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20/12/2009

Na Inguchétia, homens mascarados espalham o terror

Le Monde
Marie Jégo Em Nazran, Sleptsovsk e Karabulak (Inguchétia)
Com suas casas de tijolo vermelho, seus gansos, suas hortas, a Inguchétia, república do Cáucaso ao sul da Rússia, parece um tranquilo condado bucólico. No aeroporto, não há inspeção nem homens armados como antes, na época das guerras russo-tchetchenas (1994-1996 e 1999-2002), e sim famílias se abraçando. No estacionamento, um grupo de homens idosos pechincha por botas tradicionais, de couro preto e salto baixo, que passam de mão em mão.

Apesar dessa aparente tranquilidade, essa república muçulmana, vizinha e prima da Tchetchênia, não tem paz. Há uma guerra latente entre as forças de ordem e a guerrilha islamita. Explosões, tiros, assassinatos fazem parte do cotidiano. Desde o início do ano, a violência fez 260 mortos, entre policiais, terroristas e civis, segundo dados da Mashr, uma organização da Inguchétia de direitos humanos criada pelas famílias das vítimas.
  • Kazbek Basayev/AFP

    Sob as máscaras do terror Em agosto deste
    ano, a explosão de um caminhão bomba por um terrorista suicida em Nazran, na instável república russa da Inguchétia, deixou ao menos 20 mortos e 138 feridos, numa ação que desencadeou imediato endurecimento contra rebeldes separatistas locais



Na estrada principal, os sinais da guerra estão presentes. Durante a desativação de minas nos acostamentos, uma coluna de blindados diminui o ritmo. Os soldados nos tanques usam máscaras pretas, e os desativadores de minas também. Nessa zona do Cáucaso atormentada pela violência, os homens mascarados estão por toda a parte.

A sexagenária Leila Plieva é dominada pela ansiedade desde que embarcaram seu filho Aliskhan. Em 4 de novembro, dia da festa nacional russa "da Unidade", Leila descansava em sua casa, no pequeno município de Plievo. Ao meio-dia, seis carros sem placa cercaram a casa, e cerca de vinte homens armados e mascarados invadiram-na para levar o jovem. Preso e com um saco na cabeça, Aliskhan foi jogado no banco de um carro. A operação durou alguns minutos. Quem são eles? Para onde o levaram? Por quê? Leila não sabe. "Não é da sua conta!", os mascarados lhe responderam quando ela pediu notícias de seu filho. Uma coisa é certa: Aliskhan, 29, sumiu.

Antes desse desaparecimento, essa mãe de oito filhos não se interessava nem pelos assassinatos, nem pelos sequestros. Ocupada por sua vida de família e por seu trabalho como técnica de laboratório na clínica de Nazran, capital da Inguchétia, ela já ouvira falar vagamente nisso, mas "não prestava atenção".

Essa mulher correta, de blusa branca e lenço azul amarrado na cabeça, nos recebe na clínica. Depois de fechar a porta do pequeno consultório médico, ela confessa sua angústia: "Se meu filho fez alguma coisa, que o julguem! Que o fuzilem, se for culpado! Tudo é melhor que essa incerteza!"

Leila criou quatro rapazes e quatro meninas. Todos estudaram, quase todos têm uma profissão, algo raro nessa região agrícola e pobre, onde o desemprego de jovens atinge 80%. Sua filha mais velha é cirurgiã no hospital local, o caçula estuda na Academia das Tropas de Mísseis Estratégicos em São Petersburgo. A família não é religiosa, não tem ligações com a guerrilha, não se interessa por política.

Com saúde frágil, Aliskhan ajudava seus irmãos mais velhos em sua oficina de marcenaria. À noite, ele estudava economia por correspondência. "Ele saía pouco, não ia à mesquita", conta sua mãe. Depois da captura, ela e seu marido bateram em todas as portas: delegacias, procuradoria, ministério do Interior. O presidente da Inguchétia, Yunus-Bek Yevkurov, "foi avisado, deu ordens, mas aparentemente não há nada que ele possa fazer", ela diz, limpando uma lágrima.

Até hoje, ninguém sabe onde está seu filho, muito menos quem o está prendendo. Leila acredita que ele está nas mãos "dos serviços". Ela os reconheceu pelo uniforme camuflado. E "quem, senão eles, pode usar máscaras e circular em carros sem placa?", ela explica, com a voz trêmula de raiva.

Em nome da luta contra o terrorismo, os homens mascarados têm todos os direitos. Eles cercam as casas, penetram nas aulas, levam os jovens ou os matam na hora. Eles raramente se apresentam, e prendem sem mandado. A impunidade é garantida para eles. Eles estão acima da lei, "acima de tudo que vive", como resumia o escritor Alexandre Soljenitsyne a respeito da polícia soviética (NKVD, OGPU, MGB), o braço armado dos expurgos stalinistas.

Na grande sala de jantar da fazenda da família, no número 55 da rua Pavlova, em Ordjonikidzevskaia, Aminat Makhloeva também se angustia. Seu filho Maskhud foi levado em 29 de outubro por homens mascarados, com a regata cobrindo a cabeça, presa por fita adesiva. Khamutkhan, o pai, com seu chapéu muçulmano na cabeça, quer acreditar que seu filho "ainda está vivo".

A casa é espaçosa e iluminada, com suas paredes caiadas, e há poucos objetos. "Durante uma busca em 2008, os policiais roubaram a chapka e o kinjal (faca tradicional) do avô e outros objetos", explica o pai, um ex-pedreiro. Ele foi se queixar às autoridades, sem resultados.

Um pouco mais além, em Sleptsovsk, os Albakov ainda estão em estado de choque. Em 10 de julho, os homens mascarados levaram o filho, Batyr, 26, engenheiro mecânico do aeroporto local, para "uma verificação de identidade". Ele não voltou. Onze dias depois, seu corpo foi encontrado em uma floresta em Arshty, na Inguchétia. Segundo a versão oficial, Batyr, "um combatente" segundo a mídia, foi morto durante uma "operação especial" da polícia tchetchena conduzida pelo deputado da Duma (Câmara Baixa do Parlamento russo) Adam Delimkhanov.

Em Moscou, a informação foi levada a sério. No local, ninguém conseguia acreditar, especialmente os médicos que viram os restos mortais. Além de duas perfurações por bala, o corpo de Batyr tinha marcas de tortura - hematomas, facadas - e sua mão esquerda estava "arrancada pela metade, cortada por arma branca", segundo os médicos. A família prestará queixas, mas sem ilusões. Os carrascos "são intocáveis". A última esperança está no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH). As famílias de vítimas de extorsão recebem indenizações, mas as recomendações do Tribunal não são aplicadas.

Os desaparecidos continuam desaparecidos, os culpados nunca são encontrados, como é o caso na Tchetchênia. Os 467 mil habitantes da Inguchétia (recenseamento de 2002), colonizados pelos czares no século 19, deportados por Stálin em 1944, vivem hoje uma repressão quase comparável àquelas sofridas por seus vizinhos tchetchenos, o povo irmão, mesmo que eles nunca tenham tido intenção de se separar da Rússia. A impunidade é total. Albert, jurista da organização de defesa dos direitos humanos Memorial, em Nazran, garante que "em seis anos de trabalho na Memorial" ele nunca viu "nenhum caso ser resolvido, entre aqueles que passaram pelos juízes em Estrasburgo".

Apelar ao Tribunal Europeu tem seus riscos. Em janeiro, Zinaida, a mulher de Adam Medov, um habitante da Inguchétia sequestrado em 2004 pelas forças russas de segurança, recebeu 35 mil euros do TEDH. No meio tempo, ela teve de deixar a Rússia. Ofereceram-lhe dinheiro em troca de que retirasse sua queixa. Como ela se recusava, as ameaças continuaram e ela fez as malas. Os homens mascarados não gostam de publicidade.

Por trás das máscaras se escondem os representantes da OBR2, uma divisão do ministério do Interior que recebe ordens diretas do poder federal. O general Arkadi Edelev, um veterano dos serviços de segurança (FSB) que se tornou vice-ministro do Interior da Rússia, é seu grande chefe. Esses esquadrões são constituídos por russos enviados em missão para a região, que agem com o apoio de auxiliares tchetchenos (os capangas do presidente Kadyrov, chamados de "Kadyrovtsy") e inguches.

O quartel-general da ORB2 fica em Grozny. Tanto na Inguchétia quanto na Tchetchênia, seus representantes fazem prisões segundo denúncias ou listas de suspeitos estabelecidas em cada vilarejo com ajuda da polícia, do imame e de informantes. "Eles trabalham de qualquer jeito, confundem as identidades, pode-se dizer que eles não sabem realmente quem estão prendendo", lamenta Timur, que dirige a agência da Memorial em Nazran.

Fundada em 1989 pelo dissidente Andrei Sakharov, a Memorial é uma das raras organizações a relatar as extorsões no Cáucaso. Em 15 de julho, Natalia Estemirova, a alma da agência de Grozny, foi sequestrada e depois executada. Assim como ela, todos aqueles que denunciam, investigam, testemunham e lutam pelo respeito das leis e da liberdade, correm o risco de morrer.

Os defensores dos direitos humanos não têm muito peso para os homens mascarados. Seus métodos são os mesmos da NKVD [polícia secreta soviética] na época dos expurgos stalinistas. As denúncias e as confissões sob tortura têm valor de prova. O tiro na cabeça é a opção preferida deles. A ameaça e o medo são o carro-chefe. "É porque as pessoas têm medo que os serviços podem se permitir agir dessa forma", explica Timur, em Nazran.

Em 6 de agosto, durante uma "operação especial" no vilarejo inguche de Kantyshevo, os homens mascarados levaram Adam Khatuev, de 21 anos. Segundo a família, eles o executaram friamente com uma pistola na fazenda da família. Após atirarem várias vezes para cima, eles jogaram a arma sobre o cadáver, "um combatente", dirão as agências de notícias locais. Depois, as forças especiais foram na casa dos vizinhos para levantar suas identidades. Quando os representantes da Memorial passaram logo depois para colher os depoimentos, ninguém queria falar. As pessoas tinham medo. Elas acabaram dizendo o que haviam visto, com a condição de que seus nomes não fossem citados. Ora, "sem testemunhas, não há processos", explica Timur.

Magomed Mutsolgov, que dirige a associação Mashr pela busca dos desaparecidos (175 pessoas desde 2002), denuncia um "sistema de terror comum a toda a região". Stalin dizia: "Se não há homens, não há problemas", esse princípio está mais vivo do que nunca, ele garante. Ele também recebe ameaças, e prefere não pensar nisso. E ele pensa em deixar o país? "Se eu for embora, quem vai fazer meu trabalho?"

Seu nome consta em uma lista de pessoas a serem eliminadas. Ele soube disso em agosto. A lista também incluiria o nome do opositor Maksharip Aushev. Ele foi morto a tiros em seu carro, em uma estrada de Kabardino-Balkarie, uma república vizinha, em 25 de outubro. Rico graças à venda de material de construção, militante ativo da oposição, ele tinha acesso privilegiado por toda parte. Nenhuma manifestação ou petição se fazia sem sua participação. Sua morte causou indignação na Inguchétia.

Em 2007, Maksharip Aushev havia conseguido tirar seu filho e seu sobrinho das garras dos homens mascarados. Pior, ele havia revelado a existência de sua prisão secreta em Goiti, um vilarejo na Tchetchênia. Os dois jovens haviam sido libertados, de última hora. Pouco depois foram executados. Seus passaportes e pertences pessoais haviam sido queimados, indício de uma execução programada.

"Os serviços nunca perdoaram Maksharip. Eles o mataram. Foi uma mensagem que veio de cima: calem-se, senão faremos o mesmo com vocês", denuncia um de seus amigos, que pediu para seu nome não ser divulgado. Ele conta como algumas semanas antes de sua morte, em 15 de setembro, Maksharip havia sido convidado para uma reunião do conselho de segurança em Magas, sede da administração. Ele teve uma conversa com um oficial da FSB. No caminho de volta, homens de uniforme tentaram sequestrá-lo, mas ele conseguiu fugir. "Um mês e meio depois, eles o pegaram! E isso vai continuar. É um sistema. A Rússia não precisa mais da pena de morte porque os opositores são mortos em cada esquina", garante seu amigo.

O assassinato de Maksharip Aushev atingiu a credibilidade do presidente inguche Yunus-Bek Evkurov. Nomeado há um ano pelo Kremlin para substituir uma direção brutal e corrupta, o novo presidente ganhou a confiança de seu povo. Ele é acessível, recebe seus compatriotas, os escuta, não hesita em consultar os militantes dos direitos humanos. Em uníssono com o Kremlin, esse general da Inteligência militar soviética (GRU) fala em "liquidar" os chefes de bando apoiados "pelos serviços estrangeiros", mas ele também entende que os métodos dos serviços russos são o melhor terreno para desenvolver o extremismo que eles pretendem combater.

Recentemente, ele proibiu o uso de máscaras, as prisões sem mandado, os carros sem placa. Mas que meio de ação ele tem contra os poderosos "siloviki", esses homens de dragonas originários dos serviços e próximos do primeiro-ministro, Vladimir Putin?

Para Magomed Mutsolgov, o presidente Evkurov, dotado das melhores intenções, "não tem nenhum controle nem sobre as forças de ordem nem sobre os serviços". Ainda que o pequeno vento de liberdade trazido pela chegada do general seja bem-vindo, ele acredita que os sequestros e os assassinatos tenham dobrado de intensidade nos últimos meses. "O sistema não mudou", ele suspira.

Na estrada para o aeroporto, os desativadores de minas continuam de máscara. No ônibus, mulheres idosas usando lenços e segurando bem suas bolsas, conversam em voz baixa. No posto de controle, na saída de Nazran, elas fazem um sinal com a cabeça. Um soldado de pé sobre seu blindado olha o ônibus passar, com o olhar arrogante sob sua máscara. Uma das mulheres sussurra em minha orelha: "O urso russo nos colonizou pelo sangue, nos deportou para a Ásia central em 1944, matou 150 mil tchetchenos durante a guerra, e agora nos caça como coelhos em um campo de tiro".

Tradução: Lana Lim

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