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10/12/2009

A vida de Lula, melodrama épico

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Lula assiste a Lula. O presidente brasileiro olha para as imagens daquele que ele foi: o menino pobre no Nordeste árido, o pequeno Luiz Inácio, engraxate de sapatos em São Paulo, aprendiz de torneiro mecânico, orgulhoso de seu macacão sujo de graxa, o orador sindicalista que fez vibrar estádios tomados por operários em greve.

A cena, como se sabe, se passa em um cinema. Mais precisamente em uma sala de São Bernardo do Campo, território político do chefe do Estado, na Grande São Paulo.

Naquela noite, de 28 de novembro, o presidente assistiu à projeção de "Lula, o filho do Brasil". Essa cine-biografia conta em duas horas e oito minutos, de forma romanceada, os 35 primeiros anos de sua vida.

Presidente Lula se emociona ao ver filme sobre a vida dele



Gozando do raríssimo privilégio, em uma democracia, de um chefe de Estado em exercício que contempla, em pré-estreia, a narrativa filmada de seu singular destino ainda não terminado, Lula enxuga uma lágrima com seu lenço branco.

Sentado na primeira fileira, ele é acompanhado de sua esposa, Marisa Letícia, e de Dilma Rousseff, que ele gostaria de ver como sua sucessora em um ano. A sala está cheia de amigos, entre os quais seus dois médicos preferidos, o verdadeiro, um cardiologista, e o outro, o "Doutor" Sócrates, outrora ídolo do futebol nacional e estrela do Corinthians de São Paulo, o time favorito do presidente. É a emoção? Após os aplausos no final do filme, Lula deixa a sala em silêncio sem dar a entrevista prometida aos jornalistas.

O filme é adaptado de um livro homônimo, uma reunião de entrevistas realizadas quinze anos atrás pela jornalista Denise Paraná com Lula e diversos membros de sua família próxima. Ela é uma das corroteiristas do filme. Mas o diretor Fábio Barreto o concebeu como um melodrama épico, no gênero das novelas nacionais, onde sobra emoção, acentuada por uma música insistente.

E assim o espectador está cheio de esperanças quando, em um belo dia de 1952, depois de vender suas poucas possessões, a venerada Mãe Coragem, Dona Lindu, coloca seus oito filhos pequenos em uma caminhonete para uma penosa viagem até o sul que duraria treze dias. Ele compartilha do orgulho do adolescente Lula quando este consegue um contrato de trabalho.

Ele se emociona quando Lurdes, sua primeira esposa, morre no parto junto com seu bebê. Ele chora quando Dona Lindu, verdadeira heroína do filme, falece, longe de Lula, que, sob o número 12.712 cumpre quarenta dias de prisão por rebelião contra a ditadura militar.

Um ator quase desconhecido de 31 anos de origem teatral, Rui Ricardo Dias, encarna o Lula adulto. Ele ganhou 10 quilos e trabalhou muito sua voz para conseguir o timbre rouco de seu personagem, suas entonações e sua maneira um pouco rude de falar.

Uma famosa atriz, Glória Pires, interpreta Dona Lindu. Sua carinhosa relação com seu filho é o cerne do filme. "Sempre me pergunto", o presidente repetiria mais tarde, "como uma mulher tão pobre, abandonada por seu marido, conseguiu criar sozinha oito filhos sem que nenhum se tornasse bandido ou alcoólatra".

Fábio Barreto não esconde sua ambição: fazer dinheiro, muito dinheiro. "O filho do Brasil" terá, em 1º de janeiro de 2010, um lançamento hollywoodiano em cerca de 500 salas - uma em cada quatro - no início das grandes férias de verão, o melhor período comercial do ano. Objetivo: 5 milhões de espectadores. Graças à ajuda dos sindicatos, e a ingressos com preços reduzidos, o produtor, pai do cineasta, espera atingir um público humilde que não vai ao cinema e talvez não volte nunca mais, especialmente nas regiões onde Lula viveu. Um DVD será colocado à venda em 1º de maio. "É um filme para o povo, não para os intelectuais", garante Denise Paraná.

Convidados comentam possível influência política do filme sobre a vida de Lula

O filme já suscitou duas controvérsias. A primeira, rapidamente acalmada, diz respeito a seu financiamento. Tendo como questão de honra não pedir dinheiro público, federal ou local, a produção apelou para o setor privado. Vinte e uma grandes empresas, entre as quais a francesa GDF-Suez, colocaram a mão no bolso.

A imprensa ressaltou que todas tinham contratos bem grandes com o Estado. Mas todas acreditam que seu mecenato não causa nenhum conflito de interesses. Talvez. Entretanto, quem poderia se recusar a patrocinar um filme apresentado como "autorizado" nas altas esferas? Como admite, anonimamente, o diretor de uma delas, "isso nos abrirá portas, ou no mínimo evitará que elas se fechem".

A outra querela é mais política. Para a oposição, o lançamento do filme, oito meses antes da eleição presidencial de outubro de 2010, é uma operação grosseira, uma manobra de propaganda em favor, se não de Lula, que não pode se candidatar novamente, no mínimo de Dilma, a futura candidata do PT.

Ainda mais, dizem os opositores, que essa obra de ficção necessariamente toma liberdades com a realidade, e embeleza seus personagens, especialmente Lula, beatificado em vida. O diretor do filme nega qualquer intenção eleitoral. Ele observa que Lula, fortalecido por sua trajetória, seu balanço e sua popularidade, não precisa de um filme para ser mitificado: "Ele já entrou para a História".

Tradução: Lana Lim

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