UOL Notícias Internacional
 

23/12/2009

A ONU denuncia "crime contra a humanidade" na Guiné

Le Monde
Alain Frachon
Uma rajada de tiros sem aviso contra uma manifestação política pacífica num estádio. Civis cercados pelo exército e assassinados no local com armas automáticas, punhais, baionetas, apanhando até a morte com tábuas de pregos. Mulheres estupradas por dezenas de homens e atrozmente mutiladas, outras retiradas para servir como "escravas sexuais" nos campos do exército e nas casas de veraneio dos oficiais.
  • AFP

    Foto de 29 de setembro mostra manifestante sendo preso em protesto pró-democracia em Conacri (Guiné). As forças de segurança atiraram contra aproximadamente 50 mil pessoas que se reuniram em um estádio de futebol para protestar contra a eventual candidatura do capitão Mussa Camara na eleição presidencial

A comissão da ONU sobre os acontecimentos da Guiné julgou que os massacres e outras violências perpetradas em 28 de setembro e nos dias seguintes em Conacri, capital do país, constituem "crime contra a humanidade".

Num relatório entre na noite de sábado, 19 de dezembro, ao Conselho de Segurança, a comissão atribui a responsabilidade ao chefe de Estado da Guiné: "A comissão considera que existem razões suficientes para presumir uma responsabilidade penal direta do presidente Moussa Dadis Camara".

Os três relatores descreveram, ao longo de cerca de 60 páginas precisas e detalhadas, não um dia de confrontos políticos que acabou mal, mas uma série de assassinatos "sistemáticos", estupros e atos de tortura "organizados" contra uma parte da população.

Eles pedem que o Tribunal Penal Internacional assuma o caso e citam várias pessoas do círculo direto de Camara como supostos responsáveis, junto com ele, por estes "crimes contra a humanidade".

Três dias

A violência durou três dias em Conacri. Objetivo: intimidar todos aqueles que contestaram a intenção de Camara, o chefe da junta militar no poder desde 2008, de se apresentar à eleição presidencial de 2010.

A candidatura do chefe da junta negava um acordo anterior feito com todos os partidos, segundo o qual ele renunciaria participar das eleições.

Camara hoje está se recuperando no Marrocos. Ele foi ferido a balas no dia 3 de dezembro numa tentativa de assassinato atribuída a seu auxiliar de campo, o tenente Aboubacar Sidiki Chérif Diakité, ou "Toumba", no momento foragido. Mas o relatório da comissão da ONU é tão devastador em relação a Camara que é difícil imaginar que ele, mesmo depois de curado, ainda tenha algum futuro político.

Os relatores confirmam alguns números citados anteriormente: 156 pessoas morreram ou desapareceram em 28 de setembro; pelo menos 109 mulheres ou meninas foram vítimas de estupro, de mutilações sexuais e de escravidão sexual.

A comissão, que ouviu cerca de 700 testemunhas, concluiu que as autoridades fizeram de tudo para mascarar a verdade e afirma: "É bem provável que o número de vítimas seja mais alto". Ela menciona "centenas de outros casos de tortura, de tratamento cruel e degradante" por parte das forças de segurança nos dias seguintes ao 28 de setembro.

A comissão foi constituída por ordem do secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, diretamente coordenada pelo ministro de assuntos estrangeiros francês, Bernard Kouchner, que mobilizou a União Europeia, os Estados Unidos e inúmeros países da África em relação ao caso.

Para seu dia de protesto, os movimentos de oposição haviam escolhido o 28 de setembro, aniversário da independência, em 1958, desta antiga colônia francesa na costa oeste da África. Eles decidiram realizar sua manifestação em Conacri no estádio do 28 de setembro.

Alguns milhares de pessoas se reuniram de manhã cedo sobre o gramado, nas arquibancadas e ao redor. Na cidade, já havia acontecido alguns confrontos breves com as forças de segurança. Os líderes da oposição mal chegam à tribuna e os tiros começam a ressoar no lado de fora do estádio. Os manifestantes lutavam contra a polícia.

Alguns instantes mais tarde, chegaram os soldados da guarda presidencial, os boinas-vermelhas - a quem a comissão atribuirá a maior parte dos crimes. Uma unidade entrou no estádio e atirou sem aviso, com armas automáticas, em rajadas: dezenas de pessoas foram abatidas, outras morreram pisoteadas no pânico que se seguiu.

Os manifestantes tentaram fugir. Mas ficaram presos, relata a comissão da ONU: do lado de fora do estádio, uma outra unidade dos boinas-vermelhas bloqueou as saídas do estádio com arame farpado eletrificado. A campanha de terror pode prosseguir. Apoiados por policiais e milicianos pró-Camara mascarados e vestidos de preto, os boinas-vermelhas continuaram a atirar esporadicamente, a apunhalar, bater e estuprar.

"Fazer o máximo de vítimas"

"Vários corpos de vítimas recuperados pelas famílias receberam balas na cabeça, no tórax ou nas costas", escreveu a comissão. E acrescentou: "A utilização de armas mortais contra civis não armados, o fato de abrir fogo com balas de verdade e sem aviso contra uma multidão compacta reunida sobre o gramado, de ter atirado até o esgotamento da munição e de visar as partes do corpo que compreendem os órgãos vitais são todas indicações da intenção premeditada de fazer o maior número de vítimas entre os manifestantes".

Os soldados separaram inúmeras mulheres e meninas do resto dos manifestantes. Algumas foram levadas ao campo militar Alpha Yaya Diallo, e em casas de veraneio para servir, durante vários dias, como escravas sexuais para os militares. Outras foram estupradas no local. A comissão reconstituiu cenas de uma rara violência: "As mulheres foram estupradas com objetos, sobretudo com baionetas, cassetetes, pedaços de metal, tacos", "os militares acabaram com as mulheres violadas introduzindo os fuzis dentro de suas vaginas e atirando", "uma mulher de olhos vendados, que havia sido estuprada, foi degolada por um militar no momento em que arrancava o lenço de seus olhos".

O massacre do estádio parou perto de 14 horas. Caminhões encaminharam os corpos para os necrotérios da cidade, onde foram rapidamente retirados pelo exército para serem enterrados em valas comuns. "Os militares cortaram os braços e pernas de alguns cadáveres para que eles entrassem mais facilmente nas valas", informou a ONU.

Mas nos dois dias que se seguiram, o terror continuou em Conacri. Os feridos foram perseguidos nos hospitais, às vezes mortos no local; os soldados cometeram mais estupros; as casas de líderes da oposição foram pilhadas por partidários do capitão Camara.

Várias vezes a ONU insiste no fato de que esta campanha de terror parece ter sido premeditada e organizada para destruir a oposição. Além do capitão Camara, o relatório cita entre os responsáveis mais diretamente envolvidos nos crimes: o tenente Aboubacar Sidiki Chérif Diakité (Toumba), o comandante Moussa Thiegboro Camara, chefe dos serviços especiais, e o capitão Claude Pivi.

Tradução: Eloise De Vylder

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