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11/02/2010

Irã possui capacidade real de produção de mísseis, dizem especialistas

Le Monde
Nathalie Guibert

Para comemorar o aniversário da revolução de 1979, o Irã adotou o hábito de anunciar os disparos de mísseis: em 2010, sobre um fundo de tensão máxima em torno da questão nuclear, não foge à regra. O regime não deixou de comunicar sobre o assunto.

Em 8 de fevereiro, uma autoridade anunciou que o país iria se dotar de interceptores "tão possantes" quanto os S-300 russos, mísseis terra-ar que Teerã esperava poder importar, sem sucesso até hoje. No dia 6, o ministro da Defesa, Ahmad Vahidi, inaugurou dois locais de produção de mísseis. No dia 3, o presidente Ahmadinejad anunciou o disparo experimental, com sucesso, de um lançador de satélites civil, de claras aplicações militares.

Irã testa de foguete e eleva tensão

Os especialistas advertem que grandes incertezas ainda cercam as capacidades reais do país - número de mísseis e de lançadores, cargas, confiabilidade. Mas eles concordam sobre um fato: o Irã possui uma capacidade nacional de produção. Um elemento a se levar em conta em um cenário de crise regional.

O programa balístico foi lançado em meados dos anos 1980, durante a guerra com o Iraque. Os Guardiões da Revolução têm o controle da pesquisa, fabricação e utilização dessas armas convencionais, que nenhum tratado proíbe.

O Irã domina os mísseis de curto alcance (300 a 600 km) desde 1985. Os Shahab-1 e 2, Scud soviéticos de fabricação norte-coreana, são pouco precisos, mas capazes de ameaçar seus vizinhos próximos. Essa imprecisão, da ordem de 1 km, "significa que uma utilização convencional assumiria a forma de disparos de saturação sobre locais militares ou alvos civis", analisa Stéphane Delory em uma nota da Fundação para Pesquisa Estratégica (FRS na sigla em francês). Uma tática diante da qual a defesa antimísseis implementada pelos americanos no Golfo é falha. O Irã disporia de cerca de 40 lançadores para 500 mísseis - um sistema eficaz exige um lançador para quatro ogivas.

Colocados em serviço em 2000, os Shahab-3, derivados dos Nodong norte-coreanos, têm um alcance de 1.300 a 1.500 km. Seu número é estimado entre 20 e 100, para cerca de 40 lançadores. Sua propulsão líquida os torna difíceis de manipular, mas sua colocação em túneis permitiria que o Irã compensasse essa desvantagem. "Os Shahab-3 colocam todo o Oriente Médio na zona de eficácia", comenta François Géré, diretor do Instituto Francês de Análise Estratégica (IFAS).

 

Em 28 de setembro de 2009, durante os exercícios "Grande Profeta 4", o país experimentou uma versão de maior alcance do Shahab-3. Seu domínio só é esperado para daqui a vários anos. O lançamento de um Sejil-2 de propulsão sólida, por sua vez, causou surpresa. A FRS lembra que o Irã "desenvolveu uma indústria de propulsão sólida que já lhe permite produzir foguetes". O teste desse míssil de duas fases, de alcance de 2 mil km, munido de uma carga de 1 tonelada, representa "um salto qualitativo". Quanto ao lançador de satélites de 3 de fevereiro, ele também permitirá testar as tecnologias para aumentar o alcance das armas balísticas (separação das fases, uso de combustíveis em pó).

Os especialistas estimam que o Irã não dominará os de alcance intermediário (3 mil km a 5 mil km), capazes de atingir a Europa, antes de uma década. O mesmo para os de muito longo alcance (mais de 5 mil km): "Sem alguma contribuição considerável de tecnologia adicional, não parece que o Irã seja capaz de construir um programa moderno de mísseis balísticos intercontinentais antes de pelo menos dez a 15 anos", notou o Instituto East West em fevereiro de 2009.

Os EUA já se preparam para isso. Em 1º de fevereiro, o Departamento da Defesa reconheceu o fracasso de um exercício de interceptação que simulou no Pacífico, pela primeira vez, um ataque iraniano. O país tem "uma estratégia muito racional, que consiste em considerar essas armas como armas de represália", explica Géré. "Se o Irã for atacado, é claro que haverá uma resposta. Ela visaria todos os Estados considerados 'cúmplices de Israel e dos EUA porque existem em seu território centros de comando americanos', explicam os documentos nacionais." A ameaça para as instalações petrolíferas dos países do Golfo é séria. "Os iranianos a levantaram várias vezes com fins de dissuasão", acrescenta o diretor do IFAS. 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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