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12/12/2009

"Agora, a islamização dos costumes está triunfando", diz Wassyla Tamzali

Le Monde
Josyane Savigneau
Nascida em 1941, Wassyla Tamzali foi advogada em Argel e depois diretora do programa de Direitos da Mulher para a Unesco. Ela milita no movimento feminista magrebino. Publicou, em 2007, pela editora Gallimard, "Une éducation algérienne" ["Uma educação argelina"], e também "Une femme en colère: Lettre d'Alger aux Européens désabusés" ["Uma mulher em fúria : Carta de Argel aos europeus desiludidos"].

Le Monde: Em "Une femme en colère", a senhora se pergunta se o feminismo laico cumpriu seu papel histórico.
Wassyla Tamzali:
Há mais de um século, pensadores, intelectuais e feministas tentam mostrar que, sem renegar o Islã, pode-se chegar a atitudes diferentes daquelas que são correntes. Uma constatação do meu livro é que este trabalho não teve influência sobre o próprio interior do problema. Daí meu interesse pela aparição em massa dessas mulheres que lutam ao mesmo tempo em que permanecem no seio da religião, e minha pergunta é: "O feminismo laico acabou?" Mas é uma figura de linguagem.

Fui e continuo sendo arraigada em uma cultura universalista. O feminismo magrebino ao qual pertenço foi trazido pelos movimentos de descolonização com a participação maciça das mulheres, e, quaisquer que tenham sido seus resultados, esses movimentos falavam de liberdade e de igualdade.

Le Monde: A senhora é pessimista quanto à situação das mulheres hoje em dia. A senhora realmente acredita que os progressos sociais sejam simples reestruturações do sistema patriarcal?
Tamzali:
Se as reformas sociais forem a única solução, sim. E o que pensar do trabalho se as mulheres são cada vez mais obrigadas a usar o véu para ir trabalhar? A cultura do harém se apoderou das ruas, não foi a modernidade que entrou nos lares! Veja a educação, que é a panaceia dos reformistas. Através da educação religiosa nas escolas, colocamos nas cabeças das crianças que a dominação das mulheres é exigida por Deus.

Talvez nossa tradição mediterrânea não tenha inventado a dominação das mulheres, mas certamente inventou o sistema familiar mais eficaz para mantê-la viva. Os Estados modernos pós-coloniais não nos libertaram da "República dos primos", retomando Germaine Tillion. Nem o texto corânico acabou com a moral sexual mediterrânea. Entretanto, o Profeta do Islã havia aberto uma brecha na dominação masculina secular. O homem e a mulher, criados ao mesmo tempo, são expulsos do paraíso por um erro comum: "Vocês continuarão a brigar até o fim dos tempos". Isso não durou muito, com o tempo os exegetas restabeleceram a ideia de uma mulher diabólica e perigosa, e daí surgiu a ideia de enclausurá-la.

Hoje somos confrontados a um vasto campo de doutrinação sobre a inferioridade das mulheres, conduzida por sábios, pelas escolas, pelas televisões por satélite, pelos milhares de imames autodidatas, e pelas estrelas da mídia. Então quando aqui, em Paris, me falam de liberdade e de escolhas para usar o véu, eu sorrio.

A questão de igualdade é uma questão ética; ela deve ser abordada sobre o plano dos princípios e não pelas reformas sociais. Daí a necessidade do laicismo, somente ele pode derrubar as relações de opressão pelas quais sofrem as mulheres e os homens nas sociedades muçulmanas; somente o laicismo pode levar ao surgimento de uma consciência moderna muçulmana.

Le Monde: Segundo a senhora, a maneira como esse debate é levantado na França faz com que as próprias feministas não coloquem mais a igualdade no centro de suas preocupações.
Tamzali:
Algumas feministas, cujos discursos confortam as antifeministas. Elas se juntam a uma minoria da intelligentsia de esquerda que acredita que não se pode mais mudar o mundo, e que é preciso aceitá-lo como ele é. Hoje se quer dialogar com todo mundo, varrem-se todas as dificuldades e escondem a poeira sob o tapete para se ter a paz. Não querem mais abordar as questões essenciais. Parece que se aceita tudo em um movimento de fraternidade recuperada, mas na realidade, é para controlar melhor o planeta.

Nossa época é a da derrapagem controlada. São as mulheres que pagam, e as feministas que são enviadas à zona de guerra para lutar contra pedaços de tecido. O véu e a burca são artifícios pelas quais nos desgastamos. Somos reduzidas a lutas ridículas, ao passo que a essência é grave. Quem se interessa pela essência das coisas?

Le Monde: O que a senhora tem vontade de dizer às garotas que, na França, exigem o uso do véu?
Tamzali:
Que elas caíram em uma armadilha. Algumas usam o véu pelo jogo, por provocação, mas também por rebeldia contra a ordem dominante, encontrando ali uma definição da liberdade. Tenho vontade de lhes dizer que não se pode exprimir sua liberdade atirando-se sem resistência a uma cultura cujo objetivo é a dominação das mulheres.

Os movimentos dos anos 1970 foram a rejeição a qualquer identificação. Hoje, só se reivindica sua identidade, geralmente uma identidade de vítima; por exemplo: os nativos da República, as prostitutas... Diante disso, pedem-nos que abandonemos a ideia de que a história caminha no sentido da emancipação das mulheres e da igualdade para todos.

Seríamos ultrapassadas, e as mulheres de véu representariam o futuro nascido das classes da liberdade, e da descolonização. Elas ajudam a democracia real e nós mantemos conflitos de cultura entre os povos!

Le Monde: A senhora também é crítica em relação ao islamismo moderado.
Tamzali:
O islamismo moderado é um conceito político. Ele diz respeito aos sistemas políticos, é uma questão de tática política e não me ajuda em nada, eu chegaria a dizer que ele é perigoso. O que me interessa é me questionar com aqueles que compartilham da minha história, das minhas preocupações, bem como das minhas esperanças, sobre o que assusta hoje no islamismo. E primeiramente falar disso com os muçulmanos.

São muitos os que rejeitam o islamismo sob todas suas formas. Gostaria de lhes dizer que, em vez de ver no debate sobre a burca os sinais do racismo, eles deveriam dizer que rejeitam a burca e que é atroz querer colocar as mulheres nessa posição. Uma grande manifestação nesse sentido teria mudado a cara do problema, cuja solução está nas mãos dos muçulmanos silenciosos, e na sua coragem de dizer o que pensam. Esses muçulmanos existem, são muitos deles, mas por enquanto sua música é frágil, ela não interessa às mídias.

Le Monde: Como a senhora explica que no Marrocos, na Argélia, na Tunísia, mulheres intelectuais decidam usar o véu?
Tamzali:
Diversas razões são mencionadas, e eu vejo muitas delas, como a busca por uma respeitabilidade, uma boa conduta, a demonstração de sua submissão para atrair os homens, etc. Mas quero dizer aqui que a explicação religiosa não me convence, vivi o islamismo em minha família onde as mulheres e os homens praticavam sua religião sem precisar de todos esses símbolos. Acredito que a razão principal seja que o véu é vivido como uma fortaleza contra a violência sexista, simbólica ou exprimida.

Existem escolas, universidades e outros locais na Argélia onde não se pode mais ficar sem o véu. Em árabe argelino dizem que uma mulher sem véu está nua, o que é bastante revelador. É uma fortaleza ilusória; em meu livro mostro a escalada da violência nas ruas árabes onde há cada vez mais mulheres de véu.

Le Monde: A senhora diz que mesmo onde o islamismo político não triunfou, a islamização de costumes está vencendo.
Tamzali:
Sim. Agora, a islamização de costumes está triunfando, ela se espalha sob a vigília da violência islâmica que só está adormecida. Não me iludo. Mas sou uma otimista incorrigível. Os "bons muçulmanos" que lutam no seio da religião são a prova de que o fenômeno da opressão não pode durar eternamente. E também porque nós, feministas laicas, estamos sempre nos mobilizando, com os homens e as mulheres de nosso país que têm, apesar de tudo, o gosto pela liberdade.

Tradução: Lana Lim

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