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02/02/2010

Proposta orçamentária dos EUA abre nova corrida para chegada à Lua

Le Monde
Jérôme Fenoglio

Se a nova corrida à Lua tivesse de ser comparada a um esporte, os Estados Unidos, detentores do título desde as missões Apollo, seriam os grandes favoritos. Seu W.O., que deverá ser oficializado na segunda-feira (1), pela apresentação ao Congresso de uma proposta de orçamento que não financie mais o programa Constellation da NASA, logicamente revolucionará a fisionomia da competição. Os concorrentes, como a Europa e o Japão, deverão revisar suas estratégias, e talvez arrumarem suas próprias ambições. Os outros competidores afiarão as suas, sabendo que agora não terão mais desculpas para terminar em segundo lugar.

  • AP- Reprodução

    Chegada do homem à Lua: o astronauta Edwin E. "Buzz" Aldrin Jr. caminha em solo lunar. Ele e seu companheiro de tripulação, Neil Armstrong, da Apolo 11, chegaram à Lua em 20 de julho de 1969. Com um terceiro astronauta que permaneceu em órbita lunar, haviam decolado de Cabo Canaveral quatro dias antes, a bordo do foguete Saturn 5

Hoje, são dois esses pretendentes declarados: China e Índia. O que resume, em si, o deslocamento do centro de gravidade mundial para a Ásia. Nessa prova, onde elas pretendem ganhar um reconhecimento de sua nova importância, as duas potências emergentes não têm o mesmo peso. A China tem diversos trunfos, e um período de atraso, o que constitui uma outra vantagem. Seu regime ditatorial e sua motivação fortemente nacionalista remetem à época em que a conquista da Lua era, antes de tudo, um esforço de guerra fria.

Não é uma coincidência que os chineses, em seu aprendizado do setor espacial, pareçam ao mesmo tempo revisitar os clássicos das missões Apollo e o essencial dos voos soviéticos. Mas com uma maneira bem própria de não mostrar muito rápida e claramente seus objetivos. “Todas as vezes eles procederam da mesma forma”, analisa Philippe Coué, especialista no programa espacial chinês e autor de “La Chine veut la Lune” [“A China quer a Lua” (2007)].

  • Matthew Cavanaugh/EFE

    O presidente norte-americano Barack Obama recebe, na Casa Branca (Washington, EUA), a atripulação da Apolo XI (da esq. para dir.) Edwin "Buzz" Aldrin, Michael Collins e Neil Armstrong, como parte das comemorações pelos 40 anos da chegada do homem à Lua, em julho de 2009

“Até o fim dos anos 1990, eles diziam avançar prudentemente para os voos tripulados, mostravam alguns estudos vagos para um futuro distante. Na verdade, eles estavam prontos, e todo mundo se deu conta disso com o primeiro lançamento de uma cápsula Shenzhou em 1999, que levou o primeiro chinês ao espaço em 2003”. 

A primeira missão robotizada ao redor da Lua, Chang’e-1, havia sido precedida pela mesma prudente imprecisão antes de seu sucesso em 2007. E hoje, a técnica é retomada para se arriscar sobre o terreno de uma conquista humana de nosso satélite natural. “Pouco após o anúncio do programa Constellation pelos americanos, a China divulgou que a Lua também lhes interessava”, conta Philippe Coué. “E depois houve um grande silêncio até 2008, quando um oficial declarou que eles se preparavam para esse objetivo maior. A data estabelecida para essa chegada de um chinês à Lua, 2025, só foi mencionada no ano passado. Mas pode apostar que seus planos são muito mais precisos e avançados do que eles deixam transparecer”.

Por enquanto, Pequim junta as peças de um quebra-cabeça extraordinariamente complexo. Pois a NASA acaba de se lembrar, a duras penas, que ir para a Lua é uma empreitada árdua e custosa, cuja técnica se adquire lentamente e é esquecida muito rapidamente. Para o grande público, o tempo que passou desde a última missão Apollo, em 1972, apagou parcialmente as diversas operações necessárias para o sucesso de uma expedição lunar: fabricar foguetes seguros o suficiente para embarcar humanos, outros pesados o suficiente para transportar o material; dominar os “rendez-vous”, atrelagem entre as naves no espaço; colocar-se em órbita lunar, posicionar um módulo sobre o solo de nosso satélite, fazê-lo decolar novamente; após novos rendez-vous celestes, garantir seu retorno para a Terra e, sobretudo, uma entrada muito delicada na atmosfera.

  • REUTERS

    Em foto de dezembro de 2002, a Shenzhou 4, ou "Navio divino", decola do Centro de Lançamento Jiuquan, no noroeste da China; os chineses correm contra o tempo para enviarem uma missão tripulada à lua, tentando vencer a nova corrida contra o EUA

A China está descobrindo tudo isso. O programa Shenzhou, ao final de três voos tripulados, lhe permitiu conseguir a primeira saída de um cosmonauta ao espaço. As três missões seguintes, previstas para 2011 e 2012, devem ajudar na habituação às técnicas de “rendez-vous” ao redor de um embrião de estação espacial, Tiangong 1. O programa Chang’e, centrado na exploração robotizada da Lua, já resultou em uma cartografia em 3D do solo lunar feita pela primeira sonda em órbita, que acabou sendo deliberadamente precipitada sobre seu objeto de estudo em março de 2009.

A sonda seguinte deve concluir, no fim deste ano, esse trabalho de cartografia, cuja precisão é em si uma confissão dos futuros objetivos chineses. E depois duas outras naves, em 2012 e 2016, devem permitir adquirir técnicas cruciais. A primeira, levando um robô a propulsão nuclear que durante meses se deslocará sobre a superfície. A segunda, trazendo para a Terra amostras das poeiras locais.

Nessa rota balizada até nossa vizinha, uma etapa decisiva será atingida quando Pequim lançar, por volta de 2015, seu foguete Longa Marcha 5, que pode levar 25 toneladas para além da gravidade terrestre. Claro, faltará ao dispositivo um lançador muito pesado, como os Saturno 5 da Apollo, capazes de levar mais de 100 toneladas. Mas com seu novo foguete, a China já poderá considerar queimar etapas para ter algumas performances midiáticas ao redor da Lua – na falta de primeiras, todas realizadas na época pelos americanos e pelos soviéticos. “Não é absurdo imaginar que eles possam realizar uma volta simples ao redor da Lua em torno de 2017”, diz Philippe Coué. “Ou, com dois lançadores, que eles consigam se colocar em órbita. A NASA chegou a cogitar que eles possam conseguir, mobilizando quatro lançadores e dominando perfeitamente os rendez-vous, uma primeira missão sobre o solo lunar”.

Em todo caso, os cosmonautas se preparam intensamente. “O ‘Diário do Povo’, que sempre foi confiável nesses assuntos, acaba de anunciar a criação, ao lado de Pequim, de diversos quilômetros quadrados de terreno simulando a superfície lunar”, diz Coué. “Isso parece grande demais só para treinar robôs”.

Em compensação, no jardim da infância dos aprendizes de conquistadores da Lua, a Índia aparece como novata. Sua agência espacial (ISRO) ainda não domina os voos tripulados, e por enquanto só enviou uma sonda ao redor da Lua, em 2009. A Chandrayaan-1 não funcionou tão bem e pelo tanto de tempo que se esperava, o que não a impediu de contribuir para uma primeira descoberta científica: a evidência de uma ínfima película de moléculas de água na superfície de nosso satélite. O orgulho que inflou o país, na ocasião da publicação desse resultado, deu uma ideia da importância que ele dá ao espaço como caixa de ressonância de seu novo vigor econômico e tecnológico.

Portanto, a ISRO não poderia fazer menos do que mostrar um objetivo extremamente ambicioso: um cosmonauta indiano na Lua por volta de 2025. Cumprir esse prazo talvez permita ultrapassar a China em cima da hora, uma vez que a Índia não prevê realizar seu primeiro voo tripulado antes de 2015, ou seja, doze anos após sua concorrente.

Para vencer essa aposta, a Índia conta com uma arma secreta: uma cooperação estreita com os russos, que conhecem bem a rota para a Lua. Essa ajuda pode lhes fornecer alguns atalhos. Dessa forma, Chandrayaan-2, que em 2012 deve pousar um robô sobre o solo, será objeto de uma colaboração estreita com a Roskosmo, a agência espacial russa. Esta também venderá aos indianos um voo da Soyuz, por volta de 2013, para treinar uma tripulação indiana antes da prova do primeiro voo orbital autônomo, em 2015. Se eles pularem a etapa da estação espacial, que os chineses se impõem, os indianos podem considerar atingir seu objetivo.

Mas esse apoio dos russos pode colocá-los em uma situação delicada. Os chineses na verdade se inspiraram muito na Soyuz, e compraram deles muitos modelos de trajes espaciais para as saídas ao espaço. Entre esses dois parceiros, os perdedores da primeira corrida à Lua poderão se encontrar em posição de árbitro da segunda competição.

Tradução: Lana Lim

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