UOL Notícias Internacional
 

21/12/2009

Não há solução no Afeganistão sem forte apoio militar, diz general francês

Le Monde
Nathalie Guibert
Depois de um primeiro trimestre à frente do Comando Aliado de "Transformação" (ACT, sigla em inglês), um dos dois comandos estratégicos da Otan, encarregado de adaptar as forças dos Estados membros às missões da Aliança, o general francês Stéphane Abrial dirigiu uma carta ao secretário-geral Anders Fogh Rasmussen para lhe anunciar seu diagnóstico e suas prioridades. Ele explica o porquê.
  • Reuters

    "Nós trabalhamos na luta contra as bombas caseiras, na contra-insurreição, na identificação do adversário. Precisamos ter resultados rápidos sobre esse cenário", disse o general



Le Monde: Como o senhor vê a Otan hoje?
Stéphane Abrial:
A razão de ser inicial da Aliança, como uma missão militar de defesa coletiva contra um adversário único, a União Soviética, evoluiu para uma missão de defesa e de segurança. Não há mais ameaça direta a nossas fronteiras que nos obrigue a estarmos preparados imediatamente para mobilizar nossos exércitos. As nações têm consciência de que sua defesa começa bem além de seu território. Então, a Otan está em evolução. Não tão rápido quanto alguns gostariam: faltam-lhe um estado-maior e forças suficientes a mobilizar em caso de crise.

Além do mais, a compreensão do papel da Aliança varia entre seus 28 membros. O novo "conceito estratégico" em preparação para 2010, que vai definir seus objetivos para os próximos anos, deverá reunir seus membros sobre uma visão comum. Por fim, as limitações orçamentárias nos obrigam a sermos criativos e a fazermos propostas realistas.

Le Monde: Que lições podem ser tiradas da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf, sigla em inglês) no Afeganistão, sobre a qual a Aliança Atlântica concentra seus meios?
Abrial:
Nós tiramos muitas lições dela, no dia a dia, pela maneira como as operações se desenrolam e como o adversário se adapta. Nós trabalhamos na luta contra as bombas caseiras, na contra-insurreição, na identificação do adversário. Precisamos ter resultados rápidos sobre esse cenário. Nós refletimos sobre a "abordagem global": sabemos que não existe solução militar pura, mas que não existe nenhuma solução sem forte apoio militar. Os militares muitas vezes são os primeiros a chegar no campo e são bem organizados por natureza. Eles devem poder agir com outros atores, estatais ou não. Como organizar a ação civil-militar? Uma das dificuldades é que algumas organizações não-governamentais não querem trabalhar com os militares. Nós é que devemos ir a seu encontro.

Le Monde: A Isaf é criticada por ser mais uma justaposição de forças do que uma coalizão integrada...
Abrial:
O grande número de atores nesse conflito, 43 países no total, sendo 28 Estados membros da Otan, também nos impõe que avancemos na "interoperabilidade": é preciso tornar mais compatíveis os treinamentos das forças, seus meios de comunicação, suas armas - por exemplo, a capacidade de recarregar o armamento de um com as munições de outro. Os países envolvidos descobrem ainda os métodos uns dos outros ao chegarem no campo. É de uma importância imensa que eles compartilhem, logo no início, a forma como as forças são preparadas.

Le Monde: Seu comando elaborou um documento, "Múltiplos futuros", que esboça cenários de crises futuras e sua resposta militar. Para quê ele servirá?
Abrial:
Esse documento é uma boa base para a atual reflexão sobre o novo conceito estratégico. Meu comando pode fornecer uma opinião militar ao grupo de especialistas, civis, designados pelo secretário-geral.

Os povos sempre se surpreenderam com os acontecimentos da história. O importante é diminuir o nível da surpresa: a partir de cenários potenciais, preparar-se da melhor forma possível. Em um deles, intitulado "A face sombria da exclusividade", as diferenças entre o mundo desenvolvido e o resto da humanidade aumentariam e criariam tensões. Os Estados frágeis ou falidos aumentariam em número, assim como as zonas nas quais os países da Aliança seriam ameaçados. Isso poderia levar a Otan a impor ações dissuasivas, enfatizar uma projeção rápida de forças para garantir para si recursos vitais, rever as regras dos confrontos, que serão mais difíceis para os exércitos...

Le Monde: O que o senhor propõe?
Abrial:
Gostaria que o comando ACT exercesse o papel de um "think tank" [grupo de pensadores] e mobilizasse melhor os especialistas disponíveis, seja para aconselhar uma nação que redige seu Livro Branco da Defesa, seja para trabalhar em domínios de interesse comum como o espacial ou o marítimo. Também é preciso melhorar o planejamento dos meios de defesa; é um processo muito longo e complexo que consiste em ver o que existe em cada nação, comparar com as necessidades, preencher as lacunas. Esse planejamento deve agora integrar os meios civis. Em terceiro lugar, é preciso reduzir os prazos de disponibilização de novos meios, equipamentos ou homens.

Convém trabalhar bem no início com os industriais, para identificar as tecnologias que poderiam ter uma utilidade militar, e desenvolver capacidades multinacionais. Doze países conseguiram fazê-lo com a aquisição de aeronaves de transporte estratégico. Um simples compartilhamento de conhecimentos já permitiria uma melhor reciprocidade. Isso deve ser feito no domínio da instrução das forças armadas. Por fim, existe a necessidade de trabalhar com as nações parceiras da Otan. Estamos juntos nos teatros de operações.

Tradução: Lana Lim


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