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10/12/2009

Prêmio concedido a Obama atrai os holofotes para o comitê do Instituto Nobel

Le Monde
Olivier Truc Oslo (Noruega)

O prêmio foi merecido?

Ao concederem o Prêmio Nobel da Paz, em 9 de outubro, a Barack Obama - que o receberá em Oslo na quinta-feira (10) - , os membros do Comitê também atraíram os holofotes para si, levantando questões sobre essa instituição da qual pouco se sabe.

O testamento de Alfred Nobel era lacônico: os cinco membros do comitê devem ser nomeados pelo Parlamento norueguês. O resto é questão de interpretação, de tradição, de equilíbrio de poderes e de uma dose de segredo que se baseia em regras, em sua maioria não escritas, desde 1901, mas que são emendadas ou transgredidas conforme necessário.

Então o testamento permite um amplo recrutamento, mas o Comitê nunca incluiu nenhum estrangeiro. "O Parlamento tem uma opinião elevada de si mesmo. Ele acredita que não precisa buscar fora", observa, com ironia, o professor Geir Lundestad, 64, secretário permanente do Comitê Nobel desde 1990, e, por essa condição, pilar, memória e guardião do templo em seu escritório do Instituto Nobel, onde se entra como em um moinho.
  • Liester Filho/Folha Imagem - 15.jun.2005

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Há décadas, são os partidos políticos noruegueses que, em função de sua representatividade decorrente das eleições legislativas, nomeiam seus representantes por períodos de seis anos renováveis e desencontrados com as eleições, que acontecem a cada quatro anos. "Tive de renunciar a meu posto de membro e presidente do Comitê porque as eleições de 2005 haviam sido desfavoráveis para meu partido", diz Ole Mjos, professor de medicina e conselheiro municipal do Norte, representante no Comitê Nobel do partido cristão-popular entre 2003 e 2008. Mjos é uma exceção. A tradição pede que os membros do Comitê sejam ex-deputados, às vezes ex-ministros. Uma maneira de recompensar políticos fiéis por serviços prestados ao partido, quaisquer que sejam eles.

A composição do Comitê Nobel não dependeria demais da agenda política do país? Os noruegueses negam. "Se o prêmio tivesse de representar a vontade dos partidos, ele perderia todo seu valor", garante Morten Hoglund, deputado do Partido do Progresso (direita populista). No mês anterior à entrega, nós recebemos pareceres sobre pessoas que não deveriam receber o prêmio. Ainda que expliquemos a nossos interlocutores que não temos nenhuma influência, continua sendo muito difícil de se aceitar isso em certos países".

Protestos retumbantes
"Não tenho mais ligação com o Partido Conservador desde que deixei a política", garante Kaci Kullmann Five, ex-deputada e ministra, membro do Comitê desde 2003. "E nunca discuto o Nobel com quem quer que seja, mesmo com meu marido". "As pessoas que questionam a independência do Comitê ignoram seu método de trabalho", insiste Thorbjorn Jagland, seu presidente. "Nós trabalhamos com base no consenso, e não em função da agenda política. E nada garante que especialistas não políticos seriam mais independentes".

O trabalho do Instituto Nobel, supervisionado por Geir Lundestad, tem um papel primordial. Ainda que ele não vote, o secretário permanente participa das deliberações, e, segundo um especialista, Lundestad "pesa mais do que todos os cinco outros membros do comitê juntos". Durante uma primeira reunião, no fim de fevereiro, o Comitê elimina 80% dos candidatos propostos por parlamentares do mundo inteiro ou por acadêmicos. Depois, até o anúncio do prêmio, Lundestad e quatro consultores associados ao Instituto - acadêmicos noruegueses dirigidos por Olav Njolstad, diretor de pesquisas no Instituto Nobel, historiador e autor de romances policiais - redigem um breve relatório sobre cada candidato.

"Obama mania"

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Durante as reuniões, novos relatórios são encomendados, muitas vezes com a ajuda de pesquisadores estrangeiros muito discretos. Lundestad define sua missão em dois pontos: "Fornecer os melhores relatórios possíveis e fazer com que o debate permaneça aberto até a última reunião, onde a decisão é tomada por unanimidade".

Os protestos, quando existem, permanecem discretos, e as exceções são retumbantes. Assim, em 1994, Kare Kristiansen pediu demissão do Comitê alguns dias antes do anúncio do prêmio. A razão: ele não aceitava que o líder palestino Yasser Arafat fosse escolhido - junto com os israelenses Shimon Peres e Itzhak Rabin.

O "escândalo" às vezes chega com atraso. Em 1973, o prêmio foi dado ao americano Henry Kissinger e ao vietnamita Le Duc Tho, mas este último o recusou, pois acreditava que "a paz ainda não havia sido atingida". "Dois membros do Comitê Nobel não se candidataram à eleição seguinte. Nós soubemos dez anos mais tarde que era em protesto contra esse prêmio!", diz Harald Stanghelle, repórter político do jornal "Aftenposten".

Em 1935, o prêmio foi concedido a Carl Von Ossietzky, militante pacifista alemão, então internado em um campo de concentração nazista. Dois membros do Comitê Nobel, ministros do governo, pediram demissão, pois, na condição de ministros preocupados em não ofender Hitler, era impossível para eles apoiarem Ossietzky. Desde esse caso, nenhum ministro em atividade pode ser membro do Comitê.

É por temor de tais conflitos de interesses que Thorbjorn Jagland, o atual presidente do Comitê, tem sido criticado na Noruega, desde sua nomeação à presidência do Conselho da Europa em Estrasburgo neste outono. "Jagland precisa muito da Rússia para reformar o Tribunal dos Direitos Humanos do Conselho da Europa. Até agora, os russos bloquearam essa reforma. O que acontecerá se um opositor russo estiver sujeito a receber o Nobel da Paz?", se pergunta Jan Arild Snoen, escritor e membro de um grupo de pensadores conservador. O testamento de Alfred Nobel decididamente não havia previsto nada.



Tradução: Lana Lim

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