estilo Bin Laden defende a islamização extrema das instituições e das pessoas.

Além disso, nesta semana, o líder rebaixado Khamenei encarregou Haddad, o acadêmico execrado pelos estudantes, do projeto de islamização das ciências sociais. Um truque na linha dos Khmers Vermelhos, que, deve-se lembrar, odiavam tanto as ciências sociais quanto o mundo urbano e moderno! Mas após quase trinta anos de khomeinismo, a islamização forçada do país não tem sentido nenhum. Os estudantes, os jovens e todos os iranianos que sairão às ruas no dia 7 de dezembro e nos meses seguintes (Ashura, comemoração do martírio do imame Hussein; 11 de fevereiro, aniversário da revolução) não deixarão de bradar ao bando de Ahmadinejad que eles só querem um futuro novo.

*Mirza Bozorg é um acadêmico iraniano.

Tradução: Lana Lim

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