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08/12/2009

Em Dubai, a resignação dos últimos trabalhadores imigrantes

Le Monde
Jérôme Fenoglio
Enviado especial a Dubai
O canteiro de obras se parece com o deserto que o cerca. Entre as sinistras fileiras de pré-fabricados, empilhados sobre dois andares, nenhum sinal de vida fora o dos dromedários que andam junto às grades. Até que aparece o segurança, indiano. "Acabou", ele diz. "A obra foi fechada há três meses. Havia 1.500 pessoas aqui, da Índia, de Bangladesh, do Paquistão e da Turquia: todos voltaram para seus países". Mal viram as torres da cidade ao longe, eles deixaram Dubai. Primeiras vítimas da crise de um mundo do qual eram mantidos à distância.
  • Reuters

Nesse deserto, a mais de 50 quilômetros das extravagâncias da cidade, o emirado se imaginava um futuro centro do mundo. Em torno do aeroporto internacional Jebel Ali, em construção, zonas de empresas e bairros residenciais deveriam formar a Dubai World Central, nova cidade de 1 milhão de habitantes. O alojamento de trabalhadores havia sido instalado pela construtora turca Bay Tur que, em parceria com a BTP, braço da coreana Samsung, deveria construir aqui um palácio de exposições. Desse projeto, derrubado pelo estouro da bolha imobiliária, só resta uma imensa carcaça de aço, a algumas centenas de metros dos alojamentos abandonados pelos trabalhadores da Bay Tur.

No canteiro de obras ao lado, que pertence à Samsung, três quartos dos funcionários também foram enviados de volta a suas casas. "Os diretores lhes disseram que os trariam de volta assim que as obras fossem retomadas", afirma, sem acreditar muito, um operário de Bangladesh. Aqueles que ficaram foram transferidos para outra obra delirante, a de Palm Jebel Ali. Para essa palmeira de areia, traçada nas águas do Golfo, o grupo coreano assinou um contrato com a Nakheel, a empresa que se complicou com seus projetos exagerados, causando o pedido de moratória sobre a dívida de sua matriz, a Dubai World. Mas os operários não se iludem: elo final da cadeia, eles também pagarão pelos excessos dessa empresa. "Em dois meses, no máximo, a obra também será interrompida", diz um deles. "Dizem que faz nove meses que a Nakheel não paga à Samsung".

Entretanto, eles não se queixam: seu empregador continua a lhes pagar, as refeições não são descontadas de seus salários. Alguns esperam, após a dispensa, serem recolocados na última obra local da Samsung, em Abu Dhabi. A maioria, entretanto, conformada com a ideia de ter de voltar ao seu país, falam com inveja dos operários da construção do aeroporto, que continuarão a trabalhar.

Estes se encontram a alguns quilômetros mais ao sul. Atrás de uma duna artificial aparece o equivalente a uma pequena cidade, totalmente composta por homens, esmagada pelo calor, pela miséria e pelo tédio. As fileiras de "labor camps" são entrecortadas por estacionamentos de caminhões ou depósitos de materiais, às vezes lojas de alimentos ou restaurantes instalados às pressas e algumas mesquitas de aço. Dezenas de milhares de operários do aeroporto vivem lá, em "caixas de morar" com ar condicionado que abrigam seis pessoas cada uma, com três beliches e cerca de 15 metros quadrados.

Os salários variam de acordo com a obra. Na ETA Ascon, um grupo dos Emirados, um eletricista pode ganhar 1.400 dirhams (R$ 655) mensais, um encanador 1.200, dos quais é preciso descontar 160 dirhams de alimentação. Algumas reivindicações das greves de 2007 parecem ter sido ouvidas: em todos as obras visitadas, os operários são pagos por depósito bancário em suas contas, e podem utilizar um cartão. Mas em todos os lugares, desprezando as recomendações, os empregadores mantiveram o hábito de reter o passaporte dos trabalhadores. Estes só ficam com suas licenças de trabalho.

E, ao contrário do que se acreditava na Samsung, a crise não poupou o pessoal do aeroporto. A obra teve seu ritmo consideravelmente diminuído nos últimos tempos. Um quarto dos alojamentos parece ter se esvaziado, entre os quais um dos maiores, que, segundo o segurança abrigava 3 mil pessoas antes de os contratos de trabalho serem bruscamente interrompidos, em fevereiro. Em um outro, quase insalubre, os salários não são pagos há quatro meses. "Só nos dão vales-alimentação", diz um operário filipino que espera pelo fim de seu contrato na esperança de encontrar um empregador melhor.

Mais além, na beira da estrada, um homem agachado à sombra de um ônibus, que se recusa a revelar sua nacionalidade e seu empregador por medo de ser identificado, afirma que sua decisão está tomada: "Se eles fecharem a obra, farei de tudo para não voltar. Não posso. Minha família está esperando por presentes e dinheiro, e não ganhei quase nada".

Ele se diz preparado para se juntar ao número cada vez maior de clandestinos que permanecem em Dubai sem permissão de trabalho. A maioria não teve escolha, pois não conseguiram recuperar seus documentos junto a seus empregadores. Muitos vivem de pequenos trabalhos com pessoas físicas, e, vulneráveis, se veem ainda mais explorados do que nos canteiros de obras.

Tradução: Lana Lim

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