UOL Notícias Internacional
 

31/12/2009

No Irã, o governo contestado é pego em uma espiral repressiva

Le Monde
Marie-Claude Decamps
Mais de 5 mil prisões, dezenas de feridos, certamente uma centena de mortos, sem contar as torturas, os julgamentos arbitrários e o choque das últimas imagens de domingo, quando nem a "trégua" do luto xiita da Ashura foi respeitada, pois as forças de ordem abriram fogo sobre os manifestantes: desde a reeleição controversa do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 12 de junho, a República Islâmica perdeu essa fachada de unidade que conseguia passar há trinta anos graças à ligação de um "nacionalismo" bem orquestrado, fosse sobre a questão nuclear ou sobre sua estabilidade interna.

Bastaram seis meses. Agora a espiral contestação-repressão fugiu de controle. Evidentemente isso lembra o início da revolução em 1978, quando de 40 em 40 dias as comemorações de luto xiita das primeiras vítimas atraíam novos manifestantes contra o regime do xá. Até quando o governo fingirá ignorar que a contestação eleitoral se transformou em oposição? E será que ele continuará a denunciar os "hooligans" teleguiados por um "complô do exterior"?

Cansados de não serem ouvidos, dezenas de milhares de manifestantes que "canibalizam" cada festa, cada manifestação autorizada para desviar seu sentido e tentar fazer valer seus direitos, abalaram até os fundamentos da República Islâmica. Antigos pais fundadores da revolução, como o ex-presidente Hashemi Rafsanjani, políticos no poder, mas mais lúcidos, e até aiatolás "esclarecidos" preocupados com o próprio futuro da religião associada às desventuras da política pelo princípio do vellayat-e-faqih que subordina a política à religião, aumentaram os alertas.

Portanto, a espiral. Mas para o governo e para a oposição, o tempo trabalha no sentido contrário. A oposição, da qual certos membros se preocupam com um risco de radicalização (os manifestantes atacaram os milicianos basijis, no dia da Ashura) sabe que deve apostar na duração e na legalidade para existir. Pois esse movimento informal que só se identifica por alguns instigadores está em constante construção. Sua única "estrutura" é a internet, que escapa um pouco da censura. Ele se alimenta das desilusões criadas pelo governo. E toda vez que sai às ruas, percebe de forma quase surpresa que cresceu ainda mais. Jornalistas, defensores dos direitos humanos, classe média traída e decepcionada pelo isolamento do país desde a chegada de Ahmadinejad; jovens desesperados por um futuro obscuro, mas também - isso é novidade - porque a repressão triunfou no interior, os camponeses engrossam as colunas. A figura de proa é o candidato derrotado na eleição presidencial de junho, Mir Hossein Mousavi.

E o que querem esses líderes da contestação que são mais "símbolos de adesão" do que verdadeiros líderes? Eles não são "anti-mulás" ou contra o Islã (dois deles são religiosos, Medhi Karubi e Mohammad Khatami, ex-presidente reformista da República). Eles não são - por enquanto - a favor de uma revolução radical. São todos revolucionários históricos/veteranos e vêm do círculo interno: Mousavi é um ex-premiê; Karubi, ex-presidente do Parlamento. Eles querem seus direitos, dos quais alguns já estão na Constituição que prometia "liberdade, República Islâmica e independência nacional". De fato, nenhum slogan pede pelo fim do regime, e sim dos abusos atuais, e por adaptações.

O alvo é Ali Khamenei, o líder supremo considerado "ditador", que perdeu sua credibilidade política quando saiu de seu papel de árbitro para apoiar os fundamentalistas em torno de Ahmadinejad, e sua credibilidade religiosa quando deixou a milícia atirar nos manifestantes, apesar da trégua religiosa da Ashura; perdeu também sua credibilidade constitucional ao suprimir a liberdade. Os mais audaciosos falam em abolir o próprio princípio do Líder, devolvendo a religião para as mesquitas. Mas muitos sabem que uma radicalização excessiva seria uma armadilha.

Se é que houve uma "revolução", foi dentro do governo. Desde junho, o líder faz o jogo de Ahmadinejad. Esse populista ultra-religioso que se diz em contato espiritual com o Mahdi, o imame escondido cujo retorno é aguardado, trabalha para instaurar o regime islâmico autoritário com o qual os fundamentalistas sonham desde 1979. Um regime que riscaria a palavra "República" de "República Islâmica". E esse governo está com pressa. Se ele hesita em reprimir ainda mais, é mais por interesses velados do que por moderação: ele quer ter certeza de sua força, sem criar "mártires" incômodos. Mas o perigo dessa política é chegar à "militarização" do regime. Khamenei não afirmou seu poder justamente sobre o crescimento dos pasdarans, o exército ideológico, e sobre os milicianos?

Será tarde demais para reconciliar o governo e a oposição? É cada vez mais difícil, mas não impossível. Para isso o Líder deverá fazer grandes concessões - será ele capaz disso? E será que ele já não é refém da trama dos serviços secretos e dos milicianos fundamentalistas que eles instalaram?

Tradução: Lana Lim

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