UOL Notícias Internacional
 

13/01/2010

As esquerdas da América Latina enfrentam a corrupção

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
No fim de dezembro de 2009, a justiça argentina desistiu de prosseguir com a investigação sobre as suspeitas de enriquecimento ilícito que pesam sobre a presidente peronista Cristina Kirchner e seu marido e antecessor Néstor Kirchner (2003-2007). Segundo a declaração patrimonial do casal, sua fortuna chega a US$ 12 milhões em 2009, sendo que era inferior a US$ 5 milhões no ano anterior. Desde 2003, seu patrimônio aumentou seis vezes, sem contar o de seus parentes ou de suas comitivas pessoais.
  • Maurício Lima/AFP - 30.set.2008

    Na foto, os quatro principais líderes de esquerda da América Latina: Chavez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia), Lula (Brasil) e Rafael Correa (Equador)



O governo explica esses saltos espetaculares por meio da evolução do mercado imobiliário na província de Santa Cruz (Patagônia), onde os Kirchner começaram sua carreira política - ele como governador, ela como senadora. Eles compraram terras públicas a um preço baixo, que foram revendidas a um valor muito superior. Assim, um terreno de 20 mil metros quadrados, adquiridos em 2006 por menos de US$ 35 mil, foi cedido a uma empresa chilena por mais de 1,6 milhão. A oposição considera a operação um "tráfico de influência". Outros viram ali no mínimo um conflito de interesses. Mas para a justiça de Buenos Aires, não há nada de novo a dizer sobre isso.

Antes de chegar à presidência, Néstor Kirchner arrastava um negócio de US$ 500 milhões. Governador de Santa Cruz, sua província natal, durante o colapso financeiro da Argentina (2001), ele achou que seria boa ideia investir no exterior os rendimentos do petróleo. A justificativa era evitar uma possível falência bancária no país. O problema é que o circuito percorrido pelos 500 milhões e pelos produtos financeiros que dele resultaram nunca foi esclarecido, sendo que eles levaram anos para voltar a Santa Cruz.

Cristina Fernandez de Kirchner

  • Leo La Valle/EFe - 14.dez.2009

    A presidente da Argentina durante uma cerimônia na Casa Rosada, em Buenos Aires (Argentina)


No ranking de percepção de corrupção da Transparência Internacional (TI) a Argentina figura entre os Estados decadentes ou os países em guerra, como a Somália, o Afeganistão, o Sudão e o Iraque. A ONG classifica em uma posição ainda mais comprometedora diversos países da América Latina - Haiti, Venezuela, Paraguai, Equador, Nicarágua, Honduras e Bolívia. Segundo a classificação da TI, somente o Uruguai e o Chile se aproximam da França e de outros países europeus mais virtuosos.

Em 1998, quando o tenente-coronel Hugo Chávez disputava a presidência da Venezuela pela primeira vez, ele o fazia em nome da luta contra a corrupção. Desde então, ele se livrou de todos os controles, sendo que o preço do barril de petróleo e os recursos do Estado aumentaram vinte vezes. Ainda que a Venezuela sofresse com a corrupção, as somas desviadas se contavam em milhões, e hoje elas são bilhões. O dinheiro público é gasto de maneira arbitrária e obscura. Sua utilização partidária e o enriquecimento ilícito coexistem em total impunidade. Até certo ponto, o abuso político "acoberta" os desvios individuais.

Em 2007, durante a campanha eleitoral de Cristina Kirchner, uma mala contendo 800 mil petrodólares proveniente de Caracas foi interceptada na alfândega de Buenos Aires. O portador da valise, Guido Antonini Wilson, esteve na sede da presidência argentina durante a recepção em homenagem ao chefe do Estado venezuelano, Hugo Chávez. E o que a Justiça disse sobre isso? Circulando, não há nada para ver aqui!

A esquerda que chegou ao poder na América Latina há uma década veio convencida de sua superioridade moral sobre as antigas elites. Ora, com exceção do Chile e do Uruguai, esses governos de centro-esquerda ou de esquerda estão perdendo a batalha da ética. Na Bolívia, a nacionalização dos hidrocarbonetos (2006) foi contaminada pela corrupção à frente da empresa pública Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (2009).

No Brasil, o escândalo do "mensalão" (2005) - mensalidades pagas a parlamentares aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - veio se juntar, em 2009, ao caso do presidente do Senado, José Sarney, flagrado em casos de nepotismo, de empregos fictícios e outras fraudes.Ex-líder do grupo parlamentar governamental sob a ditadura militar (1964-1985), e depois primeiro presidente civil após o falecimento de Tancredo Neves antes de sua posse, José Sarney está à frente de uma verdadeira máfia familiar no Maranhão. O presidente Lula o salvou em nome da coesão da coalizão governamental, ainda que ele represente o que há de pior na classe política.

"Em um país petroleiro, todos se veem no direito de pegar sua parte", explica o social-democrata Teodoro Petkoff a respeito da relativa indiferença dos venezuelanos em relação aos desvios de dinheiro. "A luta contra a corrupção precisa de um forte controle dos parlamentos, de um sistema judiciário eficaz, de órgãos de auditoria e de luta contra a corrupção independentes e que disponham de recursos suficientes, de uma aplicação vigorosa da lei, de uma transparência nos orçamentos públicos, de uma contribuição de auxílios e financiamentos, bem como de uma imprensa independente e uma sociedade civil enérgica", observa Huguette Labelle, presidente da TI. A virtude não é somente uma questão de decência, mas sim de respeito às instituições.

Tradução: Lana Lim

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