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25/12/2009

Tensão no Iêmen: as províncias do Sul estão em ebulição

Le Monde
Gilles Paris Em Aden e Sanaa (Iêmen)
Com um olhar decidido e um bigode à altura, o retrato do presidente Ali Abdallah Saleh reina em Aden da mesma forma que as três cores pan-árabes - vermelho, branco e preto, da bandeira do Iêmen unificado em 1990 - o fazem na antiga capital da República Democrática e Popular. Símbolos padrão pelos quais não se deve deixar enganar, pois as províncias do Sul estão em ebulição. Obstinadamente. Essa disputa que todos os meses conta seus mortos ainda não é uma rebelião aberta, mas ainda assim ela reaviva o espectro da tentativa abortada de secessão de 1994, que enfraqueceu uma união negociada quatro anos antes entre a república do Norte e a socialista, do Sul.

Apesar de já ser assolado pela guerra civil que devasta as províncias setentrionais, pela pirataria que domina suas costas e pelas manobras da Al-Qaeda, isolada em zonas tribais onde se anula a noção de Estado, o país mais pobre da península arábica precisa muito de uma tensão sulista.
  • Marib Press/AP

    Agentes de segurança do Iêmen averiguam o local de um atentado a bomba, atribuído pelo governo iemenita à rede terrorista Al Qaeda, em 2007



A calma e a ordem reinam em Aden. Mas, no bairro da Cratera, aos pés dos dantescos relevos vulcânicos esmagados pelo Sol escaldante, que dominam o Oceano Índico, as prensas do diário "Al-Ayyam" ("Os Dias") permanecem mudas. Elas estão silenciosas desde maio. Na sede do jornal, o patriarca Hisham Bashrahil e seu irmão Tammam, vestidos com a tradicional "futa", um longo pano colorido, enumeram com uma raiva contida os ataques sofridos desde o início do ano. Caminhões de entrega desviados, jornais roubados, até a ofensiva legal conduzida contra a ocupação do jornal, em 13 de maio: tiros com balas de verdade e gás lacrimogêneo.

O diretor do jornal mostra os restos de munição recolhidos, segundo ele, no campo de batalha. Ele afirma que o "Al-Ayyam" está pagando pela cobertura que deu, durante meses em suas páginas, às reivindicações sulistas, fazendo de um dos jornais mais prestigiosos do país o porta-voz dos manifestantes. "Contestaram a propriedade de uma casa em Sanaa que eu possuía há trinta anos, não posso ir ao exterior para cuidar de meus problemas cardíacos, mas não vou ceder", promete Hisham Bashrahil.

Após a guerra de 1994, que viu as tropas comandadas pelo presidente Saleh, homem forte do Norte desde 1978, esmagarem os rebeldes em menos de dois meses, as vozes da secessão fugiram. Pulverizados pelo mundo inteiro, os líderes sulistas perderam aos poucos legitimidade e representatividade. A constituição de uma Assembleia democrática do Sul, no Reino Unido, em 2004, não havia afetado esse isolamento. Então tudo conspirava para que esse parêntese fosse definitivamente fechado.

Criados em 1967, a República Democrática e Popular do Iêmen e sua coluna vertebral, o Partido Socialista Iemenita, não haviam deixado lembranças duradouras. Em janeiro de 1986, os combates fratricidas, travestidos com trapos de um conflito entre o dogma e uma perestroika arábica, haviam dizimado suas fileiras e destruído Aden. Eles haviam afundado os sonhos de um socialismo exótico, atenuado por um século e meio de dominação britânica, em uma costa estratégica, desmembrada em uma avalanche de sultanatos e de "xecados", segundo o princípio infalível do dividir para conquistar.

O intervalo de calma terminou há dois anos. Novas vozes são ouvidas e foi iniciado um movimento ainda enigmático que revisita o passado à sua maneira. Tudo partiu do descontentamento de antigos oficiais e funcionários públicos sulistas, aposentados desde a guerra de 1994. Eles pediam por melhores condições de vida e igualdade de tratamento com os outros aposentados. Foi instituída uma organização, que vinha na forma de dezenas de comitês locais. Sem reação das autoridades, assembleias começaram a ser organizadas nos bastiões sulistas.

Seguindo o apelo de ex-generais, entre os quais Nasser al-Nuba e Ali Moqbil, em 2 de agosto de 2007, uma grande manifestação aconteceu em Aden, seguida de prisões. Desde então, os agitadores sulistas jogam com o calendário iemenita e com os aniversários para mobilizar suas forças: 7 de julho (1994), entrada das tropas unionistas (principalmente nortistas) em Aden; 14 de outubro (1963), início da luta armada contra os britânicos; 30 de novembro (1967), independência do Iêmen do Sul; 13 de janeiro (1986), batalha fratricida entre socialistas sulistas... Todas as ocasiões são boas para se contar.

Ao longo das assembleias, pontuadas por prisões ou por trocas de tiros mortais, as reivindicações mudaram. De sociais, elas passaram a ser políticas. Autonomia, ou até independência, eis o que agora clamam os manifestantes que dão vazão aos rancores acumulados ao longo dos anos contra o Norte, acusado de ter se apropriado das terras, das funções e das posições lucrativas do Sul. Uma nova "ocupação" foi denunciada e o ex-vice-presidente, sulista, Ali Salem al-Baid, em exílio na Alemanha, tenta sair do esquecimento ao exigir a organização de um referendo sobre a autodeterminação.

Em seus amplos escritórios instalados no centro de Sanaa, Ali al-Anessi, o poderoso diretor de gabinete do presidente Saleh, faz pouco dessa recriminações. "Nós trouxemos vida nova a Aden e às regiões do Sul. O presidente está disposto a examinar uma maior descentralização, mas o federalismo seria a separação do Iêmen! Está fora de questão!". O vice-premiê responsável pela segurança, Rashad al-Aleimi, acrescenta: "Proporcionalmente, o Norte dedicou mais dinheiro e meios ao Sul do que a Alemanha Ocidental dedicou à ex-RDA. Além disso os governadores do Sul agora são eleitos por seus cidadãos, o que mostra que os manifestantes são uma minoria que não reconhece as regras da democracia".

Em Aden, essas afirmações suscitam uma série de sarcasmos, em uma assembleia de sulistas radicais. "Eleitos? Os governadores? Não para nós! Fora de Aden, já perdemos a conta dos lugares onde nem o exército ousa entrar. E lá, é a bandeira do antigo Iêmen do Sul que as pessoas mostram em desafio", diz o filho de uma autoridade. "Deviam parar de nos importunar com essa ideia de reunificação. Historicamente, nunca houve um Iêmen. Em compensação, nossa região tinha um nome próprio: a Arábia do Sul!"

A cisão entre duas culturas parece profunda, mais guerreira no Norte, marcada pela herança britânica no Sul. "Para os sulistas, as pessoas do Norte são todas "dihabisha", nome de um personagem frustrado de uma série de TV", conta o antropólogo Franck Mermier, especialista em sociedades iemenitas. "Nós, do Sul, temos uma educação e uma moral", afirmam os mais virulentos para se distinguirem dos "comedores de qat [planta de efeito estimulante]" nortistas, vistos por eles como fascinados por armas.

O representante em Aden de uma grande marca internacional, que prefere se manter anônimo, não se faz de rogado para contar o quanto teve de batalhar para impedir que o concessionário da mesma marca em Sanaa, graças ao apoio do governo, conseguisse obter a exclusividade para o país. "Existe uma desigualdade às custas do Sul, certamente", afirma um jovem de Aden, que também faz questão de permanecer anônimo. "Se pensarmos na questão das bolsas universitárias, os sulistas são claramente desfavorecidos. Quando estou em Sanaa, sinto minha origem. Para falar a verdade, não gosto desta cidade".

Sem pesquisas de opinião ou eleições significativas, é bem difícil ter uma ideia da relação de forças nas províncias sulistas. A adesão de Tareq al-Fadhli, ex-voluntário islamita no Afeganistão que havia disparado contra os secessionistas de 1994, ao campo dos separatistas em maio de 2009, pegou de surpresa o presidente Saleh, que havia cooptado esse chefe tribal, aliado a Ali Muhsen al-Ahmar, um dos principais militares do regime. Solicitado pelo seu carisma e sua base política local em Zinjibar, a leste de Aden, antiga capital do sultanato de Fadhli, ele se juntou ao Movimento do Sul em maio após confrontos entre seus partidários e o exército.

Hoje é fácil para os defensores do presidente denunciarem a instrumentalização da questão do Sul pela Al-Qaeda para a Península Arábica (AQPA), novo grupo surgido em janeiro de 2009 e que, sem temer o paradoxo, garante seu apoio para os ex-socialistas. Um grupo jihadista, o Exército de Aden Abyan, dominou na região há alguns anos e os partidários da AQPA naturalmente apostam em tudo aquilo que poderá contribuir pra o enfraquecimento do poder central, mas definitivamente não conseguiriam reduzir o fenômeno dos seguidores de Osama Bin Laden.

Os sulistas mais moderados tentam canalizar a exasperação. "O Sul não poderia resistir sem o Norte. Não se cogita separação, mas as coisas não podem ficar como estão", garante um economista em Aden, que prefere manter a discrição. "As pessoas desfilam com fotos do (ex-vice-presidente) Al-Baid porque sabem que isso deixa o governo histérico", diz um antigo oficial do Sul, que havia aderido com entusiasmo ao governo unificado de Sanaa antes de passar para o setor privado, frustrado pela experiência. "Quando os sulistas denunciam a unificação, não é pelo seu princípio, é por essa unificação que está aí, com todos seus defeitos, é esse sistema, que eles não querem mais".

Tradução: Lana Lim

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