UOL Notícias Internacional
 

15/01/2010

China está sendo ameaçada pela "síndrome soviética"?

Le Monde
Thierry Wolton*
Este ano de 2010 deve consagrar a aura internacional da China com a Exposição Universal de Xangai, em maio. A manifestação é pretendida por Pequim como uma continuação de uma campanha de sedução que começou com os Jogos Olímpicos do verão de 2008. O evento certamente será mais uma vez notavelmente dominado pelas autoridades e não faltarão superlativos para saudar o extraordinário sucesso desse país.
  • TEH ENG KOON/AFP - 04.mar.2008

    Seguranças observam míssil chinês no Military Museum em Pequim, capital da China



Tudo isso provoca algumas reminiscências. Meio século atrás também tinha início uma época triunfal - para a União Soviética. A década de 1960 havia sido precedida pela viagem de Nikita Krushev aos Estados Unidos, em setembro de 1959. Durante essa operação de relações públicas, o número um soviético havia jurado que seu país não demoraria a ultrapassar a potência americana.

E assim se seguiu uma campanha de propaganda destinada a validar essa tese, pontuada por sucessos surpreendentes, sendo o envio do primeiro homem ao espaço em 1961 o mais impressionante deles. Durante os vinte anos seguintes, Moscou forneceu estatísticas favoráveis sobre a produção de trigo, de aço, etc., que validavam a incontestável superioridade do modo de produção socialista.

Foi descoberto recentemente que uma agência especial havia sido criada pelo Kremlin para fornecer os números esperados por um Ocidente deslumbrado com essa história de sucesso. A ofensiva foi complementada por uma melhora das relações no plano interno, e depois pelo envio ao Ocidente de alguns símbolos da cultura soviética, como o Coral do Exército Vermelho. Se relermos a cobertura da imprensa da época, certa de que a URSS seria, sem dúvida nenhuma, a grande potência do fim do século 20, só podemos admirar a força de convicção demonstrada por Moscou, ou nos surpreender com nossa extraordinária ingenuidade.

É interessante lembrar o que o Kremlin fez dessa bem-sucedida "operação de marketing": ele acreditou em sua própria propaganda, confortado pela imagem que nós lhe passávamos de sua potência irreprimível. As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por uma ascensão significativa da URSS e do campo socialista em geral, no cenário mundial, até a invasão do Afeganistão, em dezembro de 1979. Esses progressos pareciam ainda mais vitoriosos uma vez que o campo ocidental estava agora em crise econômica, com a primeira crise do petróleo, e moral, depois da derrota americana no Vietnã em 1975.
  • Greg Baker/AP - 01.out.1999

    Desfile de mísseis chineses durante a festa de 50º aniversário da revolução comunista na China

No plano das relações de forças internacionais, a URSS podia realmente aspirar a uma divisão da liderança mundial com os Estados Unidos. No plano interno, a "entreabertura" ao mundo exigida por esse papel de grande potência custou algumas contestações. Elas foram prontamente reprimidas (Tchecoslováquia em 1968, detenção de dissidentes...), muitas vezes na indiferença de democracias que não queriam se desentender com esse grande país.

Existia ali uma determinada lógica da qual todos foram vítimas, no fim das contas: os povos sob jugo comunista, que não podiam mais contar, ou muito pouco, com um apoio ocidental; as opiniões públicas do Ocidente, estupefatas por uma potência exaltada pelas mídias; os dirigentes dos países democráticos, cuja pusilanimidade encorajou o Kremlin a levar cada vez mais longe seus interesses; por fim, os próprios dirigentes soviéticos, que acabaram esquecendo o quanto seu império era frágil. O resultado, todos conhecem.

Ora, a "sinomania" atual é bem mais forte do que foi a "sovietomania" de outrora. Ela se acentuou nos últimos anos graças a mecanismos que lembram aqueles que fizeram o esplendor da URSS: um notável sucesso econômico sublinhado por estatísticas favoráveis; uma certa fascinação dos ocidentais por uma cultura, um modo de vida (ou até uma multidão) exóticos para eles; uma ascensão no cenário mundial favorecida, ou até mesmo pretendida, pelos outros grandes em nome da equidade. Tornou-se banal prever que o império do Meio seria o líder de nosso planeta antes da metade deste século. Uma crença ainda mais firme pelo fato de o mundo ocidental estar em crise.

A China aparece hoje para nós tão distante do que foi a Rússia soviética de ontem, que pode parecer arriscado estabelecer um paralelo. Entretanto... a URSS e a China comunista seguiram vias parecidas por boa parte do século 20 e, ainda que seus caminhos tenham divergido, seguiram políticas análogas, inspiradas pela mesma ideologia. O punho de Mao não foi menos sanguinário do que o de Stálin. Ambos se lançaram em uma industrialização forçada às custas de milhões de camponeses mortos, ambos garantiram para si um poder absoluto aterrorizando seus povos.

Mais tarde, o jovial Deng Xiaoping lembrou o benevolente Krushev, ambos sonhando em fazer decolar uma economia socialista em pane graças à tecnologia ocidental. A partir dos anos 1990, a campanha de sedução da China teve suas similaridades com a da URSS nos anos 1960-1970. Claro, os atuais dirigentes chineses não lembram os velhos escondidos no Kremlin até a chegada de Gorbachev em 1985. Mas, justamente, seu dinamismo não lembra, mais ou menos, o voluntarismo deste último, esperança final do comunismo soviético para tentar salvar o regime? É verdade, eles se saem muito melhor do que ele nessa questão.

Uma comparação não prova nada, mas sistemas de mesma natureza podem gerar comportamentos políticos similares. O Partido Comunista chinês pode ser o primeiro partido leninista darwiniano, como bem disse Nicolas Bequelin, pesquisador da Human Rights Watch, ou seja, capaz de evoluir; mas continua sendo um partido de espírito totalitário, gerando reflexos policiais para aqueles que o lideram. Do Tibete a Xinjian, contra os intelectuais dissidentes ou os camponeses desapossados, a crônica da repressão durante os últimos anos ilustra o endurecimento do regime.

A exemplo da URSS, a China exige agora sua parte na governança do mundo, merecida por seu sucesso econômico. Nos anos 1970, Moscou falava em melhora nas relações internacionais; Pequim tranquiliza, mencionando sua ascensão pacífica ao mesmo tempo em que investe cada vez mais em armamentos (ainda que esse orçamento esteja longe de se igualar ao dos EUA). Se esconderem a parte comunista dessa China, esses paralelos não têm sentido algum. Mas até prova em contrário, esse país continua sendo governado por um partido único, dirigido por homens formados por um molde único, que têm a palavra final sobre a economia e que dividem seus frutos, de maneira quase hereditária. Nesse tipo de regime, o principal continua sendo o governo, que decide sobre tudo.

Então é pertinente se perguntar se a China, por mais fabulosa que pareça, não corre o risco de ser vítima da síndrome soviética, com seus dirigentes sendo atingidos pelos mesmos males que levaram à queda da URSS. A combinação de nossa admiração cega e de um governo absolutista, indiferente aos sofrimentos de seu povo, obcecado por seus interesses de poder, tudo isso exacerbado pelas dúvidas dos países ocidentais sobre o modelo liberal, são fatores que poderiam resultar em um futuro difícil.

O jogo de espelhos entre comunistas chineses muito seguros de si, convencidos de suas próprias estatísticas sobre o sucesso de seu regime, e dirigentes ocidentais obcecados por suas balanças comerciais e seus déficits, que só pensam em bajulá-los por algumas fatias de mercado, pode fazer Pequim esquecer de suas fragilidades intrínsecas: obsolescência de parte de seu sistema industrial, discriminação social, desequilíbrio entre oferta e procura, inflação, bolha especulativa, envelhecimento da população, catástrofes ecológicas. Em suma, tudo aquilo que caracteriza uma economia socialista.

Essa ilusão recíproca, desta vez entre Ocidente e Oriente, poderá levar a China a querer ir longe demais, assim como a URSS em outros tempos.

*Thierry Wolton é historiador, especialista em sistemas comunistas.

Tradução: Lana Lim

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