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20/01/2010

Youngstown, no coração do antigo "Ruhr americano", sonha com uma nova juventude

Le Monde
Nicolas Bourcier
Enviado especial a Youngstown (Ohio)
Ele tira seu pequeno gravador e o coloca sobre a mesa com um ar entendido. Com uma voz suave, o idoso diz querer simplesmente guardar um vestígio daquilo que vai contar, como uma marca de sua própria história, uma longa vida em forma de linha quebrada.

Tony Budak foi operário durante quarenta anos. Um trabalhador americano comum, democrata convicto e sindicalizado. Filho de um pai iugoslavo que desembarcou em 1963 em Ellis Island e logo partiu para se instalar em Youngstown, na época uma cidade próspera de 175 mil habitantes na ponta nordeste de Ohio apelidada de "o vale do Ruhr americano", também quis fazer parte do boom da indústria automobilística.

  • Rick Bowmer/AP - 18.fev.2008

    Em campanha eleitoral, Obama posa ao lado de trabalhadores em fábrica em Youngstown



Aos 20 anos, o jovem Budak entrou na Packard Electric, filial da gigante General Motors que mais tarde se tornaria a Delphi. Quase 3.500 operários trabalhavam nas linhas de montagem da usina nesse início dos anos 1960. "A solidariedade entre nós era incrível, quase inimaginável", ele suspira. Acima de tudo, Tony tem um sentimento de orgulho e de poder: "Uma greve entre nós bloqueava todas as usinas da General Motors". Com essa impressão determinada de fazer parte do sonho americano, que ele e seus colegas construíram com suas próprias mãos.

E depois, mais nada. A partir do fim dos anos 1970 e a exemplo de outras usinas da região, a Delphi fez demissões e transferências, primeiro no sul dos Estados Unidos, depois para além das fronteiras. No momento de pedir concordata, os dirigentes da empresa se prepararam para lançar um centro de pesquisa e desenvolvimento em Xangai de US$ 360 milhões (R$ 637 milhões). "É toda nossa história, uma página dos EUA que virou aqui", ele diz. "E é difícil". 50 mil empregos foram eliminados. O desemprego disparou, e a criminalidade também. As casas se esvaziaram, e os moradores desanimaram.

Não há uma eleição em que os candidatos não passem em Youngstown. Não há uma campanha sem promessas de amanhãs melhores. Nunca cumpridas. Aqui, vota-se democrata, por hábito, mas os moradores não têm mais ilusões sobre os políticos vindos de fora. Até Barack Obama, eleito com 62% dos votos, suscitou pouca esperança. "Já até me decepcionei com ele", diz Budak. "O país precisa de um reformista de punho forte, mas toda vez o Obama se esforça para encontrar consenso e deixar todos contentes. Isso não funciona".

Com a crise financeira, Youngstown se mostrou ainda mais vulnerável do que as outras cidades: 17 mil empregos foram perdidos desde dezembro de 2007. Quase 30% da população, reduzida hoje a 70 mil habitantes, vivem abaixo da linha de pobreza. A revista "Forbes" classificou recentemente a cidade entre as dez cidades americanas com o mais rápido declínio.

Nas margens do rio Mahoning, não restou nada do gigantesco alto-forno Jeanette Blast Furnace, apelidado antigamente de "Jenny" e descrito por Bruce Springsteen em sua comovente canção, "Youngstown". Seus 35 quilômetros de indústrias enfileiradas não passam de uma distante lembrança. As pontes que ligavam os bairros operários às portas das usinas desapareceram. Há ferrugem, ervas daninha e galpões esquecidos por toda parte. Somente algumas indústrias siderúrgicas ainda estão em atividade, compradas muitas vezes por russos (Severstal) ou indianos (Arcelor Mittal).

"Consegue imaginar tudo desabando em torno de você durante trinta anos? Há muito tempo que perdemos nossa ingenuidade. Os discursos de Obama não mudaram nada aqui", disse John Russo, diretor do centro de história operária na Universidade de Youngstown. Para ele, a cidade operou uma mudança cultural em matéria de relações no trabalho: "Aqueles que seguraram um emprego estão sob pressão, e os sindicalistas, tão temidos no passado, agora fazem alianças com seus patrões".

Em maio de 2009, quando a General Motors, à beira da falência, perguntou a seus funcionários se estavam dispostos a fazer um acordo de centenas de milhões de dólares, 84% do núcleo sindical 1112 da União dos Trabalhadores do Setor Automobilístico (UAW) da usina Lordstown, situada a cerca de vinte quilômetros da cidade, aprovou o plano. "Os tempos mudaram, o inimigo não é nem a diretoria, nem o sindicato, mas sim a competição estrangeira", afirma Jim Graham, presidente do 1112, instalado na poltrona de seu escritório decorado com uma foto de Barack Obama apertando sua mão. "A classe média", ele diz ainda, "aquela que fazia a grandeza dos EUA, está em perigo. É preciso protegê-la e reconstruí-la". Do lado de fora, um cartaz convida os visitantes que vêm em carros que não sejam da marca "Ford, Chrysler ou GM" a pararem em um estacionamento anexo.

Nos últimos anos, os parlamentares da região vêm baixando continuamente os impostos locais para atrair investidores. Vários centros penitenciários foram construídos dessa forma no centro da cidade e arredores, diferentes usinas foram transformadas em entrepostos. Acima de tudo, Youngstown dedicou um espaço às jovens empresas de alta tecnologia. Mais de doze delas se instalaram ali. Outras estão concorrendo. "Não substituiremos todos os empregos perdidos da cidade, mas podemos redinamizá-la", garante Jim Cossler, apelidado de "Pastor" por causa de sua fé no projeto. "Os custos de instalação são ridiculamente baixos aqui, 4% daqueles praticados em San Francisco". E diz ainda: "Os consumidores compram os produtos não em função de sua procedência, mas sim pelo seu preço".

Jay Williams, primeiro prefeito afro-americano da cidade, reeleito em 2009, pretende reduzir sua circunscrição para limitar os gastos: 2.000 prédios abandonados foram demolidos. Outro tanto terá o mesmo destino graças aos US$ 27 milhões que Youngstown receberá pelo plano de salvamento de Obama, ele conta. Famílias deverão ser realojadas em bairros mais populosos, e os terrenos vazios serão transformados em espaços verdes ou fazendas urbanas, como em Detroit e outras cidades vitimadas.

Tony Budak precisa ir. Ele diz que votará em Obama em 2012, mas com menos entusiasmo ainda. Ele se levanta, guarda seu gravador. Ele não o havia ligado.

Tradução: Lana Lim

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