UOL Notícias Internacional
 

14/01/2010

Shebab somalis sonham em exportar seu jihad

Le Monde
Jean-Philippe Rémy
Em Johannesburgo (África do Sul)
O jihad somali sobre o solo do Iêmen começou com músicas, e parece ter ficado por lá. No início de janeiro, em um acampamento no norte de Mogadíscio, capital somali, centenas de jovens recrutados do grupo harakat Al-Shabab mujahidin (movimento dos combatentes sagrados da juventude), considerado pelos Estados Unidos como um grupo terrorista, terminavam seu treinamento. Desfilando uma bandeira preta ao vento, eles puderam escutar um de seus chefes, Sheikh Mukhtar Robow Abu Mansur, comemorar sua futura intervenção no Iêmen, onde "seus irmãos estariam se preparando para recebê-los".

O Iêmen se encontra a alguns dias de barco das regiões costeiras somalis acessíveis a esses shebab. Há muitos veleiros nessas rotas marítimas, frequentadas em especial pelos traficantes de armas e de seres humanos. Teoricamente, o Oceano Índico não é um obstáculo para um desembarque shebab no Iêmen. Teoricamente, as afiliações reivindicadas pelos grupos armados islâmicos iemenitas e somalis, que incluem ligações com a rede Al-Qaeda, poderiam fazer deles irmãos em armas. Além disso, certamente nada poderia dar mais prazer aos comandantes shebab do que executar esse plano, que provaria que o grupo somali pode ascender a todos os principais papeis jihadistas na escala do planeta.

Mas se existe um movimento de somalis na direção do Iêmen, é basicamente a bordo de embarcações de traficantes que levam clandestinos, que são jogados na costa iemenita arriscando suas vidas. Trinta e dois mil somalis encontram refúgio no seu pouco hospitaleiro vizinho da Península Arábica, em 2009. Mais de 100 mil pessoas no total deixaram a Somália ao longo do ano, escapando dos combates entre uma coalizão flutuante de grupos islâmicos, dos quais fazem parte os shebab, e as forças do Governo Federal de Transição (TFG), entidade frágil que recebe apoios internacionais, e do auxílio de tropas da União Africana, a Amisom.

A ameaça do chicote
Reivindicando uma afiliação à Al-Qaeda, abrigando dirigentes da célula da África Ocidental da rede de Osama Bin Laden, que lhes prestou homenagem em uma breve gravação de áudio divulgada em março, os shebab importaram técnicas de outros territórios jihadistas, em especial os atentados suicidas. Sua influência, entretanto, continua sendo limitada pelas fronteiras somalis. Eles controlam uma grande parte do sul do país, e desde o início de janeiro estão envolvidos em uma nova ofensiva contra o TFG e outros movimentos, entre os quais alguns antigos aliados. O objetivo, segundo fontes seguras, é estender sua influência para o centro do país, para sufocar Mogadíscio aos poucos.

Nesse cenário, a intervenção dos shebab no Iêmen tem todas as chances de permanecer no estágio das canções e das promessas, da mesma forma que foi o treinamento em outubro de uma brigada dos mujahidins da Al-Quds que prometiam, sob as ordens do "afegão" somali Abdifatah Aweys Abu Hamasa, levar a guerra santa a Jerusalém para ali "defender a mesquita Al-Aqsa contra Israel".

Estariam esses limites dissimulando uma empreitada maior de dirigentes da Al-Qaeda sobre o movimento? Desde novembro, Sheikh Mohammed Abu Faid, um dirigente da Al-Qaeda de nacionalidade saudita, teria tomado o controle do comando dos shebab. Mas essa informação depende da confissão de um comandante shebab "perturbado" e precisa de confirmações sérias.

No decorrer dos últimos meses, o grupo deu provas de seu rigor. Os shebab ameaçam com chibatadas os homens que se recusam a usar barba ou deixam de costurar a barra da calça alta o suficiente para mostrar os tornozelos. Apedrejamentos, amputações e sessões de chibata proliferaram. Os shebab também destruíram túmulos de santos, cujos aniversários são importantes festas religiosas na Somália das confrarias sufi, afastando parte da população.

Os shebab mantêm relações complexas com a sociedade somali, onde as alianças ultrapassam as noções religiosas. Dirigentes do TFG entram no meio insurgente tão facilmente quanto os insurgentes migram para outro campo. O pesquisador do CERI (Sciences Po), Roland Marchal, especialista em Somália, distingue três tendências entre os shebab. Uns pertencem a uma tendência neo-salafista (volta ao Islã das origens). Outros vieram do movimento das Cortes Islâmicas (no poder durante seis meses em 2006 antes de serem expulsos pela Etiópia). O terceiro grupo é constituído por veteranos do Afeganistão. Para o pesquisador francês, somente os últimos prenderiam, injustamente, a atenção do exterior.

O conflito somali já é internacionalizado há vários anos, com a intervenção em graus diversos da Etiópia, da Eritreia, do Quênia e dos Estados Unidos do lado do TFG. Do lado dos shebab, combatentes estrangeiros se uniram às suas fileiras. Ora, segundo estimativas da União Africana, o número desses estrangeiros chegaria a 1.200, e nem todos são jihadistas endurecidos. Metade deles são originários do Quênia, onde há uma grande população somali.

Tradução: Lana Lim

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