UOL Notícias Internacional
 
22/01/2010 -

Falta de água ameça a estabilidade política do Iêmen

Le Monde
Gilles Paris
Enviado especial a Sanaa
Ele abre a torneira da mangueira sobre o pátio ressecado de seu jardim interno, e depois liga a bomba elétrica que compensa os defeitos de um encanamento agonizante. Em um gorgolejo, o tubo cospe algumas gotas de água com esforço. E mais nada. Anuar As-Saooly para a bomba que gira em falso, e fecha a torneira. "Devia ter vindo ontem, era o dia semanal de abastecimento do bairro", suspira esse engenheiro hídrico, funcionário de uma empresa alemã, a GTZ, e que mora em um bairro rico de Sanaa, capital do Iêmen. Então, na véspera, a família de Anuar encheu as duas cisternas que possui. A água coletada, de má qualidade, é utilizada somente para as tarefas domésticas. Para cozinhar e beber, consomem somente aquela vendida em garrafas ou galões.
  • Aleksander Perkovic/Der Spiegel

    Ex-detento de Guantánamo, o iemenita Saleh Al Zoba lava os pés na entrada de mesquita
    em Sanaa (Iêmen); um dos poucos lugares do país onde a água corrente é encontrada em abundância. Segundo o jornal "Le Monde", a falta de água é tão ou mais perigosa que a formação de células terroristas no país, que tanto assusta o governo dos EUA e a Europa

Há muito tempo que a água corrente é uma miragem no Iêmen, e não somente em seus desertos e suas montanhas áridas. De todos os flagelos que pesam sobre esse país, que é o mais pobre da península Arábica, desde o movimento separatista do Sul até a rebelião armada no Norte, passando pela presença da Al Qaeda, que atrai a atenção do Ocidente, a falta de água certamente constitui o perigo menos visível, mas o mais insidioso e potencialmente o mais destrutivo. Ele ameaça a maior parte da população, que também é a mais pobre.

A distribuição de um recurso cada vez mais disputado pode alimentar no futuro uma série de guerras pela água, opondo o campo à cidade, ou as regiões mais irrigadas às mais secas. Um iemenita dispõe em média de 120 metros cúbicos de água por ano para cobrir todas suas necessidades, contra 1.500 metros cúbicos para a média mundial. Um número já muito modesto, que poderá cair pela metade até 2025.

"É simples", explica Ramon Scoble,um neo-zelandês que trabalha com as autoridades iemenitas para uma melhor gestão dos recursos hídricos, "cinquenta anos atrás, bastava perfurar a 10 metros de profundidade para encontrar água. Hoje, é preciso descer em média 500 a 700 metros. Em algumas regiões, os poços chegam até a um quilômetro". Os lençóis freáticos ainda enganam, mas por quanto tempo? A alta taxa de crescimento demográfico do Iêmen explica em grande parte essa sede insaciável. A população do país dobra a cada quinze anos, ao passo que as chuvas são limitadas, que o país não possui cursos de água permanentes, e que o preço da dessalinização da água do mar continua sendo proibitivo. Então o consumo ultrapassa, em muito, o estoque renovável.

Mas a origem da crise no Iêmen também remonta aos anos 1970 e à revolução das técnicas agrícolas. Nesse país desértico, os métodos ancestrais privilegiavam um uso coletivo das águas de chuva, em culturas escalonadas ou nos wadis [leitos de rios sazonais], regulados por uma rede de pequenas barragens. Naquela época, a gestão comunitária sumiu com a possibilidade que passou a ser oferecida de perfurar em profundidade e bombear a partir do lençol freático. As autoridades incentivaram a investir nessas práticas individualizadas em nome da autossuficiência alimentar ou de uma agricultura elevada a símbolo nacional. O combustível queimado para o funcionamento das bombas era generosamente subsidiado.

Foi assim que apareceram plantações consumidoras de irrigação, como de banana e melancia, inclusive para a exportação, ainda que na prática isso significasse exportar essa água. A superfície cultivada somente com a água de chuva caiu de 1 milhão de hectares nos anos 1970 para 500 mil hectares em 2009. Ao mesmo tempo, aquela irrigada artificialmente passou de 40 mil para 500 mil hectares.
  • Aleksander Perkovic/Der Spiegel

    Marcas da terra seca que predominam na maior parte das áreas do Iêmen. A falta de água preocupa autoridades de todo o mundo



Um outro fator contribuiu para esse mudança de situação. Ele pode estar relacionado à multiplicação dos mercados em Sanaa dedicados ao "khat", preciosos brotos verdes mascados por seus efeitos euforizantes. Quando volta ao país, geralmente uma vez ao ano, Rafiq, um jovem iemenita que trabalha na Alemanha, mede a progressão dessa cultura nas fazendas em torno de Sanaa, a partir do avião que o leva à capital. "Em toda parte! Agora existe em toda a parte!", ele diz, espantado, enquanto contempla as fileiras de arbustos. "O khat é a garantia de uma renda confortável para os agricultores. Ganham quinze vezes mais com khat do que com tomates, usando a mesma quantidade de água", explica Ramon Scoble. Mais de um terço das superfícies irrigadas com água de poços profundos são destinadas ao seu cultivo. A superexploração dos lençóis atingiu seu ápice, estimulada pelo fenômeno crescente dos poços ilegais. É o produto da corrupção e da política daqueles que um relatório do Banco Mundial, em abril de 2009, classifica pudicamente com a expressão "pessoas influentes", que andam pelos círculos de poder, tribais ou estatais.

Encravada no meio de montanhas áridas, a capital do Iêmen é especialmente ameaçada pela escassez. Será que já se deve preparar a necessária divisão em dois de sua população (2,2 milhões de habitantes)? É a opinião de um especialista em geologia, Mohammed Al Dubei, emitida em agosto de 2009 durante um colóquio do Sheba Center for Strategic Studies, durante o qual também foi prognosticado o esgotamento definitivo em 2025 do aquífero sobre o qual está instalada a cidade. "Um catastrofismo como esse é contra-producente", relativiza, por sua vez, Abdul Rahman Al-Iriyani, ministro do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos. "Já anunciavam a falta d'água dez anos atrás, e depois a remediaram bombeando de profundezas maiores, dando então a impressão de que havia sido um alarme falso. Mas é verdade, a situação é muito séria, muitos incidentes tribais já acontecem por brigas relacionadas à água. Sempre tenho a impressão de que a questão da água no Iêmen se resume a uma corrida àquele que terá a última gota, sendo que deveriam se unir para tentarem melhorar a situação".

Os raros dirigentes políticos e os especialistas, alarmados com a perspectiva de um Iêmen seco, decidiram dedicar todos seus esforços para uma maior eficácia do setor agrícola que absorve 93% dos recursos do país. Anuar As-Saooly, engenheiro hídrico, justifica essa escolha: "É evidente que as redes de distribuição, tanto em Sanaa como em Aden, são muito defeituosas. O fato de não serem mais alimentadas permanentemente acelera os fenômenos de corrosão. Mas sua renovação seria custosa demais, então é melhor apostar tudo na agricultura". "A eficácia da utilização da água para a agricultura é de somente 40%. Se pudéssemos atingir pelo menos 60%, seriam 20% a mais de água", explica o ministro do Meio Ambiente.

Diversos caminhos são mencionados: o direcionamento da água para as culturas por meio de canos, e não por canais ao ar livre que favorecem uma grande evaporação, ou a substituição da dispendiosa prática que consiste em inundar os terrenos com sistemas de gotejamento. Diante do poderoso ministério da Agricultura e de seus subsídios, o do Meio Ambiente não está muito bem armado para mudar as mentalidades.

"O ideal seria limitar os cultivos que consomem água demais, a começar pelo khat. Aquele produzido pela Etiópia é muito bom, e que não me venham com o argumento de que é necessário que ele seja fresco, para justificar o cultivo nos arredores! Quando eu era estudante em Londres, sempre encontrava khat de excelente qualidade no local", garante Anuar As-Saooly. Ciente do poder da "máfia" do khat, inclusive no Parlamento e no partido do presidente Ali Abdallah Saleh, o ministro do Meio Ambiente, Abdul Rahman Al-Iriyani é mais lúcido: "Seria preciso inicialmente ter a garantia de que a economia de água não levaria a uma extensão paralela das superfícies cultivadas".

Será que essas medidas serão suficientes para evitar o pior? "Não é realista pensar que um dia teremos os meios para tratar a água do mar, e depois enviá-la para cidades situadas a mais de 2 mil metros de altitude como Sanaa. Mas é verdade que a dessalinização custará cada vez menos, e que será a solução, mesmo para um país pobre como o Iêmen". Visionário, o engenheiro hídrico prevê um movimento definitivo das populações iemenitas em direção às costas do mar Vermelho e do golfo de Áden.

Nas zonas de difícil acesso por razões de segurança e onde a água é particularmente rara, seja no norte, onde a província de Saada é devastada pela guerra contra a rebelião, seja no sul, em determinadas zonas das províncias de Abyane e Lahej, alguns vilarejos já teriam sido abandonados. Será que as soberbas cidades cravadas nas encostas rochosas das quais o Iêmen tanto se orgulha acabarão na poeira?

Tradução: Lana Lim

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