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12/01/2010

110 mil congoleses da República Democrática do Congo se refugiam em Congo-Brazzaville

Le Monde
Jean-Pierre Tuquoi
Enviado especial a Brazzaville
Fugir da violência e atravessar de canoa o Ubangui, um imponente afluente do rio Congo. Deixar a margem direita e a República Democrática do Congo (RDC), e procurar refúgio em frente, na República do Congo. Há pouco mais de dois meses, quase 110 mil pessoas - em sua maioria mulheres e crianças - atravessaram a fronteira entre os dois Congos e se espalharam ao longo do Ubangui por quase 500 quilômetros. Outros - 15 mil pessoas, segundo instituições das Nações Unidas - preferiram buscar refúgio mais ao norte, na África Central, sempre ao longo do rio Ubangui. Outros ainda - quase 50 mil, estima-se - teriam abandonado seus vilarejos sem deixar o nordeste da RDC e a província de Équateur.

Localização de Brazzaville

É difícil saber o que realmente se passa em Équateur desde o início dos tumultos há pouco mais de dois meses. A região, outrora domínio de Jean-Pierre Bemba - ex-rebelde preso em Haia, na Holanda, enquanto aguarda para ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional -, é de difícil acesso, afastada de tudo. E em Kinshasa as autoridades praticamente não falam na violência que fez, segundo números oficiais, 270 vítimas, em sua maioria civis.

Originalmente, havia uma antiga rivalidade entre duas etnias pelo controle de lagos repletos de peixes, de importância vital para todos. Em 28 de outubro de 2009, o conflito degringolou, como os meses de confrontos esporádicos deixavam suspeitar. Nesse dia, quase mil homens armados da tribo Lobola, vindos de Enyelé, tomaram a vila de Dongo e mataram civis e cerca de cinquenta policiais. Seguiu-se uma primeira onda de refugiados. A segunda, maciça e mais bem organizada, veio no fim de dezembro, quando Kinshasa, que no meio-tempo retomou o controle de Dongo, anunciou sua intenção de restabelecer a ordem a qualquer preço.

É o que estão tentando fazer milhares de policiais e militares, encaminhados ao local graças ao apoio logístico fornecido pela Missão das Nações Unidas na RDC, a Monuc (esta última mobilizou 500 capacetes azuis na região). A marinha da RDC também está agindo e uma operação naval estaria em preparação, segundo fontes diplomáticas.

Mas o exército congolês, mal dirigido e indisciplinado, pago ocasionalmente, possui uma reputação execrável. "Os refugiados com quem falamos dizem que eles fogem tanto da violência do exército normal quanto daquele ligado aos confrontos interétnicos", observa o representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) na República do Congo, Stephan Grieb.

Do outro lado do Ubangui, a situação humanitária é delicada, ainda que a violência étnica não tenha sido "exportada" pelos refugiados - acolhidos sem dificuldade pela população local agora minoritária. "As pessoas dos dois lados do rio muitas vezes são parentes. Os locais dividiram o pouco que eles tinham", observa um dirigente governamental congolês. A solidariedade permitiu evitar uma grande catástrofe humanitária.

Ainda que há uma semana o afluxo de refugiados na República do Congo venha diminuindo, cuidar deles apresenta sérios problemas. São milhares de toneladas de alimentos, medicamentos que devem ser encaminhados para o nordeste do país, sendo que as barcaças não poderão mais navegar no Ubangui com a chegada próxima da estação seca. Campanhas de vacinação são indispensáveis, assim como o registro dos refugiados. "Dentro de alguns dias faremos um apelo internacional. Precisamos de fundos, de logística, de comida", resume o representante do Acnur.

Alguns países ocidentais já desbloquearam créditos de emergência. Foi solicitado à França que colocasse à disposição das organizações humanitárias um avião de transporte militar. Em Paris, o ministério da Defesa hesita por razões orçamentárias. De passagem por Brazzaville, no sábado (9), o chefe da diplomacia francesa, Bernard Kouchner, prometeu intervir junto a seu colega da Defesa, Hervé Morin.

As autoridades de Brazzaville, por sua vez, temem que os refugiados vão se instalar de forma duradoura, podendo desestabilizar a região. O presidente Sassou Nguesso contatou seu colega da RDC, Joseph Kabila. Mas sem receber a garantia de uma volta à paz em Équateur.

Tradução: Lana Lim

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