UOL Notícias Internacional
 

30/12/2009

Berlusconi prepara opinião pública para volta do programa nuclear

Le Monde
Salvatore Aloïse
Em Roma
Muito dinheiro e discrição. São os dois argumentos escolhidos pelo governo Berlusconi para avançar seu novo programa nuclear. O dinheiro regará copiosamente os municípios que aceitarem receber novas usinas em seus territórios. A discrição cerca os locais de instalação. Mas - não é um acaso - , a escolha não virá antes do próximo verão, ou seja, após as eleições regionais de março de 2010.

Cada município escolhido para abrigar uma usina deverá receber 30 milhões de euros (6 milhões por ano para os cinco anos previstos de construção). Os habitantes e as empresas terão direito a vantagens fiscais; as municipalidades vizinhas também não serão esquecidas. Os municípios onde as usinas serão estabelecidas também receberão 13 milhões de euros por ano em taxa de gerenciamento. Por fim, o preço da energia local será um preço especial de 0,3 euro por quilowatt durante o período de funcionamento da usina, estimado em 60 anos.

Após o voto definitivo do Senado no início de julho, a volta ao programa nuclear, que a Itália havia abandonado em 1987, foi feita com grande prudência. Durante o conselho de ministros de 22 de dezembro, o governo se limitou assim a "fixar as normas de individuação dos locais de instalação", bem como as "formas de compensação para as coletividades locais".

São as primeiras etapas de um longo percurso legislativo programado visando o início das obras de construção das usinas em 2013. A princípio, a ativação dos quatro reatores previstos foi fixada para 2020. O objetivo, a longo prazo, é chegar a uma capacidade de 13 mil megawatts, ou seja, 25% da necessidade energética do país. Hoje, 85% da energia da Itália vem do exterior, a um custo do quilowatt em média 1,6 vezes mais caro do que no resto da Europa.

Risco sísmico
O diálogo com as sociedades locais é o caminho preferencial, mas o governo não quer surpresas desagradáveis. Daí vem a possibilidade concedida: decretar como "zona de interesse estratégico" os locais escolhidos a fim de que eles sejam vigiados pelo exército, para conter qualquer possível mobilização contra a instalação.

Como os locais serão escolhidos? O principal critério em um país como a Itália, com grande risco sísmico, é ter a certeza de poder escapar de qualquer perigo de terremoto. A imprensa especula sobre os possíveis locais: geralmente são aqueles que existiam antes que o programa nuclear fosse abandonado, em 1987, após um referendo, pouco depois do incidente de Tchernobyl, quando o país despontava nesse domínio (Rovigo, no Vêneto; Trino Vercellese, no Piemonte; ou Montalto di Castro, perto de Roma).

O governo está convencido de que tudo mudou e que a opinião pública está disposta a rever sua decisão de 1987. Stefano Ciafani, da associação ecologista Legambiente, aponta para o fato de que "as indenizações anunciadas são a confirmação de que são os cidadãos que pagarão a conta".

A oposição prepara-se para atacar. Os ecologistas, apesar de terem representação no Parlamento, estarão nas ruas. Segundo Angelo Bonelli, presidente dos Verdes, o governo já teria a lista dos locais de instalação, mas ainda não os anuncia "para evitar que as eleições regionais se tornem um tiro saindo pela culatra".

Pierluigi Bersani, secretário do Partido Democrata (centro-esquerda), considera a decisão "absurda" e não vê "a utilidade de se aventurar em um projeto que depende de uma tecnologia a ser importada de fora". O partido Itália dos Valores, liderado pelo ex-juiz Antonio Di Pietro, vai mais longe e propõe um referendo para anular a lei sobre a volta ao programa nuclear.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host