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08/01/2010

Mulher de Medhi Karoubi, figura de contestação no Irã, teme por sua vida

Le Monde
Marie-Claude Decamps
Mehdi Karoubi, 72, ex-presidente do Parlamento e candidato reformista derrotado na polêmica eleição presidencial iraniana de 12 de junho, na qual ele chegou em terceiro lugar, atrás de Mahmoud Ahmadinejad e de Mir Hossein Mousavi, atual líder da oposição, foi agredido e ameaçado diversas vezes nos últimos meses. Inclusive fisicamente. Seu jornal, "Ettemad-e-melli", foi fechado, e seus conselheiros, presos.

Durante as grandes manifestações ocorridas paralelamente às festas religiosas da Ashura, em 27 de dezembro de 2009, ocasião em que a polícia atirou na multidão (um balanço oficial fala em oito mortos, entre os quais o sobrinho de Mousavi), Mehdi Karoubi foi um dos alvos dos ataques dos fundamentalistas que apóiam Ahmadinejad. Vários grandes dignitários religiosos pediram por seu "julgamento" e por "uma punição exemplar".
  • AP - 27.dez.2009

    Oposicionistas iranianos enfrentam forças de segurança em Teerã durante ato contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em dezembro de 2009

No dia seguinte, quando ele saía de uma cerimônia de luto em uma mesquita no leste de Teerã, um pequeno grupo de capangas fundamentalistas o atacou. Ele estava no carro, e o pára-brisa foi estilhaçado. A multidão teve de espantar os agressores. Karoubi, que foi o primeiro a ter a coragem de denunciar as torturas e estupros de manifestantes nas prisões, tornou-se um dos líderes mais ouvidos do movimento "verde" de contestação. Ele continua sua luta, mas o que será de sua segurança?

Fatemeh, sua esposa, que dirigia a revista feminina "Irandokht", também fechada há alguns dias pelos militares, respondeu a nossas perguntas em Teerã. Ela acredita que o governo irá até o fim dessa repressão sangrenta que já causou dezenas de mortes

"A política sem acordos não faz sentido", acredita ela, "mas aqueles que concentram o poder no Irã parecem ter escolhido a via da repressão. Ora, nunca em nossa história os métodos repressivos tiveram sucesso contra o corajoso povo do Irã. E acredito que também não terão desta vez". E Fatemeh Karoubi, que diz esperar que os dirigentes de seu país "mudem logo sua visão e seus métodos em relação às reivindicações do povo", também se preocupa com a segurança de seu marido, a sua e a de seus filhos.
  • AFP - 05.ago.2009

    O presidente iraniano reeleito Mahmoud Ahmadinejad, em frente à bandeira do país, acena ao deixar o palco, depois de fazer o juramento de posse, em Teerã. Ele é acusado de fraudar as eleições majoritárias do país e tenta reprimir qualquer atividade de oposição no Irã



"Atualmente, o governo não nos garante nenhuma assistência ou proteção especial", explica Fatemeh Karoubi, uma ex-enfermeira que, por respeito, muitas vezes se refere a seu marido como "Sr. Karoubi". "Na verdade, durante essas duas últimas semanas, até a equipe encarregada da proteção do Sr. Karoubi faltou com seus deveres, por causa das próprias ordens que lhes foram dadas".

"Agora que a situação piorou muito, o nível de proteção do Sr. Karoubi e da residência de nossa família se reduziu a um nível muito baixo, insuficiente. Tivemos que, nós mesmos, tomar medidas para garantir nossa proteção...", ela conta.

Será que essa corajosa mulher, que se mantém discreta, conclui a partir daí que sua família foi objeto de crescentes ameaças? "Sim, em diversas ocasiões houve ameaças e agressões da parte de agentes à paisana, mas armados. Além disso, esses mesmos agentes são mantidos e protegidos pelas forças de segurança. O carro do Sr. Karoubi foi sabotado".

E acrescenta: "O que me preocupou e me fez reagir foi a ameaça flagrante, lançada contra nós pelo presidente da comissão da segurança nacional do Parlamento, e a de certas figuras extremistas na mídia nacional. O fato de que as autoridades do país lançam um apelo público para que "o próprio povo aja diretamente e por sua própria iniciativa contra os dirigentes do movimento verde'".

O que isso significa? "Que o governo dá seu aval a mercenários que devem, em nome do 'povo', cumprir seus deveres nos atacando".

Ela acredita que sua vida e a de seu marido estão em perigo? "Sim, levando em conta a ausência de proteção adaptada, me preocupo por mim, por meu esposo, e até por meus filhos. Pois as figuras extremistas que só pensam na repressão acreditam nessa falsa ideia, de que eles podem jogar as reivindicações do povo ao esquecimento com a supressão física do Sr. Karoubi e do Sr. Mousavi".

E ainda afirma: "Eu declaro categoricamente: se algo de grave acontecer ao Sr. Karoubi, o governo é que será responsável por isso. O governo não deve e nem pode se isentar desse possível crime, atribuindo-o aos estrangeiros ou a outros grupos".

Sem ir até esse extremo, em sua opinião, o que aconteceria caso fossem presas as duas figuras de proa da contestação, seu marido e Mir Hossein Mousavi?

"O movimento 'verde' do povo do Irã tem reivindicações de acordo com a Constituição da República Islâmica do Irã", ela faz questão de explicar. "O Sr. Karoubi, em suas declarações, pediu diversas vezes pela aplicação de todos os artigos da Constituição iraniana, e o Sr. Mousavi também o fez em seu comunicado número 17, pedindo que, em conformidade com a Constituição, parte das reivindicações fossem levadas em conta".

"Qualquer um que queira encontrar uma solução para o problema atual deve admitir que a lei é soberana e que ela se aplica da mesma forma para todos", ela diz. "É preciso acabar com os comportamentos ilegais. Senão", adverte, "a crise atual só se aprofundará cada vez mais. A prisão dos senhores Karoubi e Mousavi não só seria injusta como também jogaria lenha na fogueira, provocando a fúria da sociedade".

E o que seria do movimento "verde" nesse caso? "Nessa hipótese, todos nós devemos fazer um esforço para que o povo continue, como antes, a se manifestar pacificamente, e para que não haja um preço pesado a pagar por isso".

Quanto à atitude no exterior dos militantes dos direitos humanos e dos defensores da democracia, frente à crise iraniana, Fatemeh Karoubi prefere não emitir comentários políticos: "Eu", responde ela com humildade, "não estou em condições de determinar qual deve ser o dever dos outros... Prefiro me referir ao que meu marido declarou diversas vezes: 'Cumpri meu dever religioso, legal e nacional. Não espero nada de ninguém'. "

Tradução: Lana Lim

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