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16/12/2009

Príncipe Charles: "Vamos fazer as pazes com a natureza lutando contra o desmatamento"

Le Monde
Príncipe Charles
Nesta semana, o mundo espera que sejam feitos progressos na cúpula de Copenhague. O processo internacional no qual ela se inscreve constitui, creio eu, uma das iniciativas mais importantes de nossa época, pois sem limitar nosso impacto sobre a atmosfera do planeta, deve-se esperar pelas consequências mais terríveis. O desafio a enfrentar não é simplesmente político e tecnológico. Ele se aplica tanto à nossa vontade de cooperar quanto à nossa capacidade de pensar de forma diferente.
  • Hugo Burnand/AP

    O Príncipe Charles, do país de Gales, é herdeiro
    do trono britânico e autor do projeto "Rainforests", que busca alternativas para o desmatamento



A esse respeito, fiquei muito impressionado com a iniciativa tomada há alguns meses pelo presidente Sarkozy, quando ele criou a comissão para medir os desempenhos econômicos e o progresso social. Afinal, os bilhões de toneladas de emissões de gases do efeito estufa que lançamos todos os anos na atmosfera estão ligados a atividades econômicas que acreditamos serem capazes de melhorar o bem-estar da espécie humana. Talvez uma nova definição do progresso econômico nos permitiria que fizéssemos mais para reduzir isso?

Atualmente, acreditamos ser necessário escolher entre o desenvolvimento econômico e a proteção dos ecossistemas de nosso frágil planeta. O aquecimento climático é o próprio exemplo da forma errônea como entendemos o problema, pois ele não constitui primeiramente uma alternativa ao desenvolvimento econômico; trata-se, na verdade, de um "multiplicador de riscos", um fator que diminuirá nossa capacidade de melhorar o bem-estar da humanidade, se não agirmos imediatamente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Por exemplo: colocar um fim à pobreza, para que cada um possa ter a possibilidade de ter uma vida decente, já constitui um desafio ambicioso que a rapidez do aquecimento climático tornará ainda mais difícil. Diversos estudos colocaram em evidência as ameaças que as mudanças climáticas exercem sobre o desenvolvimento econômico, especialmente nos países mais pobres e mais vulneráveis. O que consequentemente afetará os programas que visam reduzir a pobreza.

A segurança alimentar já é ameaçada pela erosão dos solos e pela alta dos preços do petróleo e do gás que alimentam o agronegócio, ao passo que a demanda aumenta em razão do crescimento da população e da evolução dos hábitos alimentares. O aquecimento climático só exacerbará essa situação insustentável. Segundo as previsões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a queda da produtividade agrícola poderá atingir 50% em muitos países em desenvolvimento até 2080, especialmente por causa das mudanças que afetam a pluviosidade.

É por isso que me parece que devemos adotar uma nova abordagem, cujo ponto de partida deve ser ver o mundo como ele realmente é, e talvez também aceitar que a economia depende da natureza, e não o inverso. Afinal, a natureza constitui o capital do qual depende o capitalismo. As florestas virgens tropicais são prova disso.

Esses incríveis ecossistemas abrigam mais da metade da biodiversidade terrestre do planeta da qual depende nossa sobrevivência, quer gostemos disso ou não. São essas florestas que geram a chuva. Elas constituem o habitat de muitos povos autóctones e permitem atender as necessidades de centenas de milhões de seres humanos. Além disso, elas retêm enormes quantidades de carbono. Entretanto, todos os anos elas veem desaparecer quase 6 milhões de hectares que se vão em toras e em fumaça. Além de acelerar a extinção em massa de espécies que podem ajudar tanto no tratamento de doenças humanas quanto na elaboração de novas técnicas que se baseiam na imitação do gênio da natureza, esse desmatamento provoca emissões maciças de gases de efeito estufa, representando cerca de um quinto do total das emissões do planeta.

É por isso que meu projeto "Rainforests" ("florestas tropicais") dedicou tantos esforços ao longo dos dois últimos anos com o intuito de facilitar um consenso sobre a cooperação internacional para reduzir o desmatamento. Em abril, convidei os chefes do Estado e de governo para o Palácio de St. James, paralelamente ao G20 de Londres. Durante essa reunião, foi decidido que seria criado um novo grupo informal encarregado de estudar os meios de conter esse desmatamento. Esse grupo formulou recomendações, há algumas semanas, e é muito encorajador observar a importância dos laços criados entre os países, as empresas e os grupos ambientais decididos a trabalharem juntos para aplicar as medidas propostas, destinadas a combater as raízes econômicas do desmatamento.

Ao recompensar financeiramente os países que conseguissem conter o desmatamento (ou que o tenham evitado,) nós faríamos com que os países que abrigam florestas primárias aplicassem estratégias de desenvolvimento sustentável, sem ter de depender das atividades econômicas que lucrem com elas. Ao recorrer - além dos financiamentos públicos - a instrumentos financeiros inovadores e a investimentos de longo prazo, sustentados pelos bancos multilaterais de desenvolvimento, grandes superfícies, já degradadas, poderiam ser restauradas e a produção alimentar cresceria.

Conferência do Clima COP15

  • Reprodução


Paralelamente, seriam liberados fundos para financiar novos programas de saúde e de educação, bem como modelos de desenvolvimento rural integrado. Em troca, o mundo financiaria os serviços vitais fornecidos pelos ecossistemas, com os quais contamos para garantir nossa sobrevivência econômica, material e espiritual.

A ideia de que o mundo deveria pagar de uma maneira ou de outra pelos serviços das florestas tropicais (afinal, já pagamos pela água, pelo gás e pela eletricidade) não é nova. Entretanto, parece que finalmente muitos já concordam que essa seria uma forma de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e de assim ganhar um tempo precioso em nossa batalha contra a catástrofe que é o aquecimento climático. Graças a esse processo construtivo, diferentes países puderam encontrar uma abordagem sobre a qual conseguiram se entender e que, assim espero, levará a uma cooperação internacional que possa fazer toda a diferença.

É preciso que sejam tomadas iniciativas desse gênero, mas elas são somente uma parte da solução, e não bastariam por si sós. À medida que nos distanciamos da natureza e nos aproximamos das invenções tecnológicas para resolver nossos problemas, enxergamos cada vez menos nossas dificuldades tais como elas são, ou seja, como resultado da perda da noção de equilíbrio e de harmonia com os ritmos da natureza, seus ciclos e seus recursos limitados. O fato de que vemos a economia como algo separado da natureza é somente um dos sinais desse desequilíbrio.

Fazer as pazes com a natureza e realinhar nossas empresas e nossas economias sobre essas possibilidades: para mim, é esse o verdadeiro desafio que precisamos enfrentar. Espero que a cúpula de Copenhague contribua para uma mudança profunda, bem como para o estabelecimento de um plano de transição para uma economia limpa com objetivos oficiais, políticas e tecnologias bem definidas. No estado atual das coisas, o mundo os tem, o que lhe falta é o estado de espírito necessário para enfrentar essa situação.

Se o tempo não agir em nosso favor, o que nos resta é nossa capacidade de cooperar e inovar para encontrar soluções. No passado, fomos confrontados a imensos desafios, que vencemos. Desta vez, o desafio parece maior do que nunca, mas espero, de todo coração, que em Copenhague consigamos mostrar tudo aquilo de que somos capazes. É o mínimo que podemos fazer pelas futuras gerações.

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