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09/12/2009

O declínio da hegemonia americana na Ásia Oriental

Le Monde
Bruno Philip e Philippe Pons Em Pequim (China) e Tóquio (Japão)
Uma vez que baixou a "poeira" da recente visita de Barack Obama à Ásia, com seu rastro de amargura - falta de energia na defesa dos direitos humanos ou na valorização da moeda chinesa - , uma constatação se impõe: o ocupante da Casa Branca não obteve mais de sua primeira turnê asiática, simplesmente porque os equilíbrios geopolíticos nessa parte do mundo mudaram, e porque os Estados Unidos não estão mais em posição de se comportar como potência hegemônica.
  • Ng Han Guan/AP

    Encontro O presidente dos EUA, Barack Obama (à esquerda), cumprimenta o presidente da China, Hu Jintao, após uma coletiva de imprensa no Grande Salão do Povo, em Pequim

Foi quase na defensiva que, de Tóquio a Pequim, em Seul, passando por Cingapura pela Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (CEAP), Obama repetiu sua mensagem: os Estados Unidos são uma potência do Pacífico. Certamente eles o são por sua presença econômica, política e militar. Essa insistência em lembrar uma evidência, que um século atrás Theodore Roosevelt já ressaltava - "Nossa história será determinada mais por nossa posição sobre o Pacífico frente à China do que sobre o Atlântico frente à Europa"- , diz muito sobre a conscientização de Washington do declínio da influência americana nessa parte do mundo.

A imagem dos EUA que a Ásia reflete não é mais a de uma potência "imperial". A mensagem, formulada de maneira mais ou menos acentuada, pelos interlocutores asiáticos de Barack Obama é simples: os Estados Unidos continuam a ser um grande ator no cenário asiático, mas eles não são mais o "protagonista". A imagem conciliadora que o presidente americano se esforçou para passar, rompendo com aquela de seus antecessores "vencedores da guerra fria", e sua aparente falta de agressividade em relembrar o universalismo dos valores que os Estados Unidos clamam, refletem menos uma mudança de orientação política de Washington do que um realismo restrito.

Enquanto George Bush conduzia sua "guerra contra o terrorismo", dividia o mundo entre "bons" e "malvados" e desencadeava dois conflitos no Iraque e no Afeganistão, nos quais ele afundou seu país e seus aliados, a ordem asiática mudava. A China suplantava os Estados Unidos como o principal parceiro econômico de seus aliados asiáticos - a Coreia do Sul e o Japão - e se tornava seu principal credor com US$ 800 bilhões (R$ 1,4 trilhão) em títulos do Tesouro Americano. Obama "visita seu banqueiro", ironizava o "New York Times", na véspera da partida do presidente à Ásia.

Até o fiel Japão - "porta-aviões americano" no Pacífico - deixa de lado a tendência de seguir sem questionar: a chegada ao poder, em setembro, do Partido Democrata, que quer reequilibrar as relações com Washington ao mesmo tempo em que permanece no quadro da aliança EUA-Japão, é o reflexo de uma trabalhosa maturação da opinião pública. Por muito tempo, o Japão pensou sua aliança com os Estados Unidos em termos bilaterais. Mas na realidade ela é triangular: a China, que deveria ser "contida", sempre foi seu horizonte. O pacto de segurança nipo-americano garantiu a segurança do Japão, mas comprometendo qualquer aprofundamento de sua parte dos laços de confiança com seus vizinhos. Tóquio avalia hoje toda a fragilidade de sua diplomacia passada.
  • Saul Loeb/AFP

    Mal na foto A imagem final do presidente Obama na China, que circulou pelo mundo, diz muito: um homem solitário caminhando pela ladeira íngreme da Grande Muralha. A foto contrasta daquelas de outros presidentes dos EUA que foram fotografados na mesma Grande Muralha, cercados por crianças acenando bandeiras ou por cidadãos admirados



A política americana não visa mais "segurar" a China, mas sim cooperar com ela. Os dois países estão comprometidos em um processo de reconhecimento mútuo de sua potência. O Japão - logo destronado pela China como segunda potência econômica mundial - vê com muito maus olhos se esboçar uma espécie de duopólio (China-Estados Unidos). Uma "Chimérica" (quimera China-América) que o historiador Niall Ferguson, de Harvard, acredita que poderá desaparecer no dia em que a China se desatrelar dos Estados Unidos, tornando-se menos dependente do mercado americano.

Uma possibilidade que só torna mais atual a proposta japonesa de criação de uma comunidade da Ásia Oriental, reflexo da necessidade de Tóquio de se "asiatizar" mais e de reconfigurar a aliança no contexto de um "regionalismo aberto", não exclusivo dos Estados Unidos, vista com um interesse "cortês" por Pequim.

O Japão e a Coreia do Sul, bem como os países do Sudeste Asiático, têm consciência de que devem sua prosperidade ao domínio americano na região, mas agora eles veem ali, acima de tudo, um contrapeso a uma hegemonia chinesa. Para Washington, essa região é importante: além de seus dois centros de poder (China e Japão), ela tem mais muçulmanos que o mundo árabe, com a Indonésia e a Malásia. Dois países que associaram seu futuro à prosperidade da zona de expansão à qual eles pertencem geograficamente.

O balanço da viagem asiática de Obama pode parecer fraco. Mas ela lhe permitiu que se desfizesse de uma ilusão: a influência americana nessa parte do mundo não pode mais ser considerada como garantida, e Washington não pode mais deixar suas alianças no "piloto automático". A nova ordem asiática pede por iniciativas estudadas e a visita do presidente americano se inscreve em uma nova estratégia de abertura em direção à China, que implica se esquivar dos assuntos que irritam, mas também seguir em direção a Mianmar e à Coreia do Norte.

Tradução: Lana Lim

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