UOL Notícias Internacional
 

06/12/2009

A "ameaça global" da Al Qaeda chega ao Mali

Le Monde
Philippe Bernard
Em Barnako (Mali)
Os imensos espaços do Saara e do Sahel são uma das mais novas zonas de perigo do mundo. Islamistas e traficantes de todos os tipos - drogas, armas, imigrantes - se misturam e prosperam com a proteção mútua. A Argélia, a Mauritânia, o Níger e o Chade foram cenário de sequestros de ocidentais. Essa realidade se estende agora para o Mali.
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    Mapa do norte da África mostra região de Mali, onde operam traficantes e sequestradores


Vários sequestros neste vasto (com pouco mais de duas vezes o tamanho da França) e pobre país, porém tranquilo e acolhedor, fizeram com que um alto funcionário malinês mencionasse uma "ameaça global" nas regiões do norte. Preocupadas, as autoridades francesas evacuaram os raros moradores dessas áreas desérticas e reforçaram as medidas de segurança, inclusive em Bamaco.

Mas é longe de lá, a 1.500 quilômetros a nordeste da capital, na localidade de Menaca, que a tranquilidade francesa foi brutalmente abalada, entre as noites de quarta-feira, 25, e quinta-feira, 26 de novembro. Pierre Camatte, 61, um aposentado francês que se dedica à ajuda e ao desenvolvimento do norte de Mali, foi sequestrado no pequeno hotel que ele administrava e onde morava há alguns meses. Os sequestradores se apresentaram a ele como hóspedes.

Eles agiram pouco depois do corte da energia elétrica que, todas as noites, permite reduzir o consumo do gerador. Mas esses provavelmente são apenas os executores. Na região, esse tipo de "contrato" costuma colocar em jogo intermediários. Segundo várias fontes, não há dúvidas sobre a natureza do mandante: Pierre Camatte está nas mãos da Al Qaeda do Magreb islâmico (AQMI) e mantido em cativeiro a uma distância muito grande do local de seu sequestro.

A investigação, conduzida por serviços malineses e franceses, foi cercada de uma discrição compreensível. As atividades de Camatte incluíam o controle da utilização dos fundos de sua organização de solidariedade nos vilarejos de Gérardmer (Vosges) e Tidarmene, o que pode ter lhe garantido alguns inimigos. Mas, segundo a mesma fonte, a dinâmica do sequestro, que não foi reivindicado por nenhum grupo, não está ligada às suas atividades, mas sim à sua nacionalidade. Recentemente, outros europeus foram sequestrados na região, mas nunca franceses em Mali.

"O pacto tácito pelo qual a AQMI poupava o Mali foi rompido", analisa um diplomata ocidental. Em Menaca, foi dado um novo passo. A ameaça recorrente da AQMI contra os franceses foi colocada em execução.

O perfil do alvo parece ter sido escolhido para abalar os espíritos dos franceses. Muitos deles estão engajados em ações de solidariedade no Mali. "Muitos de nós nos reconhecemos em Pierre Camatte", testemunha um deles. "Como ele, nós temos o sensação de fazer o bem e de só termos amigos aqui."

Uma outra questão agita o Mali. No começo do mês de novembro, um antigo Boeing 727 cheio de cocaína aterrissou clandestinamente numa área deserta, sem cobertura de radar, a 160 quilômetros ao norte do vilarejo de Gao (nordeste).

Os traficantes desapareceram com sua carga - estimada em 10 toneladas - depois de ter incendiado o avião cujo valor era insignificante em comparação ao seu conteúdo. Segundo outra versão, eles se acidentaram na decolagem. Investigadores líbios foram os primeiros a chegar no local, informou uma fonte. Vários ocidentais se juntaram a eles. "Sérios indícios de identificação foram encontrados", assegura outro. O avião teria pertencido no passado à Líbia e teria decolado da Venezuela.

Mali procurou minimizar o assunto, tentando abafar o caso. O presidente Amadou Toumani Touré (apelidado de ATT) esperou três semanas para quebrar o silêncio sobre o "avião da droga" e anunciar a abertura de uma investigação por "ameaça à segurança exterior do Estado". Depois do sequestro de Pierre Camatte, um comunicado oficial foi rapidamente publicado "condenando" o rapto "com o máximo vigor" mas o qualificando de simples "ato mercenário".

Tal prudência parece responder à necessidade de preservar a imagem de um país pacífico e de salvar a temporada turística. Mas também poderia ser explicada por motivos mais políticos e menos respeitáveis. A audácia dos traficantes de drogas e o sucesso de sua operação fizeram nascer suspeitas de cumplicidade no governo e no exército. Em toda a região, "os aparelhos do Estado são mais ou menos infiltrados", confirma Boubai Maïga, antigo ministro malinês da Defesa.

A incorporação no Exército Nacional de tuaregs, em rebelião contra Bamaco, ao final de um acordo de paz, também incita as suspeitas de conivência militar com os traficantes. Os ocidentais também criticam Mali por não ter liderado uma luta suficientemente vigorosa contra os islamistas, apesar da ajuda logística fornecida pelos Estados Unidos e pela França. Maïga reconhece uma "grande prudência na resposta". Ele a justificou com a preocupação de evitar que Mali não se torne um terreno de enfrentamentos entre os ocidentais e os islamistas. "Lutando contra a santuarização do país, arriscamos transformá-lo num alvo. O Mali não quer ser nem um santuário nem um alvo", explica. "Nós não queremos que a luta contra o terrorismo se transfira para cá. O Mali não quer se tornar um novo Afeganistão."

Mas uma coisa é certa. A zona sahelo-saariana que, de leste a oeste, vai do mar Vermelho ao Atlântico, não é mais somente um deserto usado para o tráfico fronteiriço, como era há séculos. Encruzilhada de rotas que ligam Oriente Médio, a Europa e a América Latina, esta imensa faixa desértica se tornou ao mesmo tempo centro de transações globalizadas e um lugar-chave para a competição planetária pelo domínio das reservas de energia das quais os países vizinhos são produtores. Ela constitui um "corredor de petróleo-gás-urânio" altamente estratégico numa área pouco controlada pelos Estados. Em outras palavras, um depósito de pólvora em potencial.

Tradução: Eloise De Vylder

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