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23/12/2009

Demjanjuk: o julgamento dos cúmplices

Le Monde
Nicolas Bourcier
Le Monde
O senhor de idade está sentado há horas no banco dos reclamantes no tribunal de Munique. Seu corpo está magro e esgotado, seu tom é calmo, seu olhar direto e penetrante como uma lâmina. Percebe-se, se muito, um curto suspiro, uma emoção à flor da pele. "Não me lembro de seu rosto", diz Thomas Blatt, sem nunca desviar o olhar da pequena porta branca situada bem à sua frente. Foi por ali que John Demjanjuk passou no final do primeiro dia de seu julgamento, em 30 de novembro. Por ali que esse octogenário de origem ucraniana acusado de ter participado do assassinato de 27.900 judeus no campo de concentração de Sobibor, em 1943, deixou a sala do tribunal criminal lotada sem ter dito uma palavra, nem aberto os olhos. Por ali que ele voltou, na segunda-feira (21), para o quarto dia de audiência.
  • EFE

    John Demjanjuk (deitado) é acusado de ter participado do assassinato de 27.900 judeus no campo de concentração de Sobibor, em 1943. Durante a audiência ele deixou a sala do tribunal criminal lotada sem ter dito uma palavra, nem aberto os olhos.

"Se ele não quer encarar sua história de frente, é problema dele", diz Thomas Blatt. "Eu não posso identificá-lo com certeza - havia cem guardas como ele - mas sei o que esses indivíduos fizeram quando trabalharam com os nazistas". "Para mim tanto faz se Demjanjuk vai ou não para a prisão", ele continua, "é o julgamento que me interessa. Depois de tantos anos, quero a verdade".

Thomas Blatt é um dos raros sobreviventes do campo de Sobibor, essa fábrica da morte situada entre os campos de Belzec e de Treblinka, no leste da Polônia. Aos 82 anos, ele acaba de atravessar o Atlântico para assistir, aqui na Baviera, região da Alemanha tão amada por Hitler, a um julgamento que poderá assinalar o fim de uma época onde somente os oficiais superiores e dignitários nazistas tinham motivos para se preocupar.

Com Demjanjuk, a Alemanha abre, mais de sessenta anos depois de Nuremberg, o julgamento dos colaboradores e cúmplices. Pela primeira vez, a Alemanha inicia uma ação judicial com chances de sucesso contra um braço direito dos nazistas, de nacionalidade estrangeira, contra o último elo de uma cadeia, a menor engrenagem da máquina de extermínio. "É uma página nova de nossa história", afirma Ingo Müller, que acompanha o caso de perto.

Professor de direito e autor em 1987 de uma obra de referência sobre a justiça alemã do pós-guerra, "Furchtbaren Juristen" ["Juristas Terríveis"], ele explica que "jamais, durante as últimas décadas, a sociedade alemã havia mostrado tamanho apetite pelos processos". E acrescenta: "Ela não estava preparada para tais exposições, talvez porque muitos alemães estivessem envolvidos".

Ainda em 2008, a procuradoria de Munique se julgou incompetente para processar John Demjanjuk, esse ex-operário da indústria automobilística de Cleveland condenado à morte em 1988 em Israel, antes de ser absolvido cinco anos depois em razão de dúvidas sobre sua identidade. Foi preciso esperar dezembro de 2008 para que o Tribunal Federal tomasse uma decisão no sentido contrário e apoiasse o pedido de extradição aos Estados Unidos de Demjanjunk, que seria cumprida em 11 de maio.

"Foram necessários anos para romper com as antigas práticas", observa Rainer Volk, especialista em regime hitlerista na rádio pública bávara, a Bayerischer Rundfunk. "A noção de culpa era reservada aos principais criminosos. Os outros não passavam de recebedores de ordens, nada além disso. Foi preciso que houvesse a queda do Muro, as exposições dedicadas nos anos 1990 às atrocidades cometidas pelos simples soldados da Wehrmacht e uma nova geração de juristas para se chegar ao que temos hoje". Rainer Volk avisa: "Estou curioso para saber tudo que ainda vão descobrir. Não será glorioso".

E com razão. São centenas os casos como os de Demjanjuk, talvez até milhares. Alemães, certamente. Mas também os naturalizados americanos, russos, poloneses, bálticos, romenos ou ucranianos. Indivíduos que se aproximam dos 90 anos, às vezes mais, e que em sua maioria ainda passam dias tranquilos de aposentadorias comuns. Carrascos anônimos. Arquitetos invisíveis da solução final que espancaram até a morte ou apertaram o gatilho, torturaram ou empurraram os detentos com seus fuzis para dentro das câmaras de gás.

Somente alguns deles têm seu nome em notas de rodapé de obras especializadas. E são raros aqueles que tiveram de enfrentar juízes que buscavam esclarecer as zonas de sombra de seu passado como braço direito da Alemanha hitlerista.

A jovem República alemã passou muito tempo convencida de que era impossível se reerguer sem o conhecimento dos velhos nazistas. Ela deixou os juízes serem juízes e os oficiais cumprirem suas funções. As potências aliadas de ocupação também libertaram muitos soldados rasos do Holocausto.

Desde o fim da guerra, os tribunais alemães examinaram os casos de 90.500 indivíduos envolvidos de perto ou de longe nos crimes nazistas. Cerca de 6.500 deles foram condenados, a esmagadora maioria deles nos cinco anos que se seguiram à criação da República Federal, em 1949. Quase 84 mil casos resultaram em absolvimento ou arquivamento. Dizia-se, então, que o país tinha pago o suficiente ou que não estava preparado, que seria preciso virar a página e que todos esses homens só haviam obedecido a ordens.

Para piorar, cerca de 100 mil indivíduos viveram sob nome falso na Alemanha pós-guerra. Homens e mulheres que logo foram protegidos por um texto adotado pelos parlamentares, impedindo que qualquer cidadão da República Federal fosse extraditado - e consequentemente de serem julgados por um tribunal por abusos cometidos no exterior. Essa lei só seria modificada em 2005.

Em 1963-1964, o julgamento de Auschwitz, que se deu em Frankfurt, teve de enfrentar inúmeras críticas, antes de se concluir com condenações em parte irrisórias. Seis altos dirigentes foram condenados à prisão perpétua, mas muitos "Schreibtischtäter" ["criminosos de gabinete"], que não sujavam as mãos diretamente com os crimes, foram absolvidos. E os braços direitos dos nazistas mal se preocuparam.

Tradução: Lana Lim

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