UOL Notícias Internacional
 

19/01/2010

Segurança aérea: os limites do debate sobre os scanners corporais

Le Monde
Jean-Pierre Stroobants
Em Bruxelas (Bélgica)
Os dirigentes ocidentais decidiram, apressadamente, reagir à tentativa de atentado ocorrida no voo Amsterdã-Detroit, como em cada episódio desde o 11 de Setembro de 2001. O presidente Barack Obama resumiu a situação em algumas palavras: "O sistema falhou", e desde então ele faz de tudo para "garantir a segurança dos cidadãos".

Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, esse "fazer de tudo" vai significar a instalação de scanners corporais nos grandes aeroportos, máquinas capazes de literalmente despir os indivíduos e detectar suas armas, drogas ou explosivos como aqueles levados por Omar Farouk Abdulmuttalab, o jovem passageiro do voo de 25 de dezembro. Esse nigeriano convertido ao radicalismo terrorista havia sido denunciado por seu pai, mas estranhamente ele não constava nos arquivos americanos, que no entanto contêm os nomes de pelo menos 500 mil indivíduos, como se sabe agora.



Os responsáveis ocidentais pela segurança estão tentando apagar essa grave falha, ressaltando que um scanner corporal teria impedido o embarque do terrorista que levava pentrita. Isso certamente é verdade, e para muitos legitima as decisões que estão sendo tomadas em Londres, em Paris ou em Abuja, uma vez que a Nigéria foi um dos primeiros países a querer adotar esses aparelhos.

O reflexo apressado das políticas é compreensível, na mesma medida em que o assunto é delicado. Após cada acontecimento que pode despertar a lembrança dos atentados e confirmar a capacidade de adaptação das redes terroristas, convém anunciar rapidamente novas decisões. Esquecendo de confessar que os sistemas de proteção só podem ser adaptados ao que já aconteceu, e nunca ao que poderia acontecer.

As medidas de controle adotadas após 1995, quando houve uma tentativa de explodir uma dezena de aviões acima do Pacífico, não impediram o 11 de Setembro de 2001. Em seguida, as redes ligadas à Al Qaeda aconselharam Richard Reid a esconder um explosivo em seus sapatos e por diversas vezes quase despistaram as reforçadas medidas de controle. Em Londres, em agosto de 2006, eles usaram uma nova técnica, os explosivos líquidos escondidos em latas. Quando os líquidos foram proibidos na cabine, eles bolaram os explosivos em pó escondidos em roupas de baixo. Após o caso de Detroit, especialistas agora falam no risco de substâncias escondidas no corpo dos candidatos kamikazes, sob forma, por exemplo, de "bombas supositórios"...

Nessa corrida sem fim, o sistema não chegou a "falhar", mas sim atingiu seus limites. A questão, hoje, é saber se o objetivo da segurança pode tudo justificar e transformar de forma profunda nossa sociedade, já bastante tentada pelo controle e pela vigilância difundidos. O domínio da segurança aérea ilustra todos os perigos que espreitam: o desmantelamento dos limites em matéria de coleta de informação, a normalização das exceções, e o estabelecimento dessa "sociedade securitária" criticada por alguns. Uma coletividade onde a preocupação securitária seria tamanha, que todos os controles se tornariam legítimos.

"Nunca garantiremos 100% de segurança e isso certamente não é desejável, dado o tipo de sociedade que isso pressupõe", declarou recentemente o coordenador da política antiterrorista da União Europeia. Mas Gilles de Kerchove acabou aderindo à ideia da adoção dos scanners. Ouvida pelos deputados europeus, alguns dias atrás, a futura comissária para Justiça, Viviane Reding, passou outra mensagem. "Os scanners não são a panaceia universal", ela declarou, ressaltando a necessidade de "não se deixar guiar pelo medo". A proposta era destinada a seduzir os parlamentares, hostis em sua maioria aos novos detectores. Mas ela marca uma reviravolta do poder executivo de Bruxelas, ao passo que, ao mesmo tempo, diversos países se lançam à instalação desses aparelhos.

O mais importante, no caso, não é que mais uma vez a coordenação europeia tenha sido desprezada. Nem mesmo que não dediquem um segundo à importância simbólica do caso: Orwell teria adorado essas mulheres, esses homens e essas crianças despidas pela tecnologia... Para ficar na realidade bruta, observemos somente que o aeroporto Ben Gurion de Tel-Aviv, certamente o mais seguro do mundo, abriu mão desses scanners. Seus dirigentes acreditam que eles trazem menos resultados do que a análise do risco, a observação e a psicologia comportamental.

Então a decisão tomada pelos Estados Unidos e diversas capitais europeias merece um amplo debate. Porque ela negligencia as preocupações com a saúde que foram mencionadas, em especial pelas organizações americanas de defesa das liberdades. Porque ela não responde às questões sobre a eficácia real dessas aparelhagens e não leva em conta as objeções morais que podem suscitar. Ora, nesse domínio que sofreu demais com o segredo desde 2001, somente uma discussão que inclua todos os detalhes - principalmente os detalhes - poderia legitimar um novo passo à frente.

Tradução: Lana Lim

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