UOL Notícias Internacional
 

26/01/2010

Os altermundistas em busca de um espaço político

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Enviado especial a Porto Alegre
O Fórum Social Mundial (FSM) reencontra seu berço. Para comemorar seus dez anos, decidiu voltar, pela primeira vez desde 2005, a Porto Alegre, a grande cidade do sul do Brasil que já o sediou por quatro vezes desde 2001. A primeira edição aconteceu ali pouco mais de um ano após o nascimento do movimento, em Seattle (Estados Unidos), em novembro de 1999, quando ocorreram violentas manifestações contra a globalização, durante uma conferência da Organização Mundial do Comércio.
  • Flávio Ilha/UOL

    Participantes do Fórum Social Mundial, que teve início nesta segunda-feira (25), em Porto Alegre


Essa nona edição (não houve fórum em 2008) começou na segunda-feira (25) e terá duração de cinco dias. Como as anteriores, ela acontece na mesma semana que o Fórum Econômico Mundial de Davos, o grande encontro do capitalismo mundial, do qual o FSM se pretende o antípoda. Cerca de 20 mil militantes devem participar de centenas de encontros e debates, em Porto Alegre e em cinco pequenas cidades vizinhas.

Em dez anos, o movimento perdeu o fôlego, num universo capitalista em permanente adaptação, ainda que atingido por uma grave crise econômica, onde o slogan altermundista "Um outro mundo é possível" - um mundo mais justo, mais pacífico, mais solidário, que respeite mais o meio ambiente - ainda pertence à utopia. Então é hora de o FSM fazer um balanço realista e imaginar "uma nova agenda" para sua próxima edição, prevista para Dakar. É a tarefa estratégica que a cada manhã desta semana será incumbida aos 70 palestrantes convidados a Porto Alegre pelo Grupo de Reflexão e Apoio do Fórum.

Ao longo dos anos, as preocupações do FSM mudaram. Sem abandonar seus antigos cavalos de batalha - o comércio desigual, a dívida, a injustiça social - , o movimento adotou mais deles: o aquecimento global, o salvamento dos recursos naturais, os biocombustíveis, o acesso às fontes de energia, a segurança alimentar, a proteção dos povos autóctones...

"Nossas primeiras reuniões eram dominadas por todas as questões ligadas ao comércio e aos mercados," lembra um dos fundadores do Fórum, o sociólogo Cândido Grzybowksi, diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). "Hoje, sabemos que o sistema industrial e seu produtivismo fazem parte do problema, e não da solução. A destruição do meio ambiente se inscreve em uma crise de civilização".

E a crise econômica? Cândido Grzybowski lamenta que os altermundistas não tenham aproveitado "essa ocasião histórica" para "ocupar o espaço político". "A crise validou nossos ataques contra as devastações do neoliberalismo. Ela mostrou que o sistema capitalista não funcionava. Nossas ideias progrediram, especialmente sobre a necessidade de uma crescente intervenção dos Estados. Mas estes se contentaram em evitar o pior. Eles não iniciaram verdadeiras mudanças estruturais".

Então, o quê fazer? "Devemos pensar com audácia", responde Cândido Grzybowski. "Imaginar novos sonhos, criar projetos, elaborar uma outra visão do mundo. Confiar em nossas capacidades de mudança, dar um sentido aos conflitos sociais, construir alternativas que reforcem a autonomia dos cidadãos e dos povos em relação aos governos". Os fóruns anuais, ele constata, pressionaram os hábitos políticos, especialmente entre a esquerda, "mas não muito mais que isso".

Em dez anos, a família altermundista foi mudando aos poucos de perfil. Prova disso são os resultados de uma pesquisa conduzida pelo Ibase junto aos participantes do encontro de 2009, em Belém, na Amazônia brasileira. Os adeptos do movimento continuam tendo um nível elevado de formação: 81% deles concluíram ou estão cursando alguma universidade. Sua desconfiança em relação às instituições continua sendo maciça, sendo que somente a Organização das Nações Unidas conta com alguma confiança, de 44% deles. Mas os militantes do FSM são cada vez mais jovens: 64% têm menos de 34 anos, e 34% têm menos de 24 anos.

"O movimento está em boas mãos", comemora Grzybowski. "Para a maioria desses jovens, que estão participando do Fórum pela primeira vez, é uma iniciação à política". Eles são cada vez menos engajados, no sentido tradicional do termo, sendo que 30% deles não militam em nenhuma organização política, religiosa ou cultural: "Eles têm uma visão muito ampla dos desafios de hoje em dia", conclui o sociólogo brasileiro, "e eles veem as lutas de forma muito universalista".

Tradução: Lana Lim

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