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16/01/2010

Ucrânia, dividida e em crise, escolhe seu presidente

Le Monde
Marie Jégo
Enviada especial a Balakliya (região de Kharkov)
Com o nariz e as bochechas avermelhadas pelo frio, são centenas de pessoas que circulam pela praça central de Balakliya, cidade industrial de 31 mil habitantes no leste da Ucrânia, no coração do feudo russófono. Elas esperam por seu candidato favorito, Viktor Yanukovitch, líder do Partido das Regiões, dado como favorito no primeiro turno das eleições presidenciais ucranianas, previsto para domingo (17).

  • EFE/Mykhaylo Markiv

    Dezoito candidatos se enfrentam no domingo. Os dois favoritos são: o líder do Partido das Regiões, Viktor Yanukovitch (foto acima), 59, e a primeira-ministra, Yulia Timoshenko, 49.

    Segundo turno. Em caso de confronto com Timoshenko, Yanukovitch seria vencedor com 58% dos votos, contra 39% de sua rival, segundo pesquisa publicada pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, no fim de dezembro de 2009.

    Zebra. O candidato Serhiy Tihipko, ex-ministro da Economia que se tornou bilionário, poderá surpreender. Segundo pesquisa do centro russo de estudos da opinião pública VTsIOM, ele poderá até ultrapassar Yulia Timoshenko.

    Contra todos. Os eleitores têm a possibilidade de votar contra todos os candidatos na disputa. Um voto que poderá ser significativo, segundo sociólogos.

Por fim, a comitiva chega. Assim que o vê, a multidão grita: "Yanukovitch presidente!" Estudantes foram colocados nas primeiras fileiras. Eles formam uma guarda de honra, segurando em suas mãos enluvadas as bandeiras azuis do Partido das Regiões. Viktor Yanukovitch, 59, de cabelos tingidos e casaco escuro, sobe rapidamente no palanque: "Caros cidadãos de Balaclava...", ele diz ao microfone.

Risos nas primeiras fileiras. Yanukovitch acaba de cometer uma gafe. Ele confundiu Balakliya, cidade do leste da Ucrânia, alvo de sua turnê eleitoral deste 14 de janeiro, com Balaclava, uma cidade balneária da península da Crimeia, no sul do país. O público não se ressente. Aqui, o ex-premiê está em casa.

"Gosto de tudo nele, seu jeito, seu programa, além disso sou alérgica aos 'laranjas'..." conta Nina Dementievna, uma aposentada de 70 anos que veio do vilarejo de Izyum em um ônibus fretado pelos organizadores. O discurso lhe agradou, sobretudo a promessa de aumentar as aposentadorias quatro vezes por ano. Os "laranjas", o presidente atual Viktor Yushtchenko e a atual primeira-ministra Yulia Timoshenko, figuras da "revolução laranja" do inverno de 2004-2005, ambos candidatos à presidência, lhe "dão nos nervos".

Os heróis não fazem mais sucesso. O presidente reformista Viktor Yushtchenko tem 3,5% das intenções de voto. Sua ex-colega de estrada, Yulia Timoshenko, se sai melhor. Segundo as últimas pesquisas de opinião, no fim de dezembro de 2009, ela chegaria em segundo lugar, atrás de Viktor Yanukovitch, com 19% a 22% dos votos. A dama de tranças é popular nas regiões do centro e do oeste, enquanto seu rival Yanukovitch certamente levará os votos no leste e no sul do país.

A desilusão é grande. O país e seus 46 milhões de habitantes estão mergulhados na recessão econômica. Outrora dotada de uma das economias mais dinâmicas da região, a Ucrânia, grande exportadora de aço, teve em 2009 uma queda de 15% de seu PIB. As tensões, em especial entre os antigos aliados Yushtchenko e Timoshenko, colocaram em perigo o plano de salvamento de US$ 16,4 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Por ter fracassado no rigor orçamentário, Kiev não recebeu a última parcela do empréstimo. Em Balakliya, a crise corrói. A indústria de cimento diminuiu de ritmo, a usina de açúcar fechou. Os habitantes querem acreditar que Viktor Yanukovitch os salvará. Seu Partido das Regiões, detentor de 175 das 450 cadeiras do Parlamento, é poderoso. Seus dirigentes reinam no Leste, rico e industrializado, e seu financiamento é garantido por Rinat Akhmetov, um dos oligarcas mais ricos da Ucrânia.

Com 26% a 42% das intenções de voto, Yanukovitch, um ex-caminhoneiro com jeito de burocrata comunista, está tendo sua vingança. Eleito presidente em uma eleição marcada por fraudes no inverno de 2004, esse russófilo teve de ceder o lugar um mês depois a seu rival, o reformista Viktor Yushtchenko, eleito em um "terceiro turno" organizado por pressão de centenas de milhares de eleitores descontentes com o resultado da votação. Cinco anos mais tarde, o vassalo de Moscou - ele havia sido felicitado prematuramente pelo Kremlin por sua vitória - não perdeu nada de sua credibilidade política.

A ameaça de fraudes persiste. Prova do desencantamento dos ucranianos em relação à política e o processo eleitoral, um website (www.prodaygolos.com.ua) propõe aos eleitores desiludidos que vendam seus votos a quem pagar mais. "O importante é não se vender a um preço muito baixo", acredita um internauta no fórum do site, avaliando seu voto em 5 mil hrivnas (R$ 1.079). "Compro votos. No atacado, a partir de mil votos a 100 hrivnas (R$ 22) por eleição", oferece um outro. O pagamento será feito na apresentação de fotos da cédula de voto e do passaporte do eleitor, tiradas por celular, ele explica.

Tal iniciativa "teria sido impensável em 2004", diz Nadia Gontcharova, uma empresária de Kharkov, cidade industrial e universitária do Leste russófono. "Antes, votávamos pelas idéias; hoje, vota-se pelo dinheiro", lamenta essa loira voluptuosa. Além de suas atividades comerciais (turismo e construção), ela dirige um programa de iniciação de jovens nos negócios públicos, que ela financia. "Nossas elites se tornaram uma espécie de clã. Ter acesso a elas é difícil, os jovens nem tentam. Eles sabem que é impossível penetrar, que tudo é monopolizado", ela lamenta.

Para ela, "mesmo que Yanukovitch seja eleito, a democracia ucraniana não corre perigo, aqui pode-se criticar em voz alta". Entretanto, o favorito das eleições não gosta de debates. Ele recusou todos os confrontos com Timoshenko, sua adversária do segundo turno de 7 de fevereiro, se as pesquisas de opinião estiverem corretas.

Seus projetos são opostos: autoritarismo e nostalgia pós-soviética para Yanukovitch, reformas e integração europeia para Timoshenko. Ambos desejam desenvolver relações serenas com o vizinho russo.

Com uma nuance: "Viktor Yanukovitch reconhecerá a independência da Ossétia do Sul e de Abkhazie (territórios georgianos reconhecidos independentes por Moscou que instalou ali bases militares em agosto de 2008), mas Yulia Timoshenko não", explica Hryhory Nemiria, o vice-premiê encarregado da integração europeia.

Tradução: Lana Lim

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