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23/12/2009

O refrão do declínio americano está de volta

Le Monde
Le Monde Sylvain Cypel
É apenas uma sondagem, mas seus resultados são bem surpreendentes. Em 3 de dezembro, o seríssimo Pew Center publicou os resultados de uma pesquisa de opinião realizada pelo Council on Foreign Relations, um importante grupo de reflexão sobre assuntos internacionais.

Sobre a questão "O papel dos Estados Unidos no mundo", 25% dos entrevistados acreditam que é "mais importante" hoje do que há dez anos; mas 41% acreditam que é "menos importante". Sobre a questão "Qual é a principal potência econômica do mundo?", 27% apontam seu próprio país, mas 44% respondem: "A China"!

Um sentimento de declínio invade o país. Ele já era sentido durante a campanha presidencial. John McCain dizia continuamente que os Estados Unidos, apesar de suas decepções, continuavam sendo o líder mundial. Barack Obama insistia que ele conseguiria "restaurar a grandeza" de seu país.

Claro, é preciso desconfiar dos fenômenos conjunturais. O enfraquecimento da economia americana é um refrão recorrente. No início dos anos 1990, quando a Sony comprou a Columbia, e a Mitsubishi adquiriu o Rockefeller Center de Nova York, a questão parecia certa: no plano econômico, o Japão superaria os Estados Unidos. Sabemos o que aconteceu depois. Mas, desta vez, esse sentimento surgiu com uma grave crise e uma revisão intelectual maior do que a ocorrida vinte anos atrás.

Em 14 de dezembro, Paul Volcker, que foi presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano) nos anos 1980 durante os governos Carter e depois Reagan, falou para o "Wall Street Journal" sobre a questão: "A inovação financeira contribui para o crescimento?". Aos 82 anos, o homem mantém seu vigor de espírito e continua bem falante. Para muitos, se as chaves do Tesouro lhe tivessem sido confiadas, ele teria conseguido que os banqueiros o ouvissem melhor do que o arrojado, mas complacente Tim Geithner.

"Nesses sessenta anos em que frequentei o meio financeiro (...), sempre os ouvi dizerem o quanto eles são necessários, desejáveis, maravilhosos, e que fazem a obra de Deus", começa a responder Volckner, ironizando declarações recentes de Lloyd Blankfein, diretor do Goldman Sachs.

Depois de se perguntar se os "credit default swaps" (CDS) e outros produtos derivados de dívida seriam "inovações financeiras tão maravilhosas que gostaríamos de criar ainda mais delas", Volckner chega ao que interessa. "Encontrei pouquíssimas provas de que a massa de inovações que emergiu dos mercados financeiros tenha tido qualquer efeito sobre a produtividade de nossa economia. (...) Tudo que sei é que a economia crescia muito bem nos anos 1950 e 1960 sem nenhuma dessas inovações. Tudo ia muito bem até os anos 1980, antes que houvesse essas CDO (collateralised debt obligations), esses CDS e toda essa securitização. Tínhamos, então, uma taxa de crescimento superior e, além disso, não colocávamos toda a economia frente a um risco de colapso".

Essa opinião faz parte de uma nostalgia por esse EUA dinâmico e orgulhoso de sua preeminência, saído da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial. Um EUA onde nem o "lobby militar-industrial" nem Wall Street eram bem vistos.

Wall Street, justamente, e seu principal orgulho: o Goldman Sachs. Outro sinal do sentimento de declínio: ontem se exaltava o conhecimento excepcional desse banco, o fato de que seus dirigentes haviam sentido despontar o colapso dos subprimes para se livrarem deles antes dos outros. Mas o vento está mudando.

Em meio a um ataque frontal contra seu presidente, Lloyd Blankfein, o "New York Times" acredita ter encontrado o porquê da imagem degradada do prestigioso e venerável banco. Como na lenda judaica do Dybbuk, um gênio mau que teria se apoderado de seu espírito para atacá-lo por dentro. Goldman era um magnífico banco de investimentos, e se transformou em trader.

Com isso, apesar de o banco "florescer, sua ética murchou", diz o jornal. Segundo a pesquisadora Jenny Anderson, "tudo mudou fundamentalmente" no fim dos anos 1990, quando o Goldman Sachs entrou na Bolsa e posicionou o trading no primeiro plano de suas atividades.

Essa mudança "foi acelerada com Blankfein", o atual presidente. O trading, sinônimo de dinheiro fácil, rápido e volumoso, suplantou no Goldman Sachs a verdadeira profissão de banqueiro de investimentos, sua visão global da economia e seus investimentos de longo prazo. O primeiro dos 14 "princípios" do Goldman - "o interesse do cliente em primeiro lugar"- cedeu lugar para o lucro.

Essa visão, nostálgica como a de Volcker, procede do sentimento do declínio. Ela sente nostalgia por um paraíso capitalista perdido onde o dinamismo e a inovação eram voltados para a produção de bens; onde eles beneficiavam do poder de compra do assalariado e do investimento da empresa.

Nesse EUA dos "anos da prosperidade" (os "trinta anos gloriosos", como se diz na França), as empresas distribuíam 23% de seus lucros entre os acionários, e não 46% como foi o caso entre 1979 e 2008, segundo estudo recente da OIT. Esse EUA estava certo de que tinha os melhores engenheiros, os melhores trabalhadores e os melhores inventores. Hoje, todos os anos Bill Gates aparece diante de uma comissão do Congresso para soar o mesmo alerta: "Estamos perdendo nossa preeminência tecnológica".

Tradução: Lana Lim

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