UOL Notícias Internacional
 

30/12/2009

De 1978 a 2009: sobre a revolução islâmica do Irã

Le Monde
Michel Taubmann
Foi há 31 anos... em 1978.

Naquele ano, o mês de muharram, mês de luto - durante o qual se passou o martírio do imame Hussein na batalha de Karbala, no ano 680 - , havia começado em 1º de dezembro. Ele viu uma aceleração do incontrolável movimento vindo dos recônditos da sociedade iraniana, que em algumas semanas iria aniquilar a mais antiga monarquia do mundo, fundada por Ciro 2.500 anos antes.

Em 11 de dezembro de 1978, dia da Ashura, o dia mais sagrado do calendário xiita, quando se recorda a morte do imame Hussein, estourou uma rebelião no quartel de Lavizan, que abrigava ao norte de Teerã a prestigiosa Guarda dos Imortais, unidade da elite aérea do exército imperial. Cerca de 72 oficiais e suboficiais foram mortos pelos motins, e 72 é o número exato de "mártires" que teriam caído em Karbala ao lado do imame Hussein. Os iranianos viram nessa coincidência um sinal do destino.

A partir desse dia da Ashura, o regime imperial desabaria como um castelo de cartas. Cinco semanas mais tarde, em 16 de janeiro de 1979, o xá e sua esposa deixaram o país. Em 1º de fevereiro, o aiatolá Khomeini chegou a Teerã, recebido pela massa após 14 anos de exílio. E em 11 de fevereiro o exército iraniano, anunciando sua "neutralidade", entregou as chaves do país a uma coalizão heteróclita, que incluía desde a esquerda marxista até islamitas, sobre a qual Khomeini logo imporia seu poder absoluto.

Neste ano, a Ashura caiu no domingo (27). E os milicianos bassidji, equivalentes simbólicos para o regime islâmico da Guarda dos Imortais para o exército imperial, tiveram de recuar em diversos lugares diante dos ataques da multidão. No Irã, agora, assim como em 1978, o medo é menor do que a raiva. Claro, a história nunca se repete de forma idêntica. Ninguém sabe até onde pode ir o regime atual, na ação repressiva no interior ou na provocação militar no exterior, a fim de se manter no poder. E seria arriscado prever que, a exemplo do regime do xá, ele não sobreviverá dois meses depois da Ashura.

Entretanto, as imagens que hoje chegam até nós, captadas por celulares, evocam de maneira perturbadora aquelas que tanto emocionaram o Ocidente 31 anos atrás. Tanto hoje como então manifestantes desarmados, entre os quais estudantes ocidentalizados e mulheres de véu, jovens e velhos, ricos e pobres, enfrentam as forças de ordem no corpo-a-corpo. Tanto hoje como então os iranianos sobem nos telhados à noite para gritar: "Allah Akbar!" E o "Morte ao xá" de outrora se transformou em "Morte a Khamenei!". No entanto, existe uma diferença fundamental entre 1978 e 2009.

Antes, o motor da revolução era a rejeição ao Ocidente e à democracia a ele associada. Então, em 5 de agosto de 1978, quando o xá, sentindo a situação fugindo de seu controle, anunciou eleições livres para o ano seguinte, a oposição conduzida por Khomeini rejeitou com desprezo essa perspectiva. E em janeiro de 1979 ela não deixou a menor chance para o liberal Shapur Bakhtiar, eterno opositor do xá, que queria esboçar uma terceira via, democrática, entre a monarquia autoritária e a ditadura islâmica. O estado de espírito dos iranianos hoje é muito diferente. O movimento que nasceu em 12 de junho após o desvio dos resultados da eleição presidencial tem por motor a liberdade, o Estado de direito, a democracia, a igualdade dos sexos, a reconciliação com o mundo exterior.

Tendo começado com a simples contestação da fraude eleitoral, hoje ele questiona o próprio fundamento do regime, o "velayat-e-faqhi", que instaura a subordinação do político ao religioso. Sobre os telhados de Teerã, de Shiraz, de Isfahan, na noite de domingo para segunda-feira, os iranianos gritavam "Allah Akbar". Mas também se podia ouvir o apelo para substituir por uma "república iraniana" digna desse nome a "república islâmica" fundada por Khomeini.

*Michel Taubmann é jornalista e autor, junto com Ramin Parham, de "Histoire secrète de la révolution iranienne".

Tradução: Lana Lim

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