UOL Notícias Internacional
 

20/01/2010

Detroit, antigo motor do sucesso americano, quer acreditar no futuro

Le Monde
Nicolas Bourcier
Enviado especial a Detroit (Michigan)
No coração de Detroit, a alguns quarteirões do centro da cidade e de seus arranha-céus atravessados por um inverno impiedoso, o lugar lembra tanto um refeitório popular quanto um pátio dos milagres. Chega-se ali por meio de uma porta escondida antes de descer alguns degraus. Todos os dias da semana, inclusive aos domingos, quase 250 idosos vêm até essa sala decorada com guirlandas da Igreja de St. Patrick para compartilhar uma refeição gratuita sob o olhar benevolente de um retrato de Barack Obama pendurado na parede.

"Ouço por toda parte que a recessão acabou", diz a irmã Marie Watson, antes de dar de ombros. "Não vejo nada disso aqui. As ruas estão cheias de pobres e as necessidades só crescem". Há mais de 35 anos essa missionária de pulso firme serve comida aos mais carentes, que às vezes percorrem vários quilômetros para vir até este bairro devastado da Cass Street, um dos inúmeros guetos da cidade.

  • Spencer Platt/Getty Images/AFP - 20.nov.2009

    Pedestre passa por rua do centro empobrecido de Detroit, cidade das grandes montadoras



Oficialmente, o país dá sinais tímidos de recuperação. A economia registrou um crescimento de 2,2% no último semestre de 2009. Mas a melhora anunciada não chegou até aqui. A cidade, que já foi uma das mais ricas do planeta, capital mundial do setor automobilístico, das linhas de montagem, dos altos salários e da hipermobilidade, parece se decompor um pouco mais a cada dia.

Basta andar por suas vias esburacadas para descobrir a paisagem urbana caótica e surreal de Detroit. Um terço de seu território está abandonado, e 80 mil casas estão vazias. Mais da metade de seus habitantes, ou seja, quase um milhão de pessoas, foi embora em cinquenta anos, brancos exclusivamente, preferindo se instalar nos condados limítrofes - Macomb, Oakland, entre os mais ricos do país.

Cidade fantasma, segregada e violenta, Detroit reúne sozinha os efeitos da desindustrialização iniciada há mais de trinta anos, a crise dos subprimes de dezembro de 2007 e a falência do setor automobilístico. Tudo em uma cidade só. Detroit é o epicentro dos EUA que sofrem, como observa Ismael Ahmed, diretor dos serviços de auxílio social do Estado do Michigan. O ponto de observação ideal para a revista "Time", que comprou uma casa na região leste da cidade para instalar uma equipe de jornalistas.

Aqui, a taxa de desemprego é de 28,9%, três vezes maior que a média nacional. Segundo especialistas, ela chegaria a 50% se incluíssem todos os indivíduos que não se registraram junto às autoridades. Cerca de 130 mil empregos foram perdidos em 2009, o dobro em relação a 2008. Somente a irmã Watson e os dirigentes de organizações de caridade parecem mostrar uma relativa serenidade a respeito do futuro de suas equipes. "Haverá trabalho para nós por muito tempo ainda", ela diz.
  • Ina Fassbender /Reuters

    Sinal de trânsito em frente a fábrica da Opel simbolizando a desistência da General Motors de vender o controle da empresa para a canadense Magna, no auge da crise financeira que abalou Detroit, ex-capital industrial dos EUA



É claro que a eleição de Barack Obama suscitou uma esperança absurda. Bastião da democracia desde 1962, elegendo um prefeito negro sem interrupção desde 1973, a cidade, que tem 81% de afro-americanos e simboliza um dos lugares históricos da luta pelos direitos civis, teve mais de nove entre dez de seus eleitores votando no jovem senador da vizinha Illinois em 4 de novembro de 2008. Na esteira, Dave Bing, ex-astro do basquete, foi eleito prefeito com o tema da "mudança", e uma nova equipe municipal foi eleita, totalmente negra, pela primeira vez em sua história. Mais revelador ainda, 168 habitantes se candidataram para concorrer a cinco cadeiras no conselho da cidade. Algo jamais visto.

"Detroit quer acreditar", garante Saunteen Jenkins, jovem parlamentar municipal e antiga diretora de um centro de desintoxicação. "Os republicanos não fizeram nada por nós. O montante dos fundos destinados à cidade não parou de cair desde 2008. Com Obama temos chance de virar a página". Antes de explicar: "Será demorado e doloroso".

O prefeito decidiu transferir seu salário para as forças de polícia. Com uma dívida de US$ 300 milhões, ele acaba de demitir 113 motoristas de ônibus. E fala-se em outros cortes orçamentários.

"Hoje ninguém é totalmente otimista com o futuro, mas existe a sensação de que a política que está se instalando será diferente das anteriores, marcadas pela corrupção e inação. Nesse sentido, a chegada de Obama tem um efeito inegável sobre Detroit", afirma Lawrence Dubin, professor de direito na Universidade de Mercy. Como a maioria das pessoas entrevistadas, ele reconhece com certa indulgência que os resultados concretos estão demorando. "Nós decaímos tanto, que talvez precisemos de uma geração inteira para sair dessa", ele diz.

A avenida Eight Mile é uma longa linha reta de duas a quatro pistas que separa Detroit dos subúrbios do norte. De um lado, os bairros do centro majoritariamente negros; do outro, os "subúrbios" brancos, mais opulentos. Uma fronteira racial e social que marcou o inconsciente coletivo durante décadas, mas que hoje rui sob os efeitos da crise. O desemprego atravessou a avenida. Lá também muitas habitações se esvaziaram.

"Nós estamos vivendo uma revolução de nossos hábitos", explica Robin Boyle, professor de urbanismo na Universidade Wayne. "Um momento de reestruturação, onde não existe mais a ideia defendida na época do [presidente] Ronald Reagan, de que uma cidade deveria se virar sozinha. Uma nova política urbana deve ser repensada e a volta do poder público, acelerada".

Por enquanto, o prefeito e sua equipe dizem que querem tirar Detroit de seu isolamento desenvolvendo uma maior cooperação com as municipalidades vizinhas. Apareceram "zonas empresariais de bairros", incubadoras de empresas novas voltadas principalmente para os automóveis do futuro, praticando preços ridiculamente baixos desde o campo até o centro da cidade. Cerca de 800 mini-hortas ou estufas agrícolas, aqui chamadas de "urban farms" (fazendas urbanas), cresceram sobre terrenos abandonados. "É um gota d'água em um oceano de miséria, mas esses projetos respondem a uma verdadeira necessidade alimentar", observa Grace Lee Boggs, 94, incansável militante feminista e antirracista da cidade.

"Detroit é uma cidade de sobreviventes, uma cidade resistente que muitas vezes soube renascer", diz Ismael Ahmed. O diretor de serviços sociais quer acreditar que a metrópole de Michigan será um teste para o presidente Obama. "A verdadeira questão", ele conclui, "é saber se os eleitores terão paciência".

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    1,30
    3,231
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -1,28
    75.413,13
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host