UOL Notícias Internacional
 

09/12/2009

Marco Enríquez-Ominami, rebelde da esquerda chilena

Le Monde
Le Monde Christine Legrand
No elegante terraço do café Mozart, no coração do bairro sofisticado de Vitacura, no norte de Santiago, políticos o cumprimentam paternalmente. Passantes o interpelam afetuosamente. Marco Enríquez-Ominami sorri. Um sorriso largo em um rosto ainda rechonchudo.

Apesar do terno e gravata, ele parece, aos 36 anos, uma criança travessa. Ele passa a mão sem parar em sua cabeleira negra, para domar mechas rebeldes. Seu ar indiferente contrasta com a rapidez com a qual ele fala. Passa com facilidade do espanhol ao francês, pula de um assunto para outro, empregando uma explosiva eloquência e uma invejável autoconfiança.
  • Santiago Llanquin/AP

    Rebelde Ominami lançou-se como independente na eleição presidencial de 13 de dezembro, quebrando as regras do bipartidarismo tradicional. Ele faz o papel de encrenqueiro no cerne da Concertatión, a coalizão de centro-esquerda no poder desde 1990. Ex-deputado socialista, ele fez parte da coalizão governamental. O 'enfant terrible' partiu bruscamente, denunciando a ausência de primárias e desafiando políticos "esclerosados, incapazes de responder aos sonhos dos chilenos"



Ele é a surpresa da monótona campanha presidencial chilena. Lançou-se como independente na eleição presidencial de 13 de dezembro, quebrando as regras do bipartidarismo tradicional. Ele faz o papel de encrenqueiro no cerne da Concertatión, a coalizão de centro-esquerda no poder desde 1990, data do fim da ditadura militar do general Pinochet instaurada em 1973.

Ex-deputado socialista, ele fez parte da coalizão governamental. O 'enfant terrible' partiu bruscamente, denunciando a ausência de primárias e desafiando políticos considerados "esclerosados, incapazes de responder aos sonhos dos chilenos". "Marco atesta a usura da Concertatión", aponta o cientista político Oscar Godoy. Em Santiago, os jornais o chamam de "díscolo", o desordeiro. A imprensa local chegou ao ponto de apelidá-lo "o Obama chileno". Marco Enríquez-Ominami lançou sua candidatura no Facebook. Ele não para de subir nas pesquisas.

Candidato midiático, ele traz uma renovação ao Chile, onde se incrustam eternos candidatos. Ele chega em terceiro lugar nas pesquisas, atrás do candidato da direita, o empresário bilionário Sebastián Piñera, senador de 1990 a 1998 e candidato derrotado por Michelle Bachelet em 2005. Marco Enríquez-Ominami segue de perto o candidato da Concertatión, o formal ex-presidente democrata-cristão Eduardo Frei (1994-2000), filho de um outro presidente de mesmo nome.

Seus partidários poderiam bancar os árbitros durante um provável segundo turno, em 17 de janeiro. Os analistas afirmam que parte de seus eleitores poderão transferir seus votos para Sebastián Piñera, o que fragilizaria Eduardo Frei.

Marco tinha três meses, em 11 de setembro de 1973, no dia do golpe de Estado do general Augusto Pinochet. Sua biografia explica sua segurança no cenário político. Ele é filho do principal dirigente do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), Miguel Enríquez, morto em outubro de 1974 pelos militares. É filho adotivo do senador socialista Carlos Ominami, com o qual sua mãe, a jornalista Manuela Gumucio, refez sua vida durante o exílio em Paris. Esse influente barão do Partido Socialista chileno faz campanha para seu filho adotivo.

O avô materno de Marco foi presidente da democracia cristã. Seu avô paterno, ministro do presidente socialista Salvador Allende (1970-1973). "Ser herdeiro de tantas lendas não foi fácil", confessa o jovem candidato. Diversos membros de sua família figuram entre as centenas de desaparecidos durante a ditadura: "O drama faz parte de minha infância".

Ele admitiu ter experimentado maconha e cocaína. Ele promete uma guerra sem compaixão contra os traficantes de drogas. Agora, ele não bebe e nem fuma. "Sou viciado em chocolate", ele diz com um ar travesso. Apesar do milagre chileno, o fosso entre ricos e pobres é um dos mais gritantes da América Latina, e Marco Enríquez-Gominami afirma ter "sempre se indignado com a pobreza e a discriminação". Em Paris, ele frequentava a escola pública, junto com crianças de todos os meios e todas as origens. Aos 13 anos, quando voltou ao Chile, se sentiu mal no liceu francês de Santiago, frequentado pela elite chilena. "Devo muito à França".

Ele faz parte dos "retornados" (os chilenos que voltaram ao país) que muitas vezes encontraram dificuldades para se readaptar a uma sociedade que idealizaram. Ele pertence à chamada geração do "Novo Chile", jovens que cresceram na democracia, mas que devem se libertar do trauma da ditadura. Por um tempo ele estudou Filosofia na universidade, onde tentou sem sucesso ser eleito à presidência do diretório acadêmico. Retornou a Paris para cursar Cinema.

De volta a Santiago, o garoto rebelde apresentou, em 2002, um polêmico documentário, "Chile, os heróis estão cansados", onde critica duramente os dirigentes da Concertatión, entre os quais o ex-presidente socialista Ricardo Lagos (2000-2006), para quem fez campanha em 2000. Ele trabalhou durante 12 anos como diretor de televisão. Seu casamento com a loira Karen Doggenweiler, uma apresentadora de televisão que está sempre no centro das atenções, lhe abre as portas do show-business. "Não há revolução sem televisão", ele diz.

Sua idade é um trunfo em um país onde a juventude, desiludida, não acredita mais nos políticos. Dos 8 milhões de eleitores, 2 milhões de jovens não votam, ao passo que o voto é obrigatório no Chile, assim que se tira o título de eleitor. Seus adversários o criticam por mencionar excessivamente essa juventude. Ele é considerado um traidor entre a Concertatión. Aos 91 anos, Patricio Aylwin, o primeiro presidente da transição democrática (1990-1994), vê sua candidatura como "pretensiosa".

À direita, Sebastián Piñera ironiza os 180 projetos de lei apresentados ao Parlamento por Marco Enríquez-Ominami quando ele era deputado: "Nenhum virou lei". Ele zomba de suas aspirações a encarnar a renovação da política chilena. "Marco, você tem síndrome de Peter Pan, que crê ter acabado de cair do céu, sem história e nem passado", disse Sebastián Piñera, durante um debate na televisão, "peço para que você assuma seu passado".

"Peter Pan tem um mérito, ele não mente. Além disso, ele sorri e ele sonha. Vou derrotar o Capitão Gancho", respondeu com insolência o jovem. "A ele pouco importa que ganhe Frei ou Piñera", diz Jorge Arrate, o candidato de esquerda, aliado ao Partido Comunista. Aos 68 anos, ele também é um socialista dissidente da Concertatión. Ele alega representar Salvador Allende, de quem foi colaborador. Marco Enríquez-Ominami recusou a proposta de Jorge Arrate de fechar um pacto com Eduardo Frei, visando um segundo turno.

"Marco exprime o descontentamento em relação à política tradicional", reconhece a presidente socialista Michelle Bachelet,que, a três meses do fim de seu mandato, em 1º de março de 2010, goza de uma popularidade de mais de 76%. "Ele é um fenômeno essencialmente midiático, uma opção romântica", acredita a socióloga Marta Lagos. Uma opção que certamente não desagradaria Marco Enríquez-Ominami.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h39

    -0,26
    3,170
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h50

    0,46
    68.290,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host