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29/12/2009

"No Irã, a relação de forças não é a mesma de 1979", diz especialista

Le Monde
Para Bernard Hourcade, diretor de pesquisas da CNRS e especialista em Irã, "a pressão das ruas não encontrou uma expressão política suficientemente sólida para derrubar o governo".

Le Monde: No domingo houve violentos confrontos entre as forças de ordem e os manifestantes contrários ao presidente Ahmadinejad. A contestação está em um ponto de virada?
Bernard Hourcade:
Acredito que não. A intensidade da violência foi proporcional à amplitude das manifestações. A celebração da Ashura é uma das datas mais importantes do calendário xiita. Todos os anos, milhões de pessoas marcham pelo país para comemorar o martírio do imame Hussein. Essas grandes procissões religiosas reúnem todos os componentes da sociedade iraniana. Era lógico que os opositores iriam aproveitar para se expressar. Mas não creio que essa radicalização marque uma verdadeira virada para o regime iraniano.

Le Monde: O senhor estava no Irã durante a revolução de 1979. O senhor vê semelhanças entre os acontecimentos que abalam o país há seis meses e as manifestações que culminaram na queda do xá?
Hourcade:
Em 1979, as grandes procissões de Tassoua e da Ashura [dias de luto religioso que celebram a morte do imame Hussein] eram organizadas pelo movimento de contestação. Apesar da lei marcial, o xá foi obrigado a autorizar as manifestações. Elas reuniam na época toda a oposição, fosse ela da esquerda ou dos religiosos. O clero apoiava em massa os contestadores. A relação de força não é a mesma hoje. Uma grande parte da população ainda defende Ahmadinejad. As procissões desses últimos dias foram organizadas pelo governo. Tratava-se primeiramente de manifestações populares com as quais os opositores se envolveram. Não se pode comparar os acontecimentos de 1979 com o movimento atual de contestação.

Le Monde: Mas o movimento parece disposto a continuar com a mobilização.
Hourcade:
É verdade que a oposição não enfraquece, apesar da repressão. Mas os manifestantes não são unidos politicamente. Entre aqueles poucos que gostariam de derrubar o regime, e aqueles que somente querem mudá-lo, não há consenso a respeito de um líder, como em 1979. Não se deve esquecer que Mir Hosein Mousavi e Medhi Karubi são personalidades fundadoras do regime. Um foi primeiro-ministro durante a guerra Irã-Iraque, e o outro foi companheiro de estrada do aiatolá Khomeini. Se eles vestiram a camisa da revolta, foi meio involuntário. Eles assumem uma responsabilidade que consideram histórica, mas continuam sendo opositores por falta de opção. Para os mais radicais que querem acabar com a República Islâmica, Mousavi e Karubi não são capazes de conduzir o movimento.

Le Monde: Diante dessa contestação, o governo está se unindo?
Hourcade:
Não, observamos dissensões cada vez mais fortes dentro do próprio aparelho do Estado. Os partidários dessa repressão, próximos do presidente Mahmoud Ahmadinejad, recomendam a manutenção da ordem antes de tudo, sem acordos com os manifestantes. É um pouco como o método chinês: cercar o interior, mas se abrir para o exterior respondendo à mão estendida de Obama. Mas outros, como Ali Larijani, presidente do Parlamento, Mohsen Rezai, ex-comandante da Guarda Revolucionária, ou Mohamed Baker Khalibaf, prefeito de Teerã, são favoráveis a uma evolução do regime. Mesmo entre os mais radicais, alguns condenam a repressão e a morte de outros muçulmanos.

Le Monde: Essas dissensões estão chegando às forças de ordem?
Hourcade:
É muito difícil ter elementos precisos sobre essas questões. Parece que certos membros dos bassidjis [milícias populares], do exército e da polícia estão se dissociando do governo. Mas é um pouco cedo para falar de dissidência aberta. Se fosse o caso, o regime estaria realmente em uma posição ruim. Não se deve esquecer que os soldados da aeronáutica foram os primeiros a se revoltarem contra o xá em fevereiro de 1979. Hoje, o governo iraniano é muito forte. Ainda que os resultados oficiais sejam certamente contestáveis, Ahmadinejad foi eleito e é muito provável que ele chegará até o final do seu mandato de quatro anos. O governo está disposto a tudo para manter o regime. E, por enquanto, a pressão das ruas não encontrou uma expressão política suficientemente sólida para derrubar um governo tão forte e tão repressivo.

Tradução: Lana Lim Para Bernard Hourcade, diretor de pesquisas da CNRS e especialista em Irã, "a pressão das ruas não encontrou uma expressão política suficientemente sólida para derrubar o governo".

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