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22/01/2010

Os Estados Unidos diante do persistente desafio do desemprego

Le Monde
Sylvain Cypel
Em Nova York
Um em cada dois desempregados americanos diz sofrer de ansiedade ou de depressão e teve de pedir dinheiro emprestado a amigos. Segundo uma pesquisa publicada na segunda-feira (18) pelo Census Bureau, em dois anos o número de casais desempregados com filhos pequenos dobrou. Quase 40% desses pais observam "modificações de comportamento" em seus filhos, que eles atribuem à perda do emprego. Metade fala em uma "transformação fundamental" de sua existência - a primeira das mudanças consiste na perda quase instantânea de qualquer seguridade social.

  • Chris Hondros/Getty Images/AFP - 8.jan.2010

    Norte-americana procura emprego em agência de Nova York, nos Estados Unidos



Durante todo o mês de dezembro, com a aproximação do aniversário da posse do presidente Barack Obama, em 20 de janeiro de 2009, as reportagens e investigações sobre as consequências dessas eliminações de empregos se tornaram uma preocupação obsessiva na mídia. "Sinto-me a escória", declarou recentemente um desempregado em horário nobre. Então os Estados Unidos descobrem nas telas todos esses rostos acabados que lembram sua "vergonha" e se perguntam: 10% de desemprego, como chegamos a esse ponto?

Para muitos analistas, foi por ter negligenciado o impacto do desemprego quando se esboçavam sinais de recuperação econômica (e sobretudo financeira) que a Casa Branca e o Partido Democrata se viram diante de uma forte insatisfação da opinião pública, a dez meses das eleições parlamentares.

Ainda que o tema do desemprego tenha invadido o terreno das preocupações, Obama continuou a dar prioridade à reforma da saúde, à luta contra o aquecimento climático ou à regulação financeira. Todos temas essenciais, mas "bem menos palpáveis, em um período de crise aguda, que o desemprego, que nivela tudo", observa Dean Baker, codiretor do Centro de Pesquisas de Políticas Econômicas, um grupo de reflexão democrata em Washington.

Um estudo do departamento do Trabalho, publicado em 8 de janeiro, mostra uma diferença essencial entre o impacto da crise atual sobre o emprego e o das recessões anteriores. Durante as crises de 1974-1976 e 1990-1993, o desemprego foi menor, tanto em números absolutos quanto em duração. Essa comparação também vale para a recessão de 1981-1983, que viu o presidente Ronald Reagan, um ano depois de sua eleição, registrando seu mais baixo índice de aprovação entre a opinião pública.

Para resumir o desastre atual: em dois anos os Estados Unidos perderam 5,24% de seus empregos, ao passo que a queda nas recessões anteriores havia ficado entre 1,4% e 3%, no máximo. Entre desemprego total e parcial, a crise atingiu o emprego de um em cada cinco americanos. Afirmando repetidamente que seu país enfrentava "a pior crise desde a Grande Depressão" dos anos 1930, Barack Obama tinha dado a impressão de estar muito ciente do problema. Ora, está aí o paradoxo: uma vez eleito, o presidente apareceu como um presidente que fez um diagnóstico correto, mas não tirou nenhuma conclusão disso.

Os Estados Unidos registraram 3.078.000 desempregados no último ano do mandato de George Bush; e 4.228.000 em um ano de presidência Obama! No dia 10 de janeiro, mencionando "urgência", Christina Romer, presidente do conselho econômico de Obama, pediu que fossem injetados US$ 75 bilhões para recuperar o emprego. Ninguém duvida que Obama priorizará essa necessidade em 2010.

  • Justin Sullivan/Getty Images/AFP - 6.nov.2009

    Os candidatos a emprego participam de um seminário a procura de empregos na One Stop Carrer Link Center, em San Francisco, Califórnia

Como remediar o problema? A maioria dos analistas, constatando a "divisão" entre a retomada econômica e a do emprego, estão cautelosos. Chefe economista do Goldman Sachs, Jan Hatzius, em um texto intitulado "10 questões para 2010", disse esperar "um saldo positivo de 100 mil empregos por mês a partir do segundo trimestre, insuficiente para modificar significativamente a taxa de desemprego". Levando em conta sua evolução demográfica, os Estados Unidos devem de fato criar 100 mil empregos por mês somente para estabilizar o emprego.

Dean Baker explica ainda que a margem de manobra presidencial é limitada: "Obama perdeu a chance ao limitar seu plano de retomada. Agora, é impossível para ele do ponto de vista político voltar diante do Congresso para aumentá-lo. As consequências são desastrosas. Mesmo que lhe restem US$ 200 bilhões para gastar (de 787 bilhões), o impacto principal do plano já passou".

Segundo ele, o pior é que o presidente fez sua escolha com todo conhecimento de causa, para "privilegiar a política". Ou seja, um acordo com determinados republicanos que ele nunca obteve. Para Baker, essa busca pelo "consenso" levou seu partido para o estado em que se encontra. E conclui: "Os republicanos têm uma estratégia eficaz: eles bloqueiam qualquer mudança para em seguida criticarem um presidente que não age. Já está na hora de ele condenar esse comportamento de sabotagem da economia nacional".

Na quarta-feira, Obama disse "lamentar ter perdido o sentido do contato direto com os americanos sobre seus valores essenciais". Seu principal assessor, David Axelrod, mencionou os "salários bloqueados, os empregos perdidos". Mas será que ele mudará de atitude diante do Congresso? Poucos acreditam nisso.

A Câmara votou em dezembro de 2009 uma lei sobre um plano de criação de empregos de US$ 174 bilhões, ainda não adotada no Senado. Os republicanos agora associam qualquer gasto público a um desperdício. Harry Reid, o líder dos democratas no Senado, já estaria negociando com eles. Alguns imaginam um abandono, ainda que pouco provável, do projeto de seguro de saúde para conseguir um apoio republicano aos empregos nas pequenas e médias empresas. Outros consideram destinar ao emprego US$ 75 bilhões retirados do plano de salvamento das finanças americanas (o Tarp). Mais do que Obama, é seu partido, paralisado pela perspectiva de derrota eleitoral dentro de dez meses, que precisa de medidas rápidas.

Tradução: Lana Lim

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