UOL Notícias Internacional
 

13/12/2009

São loucos estes romanos!

Le Monde
Caroline Fourest
A mundialização tem qualquer coisa de vertiginosa. Para selecionar as coisas em meio a essa imensidão, é grande a tentação de se agarrar àquilo que se parece conosco em vez de àquilo que nos une: a identidade e não as ideias. O medo da uniformização favorece paradoxalmente a redução identitária, quer seja comunitária, cultural, religiosa, regional ou nacional. Em face a essas tensões conflitantes, existem duas tentações: a de deixar "tecer" o laço social e a de costurar a sociedade como um colete.

Uma certa ingenuidade multiculturalista queria acreditar que tudo era para o melhor no melhor dos mundos. O aumento das demandas particulares em nome do religioso não representaria nenhum problema. Em alguns países, a invocação da cultura ou da religião permite até mesmo obter favores ilícitos. Uma mulher coberta inteiramente com o véu tem o direito de fazer suas compras mascarada, enquanto uma mulher usando capuz seria impedida.

No Canadá, um paciente judeu foi atendido com prioridade no pronto socorro para que ele pudesse voltar para casa antes do shabbat, enquanto que um fã de "Stargate", jamais obteria um favor parecido para não perder sua série favorita. Na Grã-Bretanha, os sikhs têm o direito de dirigir moto sem capacete, por usarem turbante, enquanto os motoqueiros com bandanas são multados. Nos Estados Unidos, os americanos de origem indígena podem consumir substâncias alucinógenas tradicionais, enquanto inúmeros consumidores de cannabis são impedidos por causa das leis antidrogas... Esses direitos especiais não parecem muita coisa. Mas, colocados lado a lado, eles desmontam a igualdade e a universalidade.

Cansados de debates infindáveis sobre como "acomodar" ou proibir essas demandas insólitas, os povos perdem a paciência. Fica fácil então explicar que todos os males vêm de uma só religião, o Islã, e não do fundamentalismo. Que bastaria impedir a imigração para salvar a identidade nacional... uma vez que os convertidos de olhos azuis usam o niqab e que as mulheres argelinas imigraram para a França para não usarem o véu.

O que importam essas sutilezas. As mais altas autoridades sugerem o retorno à identidade nacional para responder à regressão comunitária. O Islã será a religião dos "acolhidos" e teria que se tornar discreta para não chocar aqueles que a "acolhem". Tudo soa falso na narrativa que nos propomos. O Islã se torna uma religião exógena simplesmente por causa da anterioridade judaico-cristã. E a França se vê redefinida por suas raízes religiosas mais do que por suas leis laicas, como se Clovis tivesse predominado sobre a Revolução Francesa. Não era este, já, o propósito arriscado do presidente em Saint-Jean-de-Latran?

Nós cremos igualmente reconhecer um slogan da moda: "Em Roma, faça como os romanos". Pior ainda se o fundamentalismo é um fenômeno político e não cultural. Se ele seduz alguns gauleses e repugna alguns muçulmanos, tão "romanos" quanto os outros. Sutilezas de intelectuais, pode-se dizer...

Como não confortar a demagogia com argumentos assim? Marine Le Pen nos explica que a solução não reside somente na identidade nacional, mas a identidade francesa desejada. Como se o fundamentalismo católico e o nacionalismo fossem a resposta para o comunitarismo muçulmano... Como se pudéssemos resolver a crise do multiculturalismo voltando ao monoculturalismo!

Felizmente, existe uma alternativa para essas duas tentações. Aceitar reconhecer que o desafio é político e não cultural. Não responder pela identidade, mas pelo ideal: o humanismo laico e universalista.

Reencontrar o caminho de um modelo francês que combata as desigualdades e reforce a cidadania. Continuar a fazer da laicidade o coração desse novo pacto cidadão. Em uma palavra: não apelar para fazer como com os "romanos", mas resistir a todos aqueles que queiram nos levar seja para a idade da pedra, seja para o Império Romano.

Tradução: Eloise De Vylder

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