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08/12/2009

Miséria e desemprego escondidos no rico Japão

Le Monde
Philippe Pons
Enviado especial a Osaka (Japão)
O estrondo das portas de ferro que se erguem rompeu o silêncio do amanhecer. E eles entraram no grande pátio da agência de empregos. Carregando sacos, puxando malas com rodinhas, são de 200 a 300 deles. A maioria, com mais de quarenta anos. São 5 horas da manhã: os cerca de cem quartos de aluguel e dois albergues dão vazão a seus ocupantes. Alguns saem de bicicleta, outros caminham até a estação. Cerca de 50 sem-tetos, que acampavam em volta do pátio nas caixas de papelão ou sob armações de obras, dobram seus trapos.

Governo japonês tenta conter índice
de desemprego no país

Na rua, caminhonetes esperam agrupadas com um cartaz no pára-brisa, expondo as ofertas de emprego em regime diário ou mensal. Recrutadores com ar de delinquentes chamam os mais robustos. O pátio zune com vozes e discussões. Diante das máquinas de latas de saquê e cerveja, do outro lado da rua, se formam pequenas filas. Aqueles que não têm os 100 ienes (R$ 1,55) para comprar uma bebida, vagueiam em torno em um pedido silencioso. Alguns, de pé, sorvem uma sopa em um boteco. A maioria compra um sanduíche, que comem sozinhos.

O mercado de mão-de-obra temporária de Kamagasaki, na parte sul da dinâmica Osaka, é o maior do Japão. Quinze anos atrás, eles eram mais de 20 mil, e, toda manhã, metade era empregada. Com a recessão, o mercado encolheu, e hoje, não passam de 250 ofertas de trabalho por dia. O Japão envelheceu. Kamagasaki também. "Aqui, a prioridade não é mais a defesa das condições de trabalho, mas uma política social para os idosos", diz Minoru Yamada, que dirige uma organização assistencial da prefeitura.

Segunda maior economia do mundo, o Japão tem um dos mais elevados índices de pobreza entre os países desenvolvidos. Segundo um estudo do ministério dos Assuntos Sociais, publicado em outubro, 15,7% dos japoneses - ou seja, um em cada seis - , dispunham em 2006 de menos da metade da renda média anual (ou seja, 1,14 milhão de ienes, o equivalente a R$ 22 mil). "Uma situação que está entre as piores da OCDE [Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico]", admitiu o ministro da Saúde e do Trabalho, Akira Nagatsuma.

Por muito tempo, o governo ignorou a pobreza, temendo reconhecer ali um fracasso nacional. Mito de uma sociedade que se considerava igualitária: a pobreza não existia; ela era um problema individual, não social. "A grande exclusão não é o resultado de uma crise: é um fenômeno persistente de nossas sociedades", lembra Xavier Emmanuelli, ex-secretário de Estado para a Ação Humanitária e fundador do SAMU social, que veio ao Japão para explorar as possibilidades de colaboração com organismos locais.

Em "Kama", como é chamada aqui, enquanto se tem força física, é possível se virar, - ou seja, sobreviver em um mercado de trabalho amplamente controlado pelo submundo e sujeito à violência. Mas não se sai dos "cortiços sem volta": Sanya em Tóquio, Kotobuki em Yokohama, Kama em Osaka. Nessas "cidadelas sem muros" que não se distinguem em nada do resto da cidade a não ser pela sua fauna de miseráveis, sempre se morre na rua. Uma morte muitas vezes anônima.

Um terço dos 25 mil habitantes de Kamagasaki têm mais de 60 anos e vivem da previdência social. Outros - 1.000, 2.000 - , não são recenseados. Eles não respondem às pesquisas administrativas, que implicam o contato com suas famílias. Eles romperam com seu passado e muitas vezes "evaporaram". Aqui e ali, anúncios de parentes sem notícias. Um nome, algumas palavras: "Volte, nós te protegeremos", "Papai está morrendo..."

O sol se põe, e assim como um exército desbaratado, cerca de 500 a 600 pessoas se dirigem aos dois albergues de até 1.400 vagas, carregando suas trouxas, alguns andando lentamente e muitos deles imundos. Às 5 horas da manhã, eles voltam a ganhar as ruas. E começa a se estender um tempo sem ritmo: uma liberdade abissal.

Cruza-se com errantes, sujos e hirsutos, de rosto amassado, cujos passos indecisos não levam a lugar nenhum; silhuetas sem idade, de ombros submissos, uma garrafa de saquê nas mãos; vociferantes ou comatosos. Alguns, completamente embriagados, já jazem na calcada. Pequenos grupos se aglutinam em torno de uma tábua sobre uma caixa: por algumas centenas de ienes, o espaço de um instante, os dados são sinônimo de esperança para esses homens que não têm mais nenhuma. Marginais ficam à espreita, caso apareça a "tempestade", ou seja, a polícia.

Assim que anoitece, instala-se um estranho silêncio, rompido pelas tosses catarrentas e pelos pigarros vindos das caixas de papelão dos que dormem na rua. Pôsteres que representam micróbios pendurados em um personagem alertam contra a tuberculose: em "Kama", essa doença da pobreza tem um índice comparável ao do Camboja. Um acompanhamento melhor contém sua propagação de alguma forma. E ainda há o alcoolismo e os problemas mentais. Os hospitais muitas vezes recusam os loucos da rua: "Tentamos acalmá-los. Que mais podemos fazer?", explica um pastor.

Em "Kama", a expectativa de vida é a mais curta de um país onde a longevidade é uma das mais altas do mundo. Mas também há manhãs luminosas, como aquela captada pelo autor de uma pichação: "A alvorada sorri. Ainda estou vivo".

Tradução: Lana Lim

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