UOL Notícias Internacional
 

13/01/2010

Incentivado a se reconciliar com o Fatah, Hamas palestino reexamina suas alianças

Le Monde
Laurent Zecchini
Enviado especial a Gaza
Desde que tomou o poder em Gaza em junho de 2007, o Hamas nunca esteve tão isolado. Sua autoridade sobre a faixa de terra não está em questão, os outros partidos políticos palestinos, como o Fatah e a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), são prova disso. De Jabaliya no norte até Rafah ao sul, as bandeiras verdes do Movimento da Resistência Islâmica (Hamas), onipresentes, só permitem raras aparições de cores palestinas.

O mesmo vale para as liberdades políticas: "O Hamas, até agora, não nos atacou. Nossas atividades são livres dentro dos limites que ele nos impôs. Então nossos militantes guardam suas armas em casa", resume Rabah Mohanna, da FPLP. Portanto as ameaças não vêm da frente interna, ainda que os comentários dos habitantes de Gaza tendam a pintar o quadro de uma nítida erosão da popularidade do Hamas.

O que está em questão são sua estratégia e suas alianças. O Movimento da Resistência Islâmica encontra dificuldades em pelo menos quatro frentes: as negociações estagnadas para um acordo com Israel pela libertação do soldado franco-israelense Gilad Shalit, preso em Gaza desde 2006, sendo que ele conta com um acordo para enfraquecer o Fatah; ao contrário do partido de Mahmoud Abbas, o Hamas continua se recusando a assinar o documento egípcio que deveria servir de base para a reconciliação palestina.

A decisão do Cairo de construir uma barreira metálica subterrânea ao longo do "corredor Filadélfia", para combater os túneis perfurados sob a fronteira egípcia, constitui uma ameaça econômica vital; por fim, o agravamento da crise política no Irã, tradicional padrinho financeiro e militar do Hamas, abre um período aleatório. "Israel continuará seu bloqueio enquanto o Hamas for o único no poder em Gaza", acredita Ahmed Youssef, conselheiro político de Ismail Haniyeh, primeiro-ministro do governo do Hamas.

O Estado judeu, ele diz, não fará um acordo sobre Gilad Shalit, "porque seria perder um argumento para continuar com o bloqueio. De qualquer forma, nós não aceitaremos o exílio dos prisioneiros palestinos (que Israel exige para no mínimo 120 deles fora da Cisjordânia), então não acredito que haverá em breve um acordo sobre Shalit". As negociações palestinas representam, por outro lado, um risco político para um Hamas que perde o fôlego.

Existem pelo menos três razões para essa desilusão popular: o desemprego e a pobreza se acentuam; a aura do Hamas como único partido da resistência ao "invasor sionista" está se apagando com o prolongamento da trégua militar com Israel; por fim, não tendo conseguido se transformar em partido governamental, o Hamas administra a vida cotidiana de 1,4 milhão de habitantes em Gaza como um partido islâmico que recorre sobretudo à perseguição policial.

"O Hamas", resume um diplomata europeu, "não quer assinar o 'mapa da paz' egípcio, porque não quer enfrentar as eleições palestinas em posição de fragilidade". Empresário e colunista, Sami Abdel Shafi constata que, nesse ponto,existe um consenso não declarado: "Os americanos, assim como os israelenses, não pressionam a favor dessa reconciliação, porque eles não querem um governo de união nacional palestino que incluiria ministros do Hamas".

E será que, à sua maneira, Cairo incita o Hamas a aceitar um acordo com o Fatah? Segundo essa lógica, se o terminal de Rafah, único ponto de passagem oficial com o Egito, estivesse totalmente aberto, o partido islâmico estaria ainda menos inclinado a um acordo com o Fatah. Daí até fechar progressivamente o cerco sobre Gaza, como os Estados Unidos gostariam, há uma distância. Pois se a "economia dos túneis" está em declínio, não é o sistema político do Hamas que sofrerá com isso, mas certamente a população de Gaza.

O Hamas reagiu apelando para a solidariedade árabe. Khaled Meshaal, chefe do escritório político refugiado em Damasco, foi no dia 5 de janeiro a Riad para encontrar os dirigentes sauditas. Essa viagem tinha um objetivo duplo: conseguir do reino que ele intervenha junto ao presidente egípcio Hosni Mubarak, para que este desista de "murar" Gaza; aproximar-se da Arábia Saudita no momento em que o Irã entrou em um processo político incerto.

"Perguntei a Khaled Meshaal se seu movimento estava do lado dos árabes ou do lado dos outros", disse o ministro saudita das Relações Exteriores, Saud al-Faisal, fazendo uma alusão ao Irã. A Arábia Saudita não se recusaria a dar uma ajuda financeira ao Hamas, explica Rabah Mohanna, mas ela impõe duas condições: que o Movimento da Resistência Islâmica aceite a reconciliação palestina, e que ele use de sua suposta influência no Iêmen para contribuir na desativação da rebelião hutista do norte que preocupa Riad.

Nada indica que Khaled Meshaal tenha tido sucesso. "O Irã nos traz um apoio importante, financeiro, moral e político, o que não é o caso dos países árabes, vítimas de sua aliança com os Estados Unidos", lembra Ahmed Youssef. De qualquer forma, com o Irã vítima de crises políticas, e o Egito que privilegia sua aliança americana em vez de sua solidariedade árabe, o futuro de Gaza e do Hamas são incertos.

Tradução: Lana Lim

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