! Ataques a imigrantes de Rosarno leva a Itália a discutir o racismo no país - 03/02/2010 - Le Monde
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03/02/2010

Ataques a imigrantes de Rosarno leva a Itália a discutir o racismo no país

Le Monde
Philippe Ridet

Dois veículos carbonizados colocados contra uma pilha de pneus usados. Na saída de Rosarno, na estrada que atravessa a planície calabresa na direção de Gioia Tauro, são os únicos sinais visíveis dos confrontos que, nos dias 9 e 10 de janeiro, opuseram uma parte dos imigrantes africanos a moradores dessa pequena vila calabresa de 15 mil habitantes. Dois policiais vigiam a entrada de um imenso galpão onde centenas de africanos passavam a noite durante a temporada da colheita de cítricos. Um pouco de repouso entre duas jornadas de 12 horas, pagas com 25 euros.

  • Chris Helgren/Reuters

    Manifestantes durante protesto anti-racismo em Roma; Itália registra alta da xenofobia

Hoje, ninguém mais vem procurar refúgio nessas paragens. “É estranho ver Rosarno sem seus africanos”, lamenta Damiano, 16, aluno do colégio La Piria. Com sua amiga Erika, ele organizou cursos de alfabetização para os imigrantes e um espetáculo de Natal. “Os imigrantes estavam bem em Rosarno”, garante. “Era somente uma pequena minoria que queria expulsá-los”. “Nós avisamos as autoridades regionais, locais. Com fotos”, lembra Don Ennio Satamile, representante regional da Caritas para a Calábria, a organização católica internacional para a qual o Estado italiano parece ter delegado uma parte de sua política social. “As condições de vida dos imigrantes eram insuportáveis, cedo ou tarde isso ia acontecer. Mas ninguém nos respondeu”.

Em dois dias de violência, Rosarno se tornou símbolo da infiltração mafiosa na agricultura local, da intolerância em relação aos estrangeiros, de uma forma de escravidão moderna e da impotência do Estado. Presidente da República, primeiro-ministro, parlamentares passam pela Calábria. Chegam a Rosarno para tentar entender. Por que, em um pais que viu emigrar 27 milhões de seus habitantes por todo o mundo, 1.500 africanos foram aterrorizados e depois expulsos a tiros de chumbo grosso e golpes de cabos de picareta?

  • Paul Hanna/Reuters

    Campeonato Italiano de Futebol 1999-2000: Roberto Mancini (D) e Dejan Stankovic (E), da Lazio, vestem camisetas contra a violência, o racismo e o anti-semitismo crescente em toda a Itália

Alessandro Campi, diretor científico da Fundação Farefuturo, alinhada à direita, interpreta os acontecimentos de Rosarno como “um sinal”. “Mas”, ele questiona, “como integrar estrangeiros, sendo que o país ainda não encontrou sua identidade 150 anos após o nascimento do Estado italiano? Nós continuamos profundamente divididos, estagnados, apegados a nossas identidades locais. A integração supõe uma mobilidade social e uma forma de unidade em torno de um projeto”. Para ele, a sociedade italiana não tem “nem um, nem outro”. “Nós nos contentamos em administrar as emergências em uma forma de eterno presente”.

Em Rosarno, apontou-se primeiramente o suposto papel da ‘Ndrangheta (a máfia calabresa). Uma investigação está em curso para tentar descobrir se as famílias mafiosas que dominam a economia local não provocaram voluntariamente a “caça aos negros” de Rosarno para provocar a fuga desses imigrantes que se tornaram inúteis, assim que os subsídios da União Europeia passaram a render mais aos fazendeiros do que a venda de laranjas, tangerinas e kiwis. Também foi dito que a culpa é da Camorra (máfia napolitana), quando em setembro de 2008, em Castel Volturno (Campanha), sete africanos foram realmente executados.

Culpa dos vizinhos irritados, foi dito após os incêndios, na primavera e no verão de 2007, de diversos acampamentos ciganos na periferia de Nápoles e de Roma... a explicação é, em parte, verdadeira. Mas foi preciso um artigo do jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, de 11 de janeiro, para dizer o que ninguém queria: “Os episódios de racismo divulgados pela imprensa não são somente repulsivos, eles também nos remetem ao ódio mudo e selvagem por uma outra cor de pele que acreditávamos ter superado (...). Nunca nos destacamos pelo nosso senso de abertura, nós, italianos do Norte ao Sul”.

Verona, 260 mil habitantes, na riquíssima região do Vêneto, a 1.000 quilômetros ao norte de Rosarno. Aqui, reina o partido anti-imigração da Liga Norte. Na prefeitura, Flavio Tosi, o jovem prefeito “leghista”, eleito em 2007 com 60% dos votos, acaba de ser condenado definitivamente por declarações racistas, a três anos de suspensão em comícios públicos. Teria havido alguma relação de causa e efeito entre seu discurso e o de seu partido, e os acontecimentos de Rosarno? “A Liga não existe na Calábria. Por que quer que sejamos responsáveis?”

Entretanto, é exatamente esse partido, ao qual pertencem quatro ministros, entre eles o do Interior, que propaga as provocações racistas. A “criminalização” da imigração clandestina, hoje passível de seis meses de prisão, é a Liga. A legalização das “rondas civis” para estabelecer a ordem e a tranquilidade? É ela. A operação “Natal branco” em uma pequena vila da Lombardia para registrar e expulsar os imigrantes clandestinos antes das festas? Ela também.

A temática eleitoral é vencedora: a Liga tem quase 30% dos votos em certas províncias do Norte e sua influência ganha terreno. “Pela primeira vez na Itália desde o fascismo, formas de racismo estão sendo assumidas na cúpula das instituições”, explica Enrico Pugliese, sociólogo na Universidade La Sapienza, em Roma. “Essa legitimação da xenofobia leva a orientações violentas cada vez mais explícitas”.

Na cidade de Romeu e Julieta, os imigrantes representam 13% da população. Eles se tornaram invisíveis, relegados aos bairros periféricos. A paz social, para o prefeito, repousa sobre um único pilar: a regra. “O prefeito anterior era muito tolerante”, explica. “Ele deixou os imigrantes se instalarem em toda parte, nos parques e nos jardins da cidade. Os moradores tinham medo. Nós aumentamos o controle. Os estrangeiros precisam saber que não podem viver em nosso país como viviam no país deles. A Itália não é um país racista, mas aqueles que não estiverem dentro das regras devem ser punidos”.

Os punidos, imigrantes que só possuem uma permissão de permanência vencida e uma notificação de expulsão como documentos, podem ser encontrados em Caserte (Campanha). A “Tenda de Abraão” é um dos inúmeros abrigos para alguns desses africanos que conseguiram chegar à Itália pelo mar antes que a assinatura com a Líbia de um acordo de barragem contivesse esse fluxo de imigração. Preso entre dois terrenos baldios, esse feio prédio abriga 70 pessoas, sendo que estava previsto para abrigar vinte. Ali dormem de 6 a 8 pessoas em cada quarto.

Vindo do Togo há um ano e meio, Assim conta: “Todos os dias, por volta das 4h30, vamos até uma das praças da cidade. Os empregadores do setor de construção vêm nos pegar. Outras vezes, são os donos das plantações de tabaco. As jornadas vão do nascer do dia até o cair da noite. Recebo 25 euros por dia”. Quem dá trabalho nunca emprega duas vezes seguidas os mesmos imigrantes, por medo de ser reconhecido e denunciado. “Vocês têm bons contatos com eles?”, perguntam. “Eles nos pegam para trabalhar, não para ter notícias nossas”, dispara Michel Djibo, da Costa do Marfim.

Sair, ter contato com a população? Arriscado demais. Humilhante demais, também. “Nos bares, se pedimos um café, servem em um copo de plástico. Como se tivéssemos alguma doença”. Mamadou, marfinense, tem os olhos cheios de lágrimas: “A vida é difícil demais aqui. Precisa-se de um documento antes de poder começar a viver, a trabalhar, a encontrar moradia. Os negros vivem mal, mal, muito mal. Estamos infelizes, aprisionados. Os italianos nos tratam como cachorros. Não, nem isso. Os animais são mais bem tratados do que nós”. Gian Luca Castaldi, que administra esse abrigo, arrisca uma explicação: “Não é necessariamente racismo por parte dos italianos, mas sim de inveja. Para um jovem do bairro, o máximo de ambição social é obter um seguro-desemprego. Eles veem chegando esses caras que arriscaram suas vidas para fazer trabalhos que eles mesmos não quiseram. No fundo, eles invejam sua coragem”.

Reduzidos a uma forma de escravidão, esses imigrantes não escolheram a Itália por acaso. Setores inteiros da economia, a construção civil e a agricultura, dependem da exploração de clandestinos. Quanto menos regulares eles estiverem, mais maleáveis e exploráveis são. “Os imigrantes continuarão a desafiar todas as leis, mesmo as mais restritivas, enquanto souberem que na Itália não há necessidade de permissão de permanência para trabalhar”, escreve o economista Tito Boeri, no “La Repubblica”.

A situação só piora. Enquanto a lei prevê um prazo máximo de vinte dias para obter a renovação da permissão de permanência, os imigrantes agora devem esperar entre cinco e dezoito meses para obter esse documento. Vontade deliberada por parte da administração de deixar essa população na fragilidade para explorá-la ainda mais? “A lei produz voluntariamente a clandestinidade. É uma forma de discriminação institucional”, responde Shukri Said, fundadora da associação Migrare, que conduziu uma longa greve de fome para denunciar as lentidões da administração.

Diretor do instituto de estudos sociais Cencis, que há mais de quarenta anos observa a vida dos italianos, o sociólogo Giuseppe de Rita garante que “os italianos não são mais racistas do que o resto dos europeus diante da imigração, mas possuem um sentimento de superioridade”. Ele explica que “os napolitanos tentaram enganar os americanos quando eles os liberaram em 1943. Os italianos continuam se achando mais fortes do que os últimos que chegaram”.

Tradução: Lana Lim

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