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08/01/2010

Jean-François Copé: "O risco é que a burca se torne a última moda"

Le Monde
Jean-François Achilli e Françoise Fressoz
Le Monde: O Partido Socialista se diz contrário a uma lei contra o uso do véu integral na França. O senhor ainda está decidido a apresentar sua proposta de lei?

Líder socialista francês defende restrições ao uso da burca no país. O que você acha da proposta?


Jean-François Copé:
Quero mesmo que façam rodeios, que finjam não estar vendo. O Partido Socialista é ótimo em fazer um monte de constatações, mas quando se trata de apertar o botão da coragem política, eles se fazem de mortos. A burca, a meu ver, tem relação com dois problemas: o respeito às mulheres e a segurança. Se não agirmos rápido, existe o risco de que um dia, daqui a um, dois ou três anos, a burca se torne um fenômeno de moda. Que se torne a última moda.

O rosto descoberto é o primeiro elemento do diálogo e do respeito à identidade. Você acredita que se possa deixar uma mulher de rosto coberto buscar uma criança na saída da escola sem que se veja quem é?

Le Monde: Então o senhor apresentará sua proposta?
Copé:
Trabalhei nisso durante todo esse final de ano. Apresentaremos primeiramente uma resolução, ou seja, um texto inicial no qual reafirmamos os valores da República quanto à proteção e o respeito às mulheres. E em seguida um texto de lei que proíba o uso da burca precedida por um período de seis meses de diálogo.
  • Raheb Homavandi/Reuters - 28.set.2009

    Mulheres afegãs vestindo a burca aguardam
    em fila para votar em zona eleitoral em Herat



Não tive oportunidade de falar diretamente com o presidente da República a respeito, mas acredito que seja uma posição amplamente apoiada por meus amigos deputados.

Le Monde: Concretamente, como esse tipo de lei pode ser aplicada?
Copé:
Muito simples, como todas as leis. O texto proibirá o ato de ter o rosto coberto em vias públicas ou em espaços abertos ao público. A pessoa que não respeitar a lei será multada.

Le Monde: Não é simples...
Copé:
Ah! Porque isso não se autua? Mas é incrível mesmo! A França é um país republicano, os franceses são legalistas. Sinto-me como se estivesse de volta ao debate sobre o véu. Na época também diziam que não era possível legislar. Foi necessária toda a vontade do presidente Chirac para fazê-lo.

Malek Chebel: Sou daqueles que militam por um islamismo das luzes na França, militei pela dignidade da mulher e concordo: é preciso proibir a burca no espaço público. Mas seu método me preocupa porque ele é exagerado, superdimensionado, e de certa forma o senhor humilha um pouco a dignidade da República que faz uma lei.

Ao passo que, por um sistema de pedagogia, de confrontação, de diálogo, de discussão, talvez até mesmo de incitação através de associações, através dos maridos, poderíamos solucionar o problema. Enfim, temo que por trás dessa questão, seja o problema do islamismo que está em jogo.

Copé: Não, sinto muito, Chebel, mas a burca não é uma questão religiosa. Devemos refutar essa associação. A burca é uma questão de extremistas que estão testando a República.

Polêmico véu

O líder governista no Parlamento francês, Jean-François Copé, anunciou, nesta quinta, que irá apresentar um projeto de lei para proibir o uso da burca na França.

A proposta prevê uma multa de 750 euros (R$ 1,8 mil) para qualquer pessoa que mantenha o rosto "completamente coberto" em espaços públicos

Chebel: Existem dois problemas que se juntam e que se cristalizam ao mesmo tempo. Um medo muito claro do islamismo na comunidade nacional. E a dificuldade dos muçulmanos em se comunicar. Não sabemos apresentar coletivamente os lados bons do islamismo.

Nessa carência, todo mundo pode estabelecer suas intenções políticas e existir de forma momentânea e midiática nas costas do islamismo. O islamismo não passa de um veículo, de um álibi para suscitar angústias e preocupações.

Copé: Nunca, em nenhum momento, pensei em instrumentalizar o que quer que fosse, nem qualquer culto que fosse. Desde o início, disse e repeti que não era uma questão religiosa, mas sim de valores da República, e é nesse espírito que essa lei de proibição deve ser assumida.

Jean-François Copé é presidente do partido UMP na Assembleia Nacional, deputado e prefeito de Meaux. Malek Chabel é escritor e filósofo.

Tradução: Lana Lim

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