UOL Notícias Internacional
 

12/02/2010

Islândia ainda vive os reflexos da crise que abateu a economia do país

Le Monde
Gérard Lemarquis

Não é percorrendo as ruas da capital Reykjavík que veremos sinais de extremo desespero. Os sem-teto islandeses, tanto no verão como no inverno, nunca dormem ao relento: existem abrigos para homens, para mulheres, mas também para casais. Entre aqueles que estão perdendo seus apartamentos porque suas letras de câmbio, indexadas sobre moedas estrangeiras, dobraram, ao passo que suas rendas estagnaram, a pobreza ainda não é visível: os bancos receberam a ordem de transformar os proprietários insolventes em locatários de suas moradias. Dessa forma as crianças podem continuar na escola de seu bairro, e isso evita uma onda de pânico no setor imobiliário que faria os preços caírem ainda mais. Entretanto, a crise está bem presente, nas bolsas, nos projetos abandonados, nas cabeças.

  • AP

    Manifestantes islandeses fazem protesto numa praça da cidade de Reiquiavique, em dezembro de 2008. O investidor Gudjon Mar Gudjonsson diz que não é bem verdade que a crise financeira na Islândia foi invisível para todos, ou que os prejuízos foram virtuais para a população islandesa

O colapso financeiro atingiu duramente a Islândia, que se considerava um invencível refúgio de prosperidade. No outono de 2008, os três maiores bancos do país se arruinaram. A coroa despencou, e o governo teve de pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a seus vizinhos europeus. A economia recuou 8% em 2009.

É nesse contexto que Heimir Magnússon, casado, três filhos, está perdendo sua casa. Ele nasceu há 49 anos em um fiorde bastante isolado na região nordeste, o Vopnafjördur. Em seguida abandonou a pesca pela criação de vison e de raposa prateada. O mercado era promissor e foram muitos os que se aventuraram. Quinze anos depois, faliu.

Seguindo o exemplo de seu irmão, ele aprendeu então a pilotar, estudos caros que ele financiou com um empréstimo. Ele trouxe sua família de Reykjavík, encontrou um emprego na Escócia, e depois se tornou piloto de um jato privado pertencente a um desses novos vikings que partiram em conquista do mundo. A crise de 2008 prejudicou a empresa, Heimir Magnússon foi demitido, e trabalhou alguns meses como pedreiro para pagar suas letras de câmbio.

Um amigo lhe falou de uma mina de ouro na Groenlândia. E assim ele se tornou mecânico, consertando máquinas que dinamitam os blocos de pedra. Ali não havia vilarejo ou estrada, somente alguns contêineres, um píer para atracar e um helicóptero para transportar os empregados. Essa mina surgiu graças ao aquecimento climático, uma vez que os ursos polares e os garimpeiros não partilham dos mesmos interesses... Mas a companhia islandesa que empregava Heimir Magnússon demitiu toda sua equipe no dia 31 de dezembro de 2009 e propôs recontratá-los a um salário 15% mais baixo. Difícil de recusar, mesmo que Heimir Magnússon saiba agora que ele não salvará sua casa.

A Islândia é um país jovem de mudanças rápidas. A população reage muito a elas. A vida de um habitante, assim como a de Heimir Magnússon, muitas vezes contém três ou quatro delas. O fenômeno é tão frequente que os sociólogos têm muita dificuldade para estabelecer estatísticas. É impossível, por exemplo, definir o perfil dos pescadores, pois raramente os pescadores o são por toda a vida. Geralmente se é pescador e depois outra coisa, ou até pescador e outra coisa.

  • AFP

    Coroa islandesa: um dia depois do Banco Central do país decidir que não desvalorizaria a moeda frente ao euro, a cotação da moeda europeia subiu 23% frente a moeda islandesa

Aos 58 anos, Halldor Arnason, pescador há quarenta anos, procura se diversificar. É fanático pela presença dos pescadores franceses em seu fiorde, o Patreksfjördur, no início do século 20. Ele gostaria de organizar saídas educativas de três ou quatro horas a bordo de seu barco pesqueiro, e já teria começado no verão de 2009 se sua embarcação não tivesse quebrado. Há dois anos ele teria mandado consertá-la na Inglaterra ou na Polônia, mas com a crise é mais barato fazê-lo no local. A Islândia, tanto nesse domínio quanto em outros, relocaliza.

Para Halldor Arnason, a crise só atinge a capital. Ele se prepara para pescar o lumpfish/peixe-lapa, cujas ovas serão salgadas na Islândia e depois enviadas para o exterior para serem tratadas e tingidas. Essa pesca não tem cota pessoal, e cada barco tem direito de pescar durante 52 dias. É uma atividade que se tornou muito rentável, uma vez que a espécie deixou as águas de Terra Nova e o mercado chinês descobriu o sabor desse peixe bem gorduroso que até há pouco tempo era transformado em farinha quando não jogado ao mar, depois de retiradas suas preciosas ovas.

Tudo vai bem em Patreksfjördur. A desvalorização da coroa valoriza o preço do peixe na moeda local, e uma mina de coral submarino (utilizado no tratamento de águas residuais) dá emprego nos fiordes vizinhos. Uma criação de mariscos, ainda experimental, aposta na proibição da pesca na Europa durante o verão. Os muitos poloneses que trabalham com tratamento de peixe se integram à vida local, e as casas vazias encontram compradores; é a vingança das zonas rurais em declínio contra a cidade.

A capital e seus subúrbios se afundam a cada dia em uma morosidade febril. Em um cenário econômico devastado onde somente 11% das empresas podem ficar sem o apoio voluntarista dos bancos nacionalizados, todos se adaptam. Chega-se a ver inversões de situação. Os ricos arruinados ou em vias de sê-lo exibem ar de perdedores, ao passo que os derrotados do grande jogo social, aqueles que haviam perdido tudo antes da crise, se encontram empatados e aparecem alegres nesse período de depressão invernal.

Há aqueles que se preocupam com o desemprego crescente e aqueles que veem ainda mais adiante, quando será preciso pagar bilhões aos ingleses e holandeses pelas dívidas do banco Icesave. O Estado islandês teve o azar de garantir seus depósitos. O governo há havia assinado por duas vezes um acordo sobre esse banco em falência com os países que participavam do socorro financeiro. E por duas vezes o acordo foi criticado, uma vez pelo Parlamento (Althing), e a segunda pelo presidente, Olafur Ragnar Grimsson, que propôs submeter a questão a um referendo que não parece que acontecerá, de tanta confusão que há em Reykjavík. Todos os partidos fingem querê-lo, mas o temem.

Apesar dos meses de discussões parlamentares e da campanha da mídia, segundo uma pesquisa de opinião os islandeses confessam não entender muita coisa a respeito. Somente os nacionalistas e populistas prosperam, encontrando em uma recusa da Europa a ilusão de uma dignidade restituída. Mas acontecendo este referendo ou não, e independentemente da escolha dos eleitores, será preciso pagar essa dívida total ou parcialmente.

Em 2009, a associação InDefence, coordenada por nove homens e uma mulher, reuniu 62 mil assinaturas contra a devolução, ou seja, um quarto dos eleitores. Dois dos coordenadores do grupo, Ragnar Olafsson e Eirikur Svavarson, estudaram na Inglaterra. Eles acreditam que os islandeses nunca poderão honrar tamanha dívida. “Não somos contra pagar uma determinada soma, reconhecemos uma obrigação (skylda) moral, mas não uma dívida (skulda). Nós nos recusamos a deixar um fardo desses para nossos filhos”.

O cantor Hördur Torfason, herói da “revolução dos utensílios de cozinha” (em janeiro de 2009, os manifestantes bateram em panelas diante do Parlamento) foi o coordenador, o catalisador que atiçava a multidão com a ajuda de slogans simples, antes de deixar a praça como um peso pesado. Contra qualquer “recuperação”, ele não fez nada para tirar proveito de sua fama. Poderia-se esperar que ele fizesse um discurso anarquista sobre a Icesave, mas nada disso. “Somos culpados”, ele diz, “de ter jogado com o dinheiro dos outros, e devemos devolvê-lo. Quando é que conseguiremos amadurecer e entender que tudo se paga, que não podemos sempre encontrar desculpas, derrogações, em nome de uma exceção que só existe em nossas cabeças?” E ele tem projetos? “Como você vê, passear na rua Laugavegur!”

Assim que se deixa Reykjavík, a natureza islandesa, que já passou por coisa pior, ignora as desilusões financeiras do país. A caminho do sul, atravessamos campos de lava, cruzamos uma central geotérmica e suas impressionantes colunas de vapor. Somente o preço do combustível que disparou lembra a crise. Na direção de Hveragerdi e depois Selfoss, centenas de 4 x 4 usados não vendidos e invendáveis esperam por um cliente improvável. Aqueles que querem deixar o país de carro por meio de balsa devem ter saldado o crédito de seu veículo. Alguns preferem simplesmente abandoná-lo. O shopping center do centro comercial de Selfoss, com suas lojas fechadas, é uma triste visão, ainda que o supermercado Kronan, última etapa na estrada das casas de férias, pareça ter sido poupado.

Em seguida vem a grande planície do Sul, até o vulcão Hekla. A paisagem mudou em trinta anos. As areias negras regrediram, as árvores avançaram, e o cultivo de cevada reflete o aquecimento do planeta. Stefán Jónsson vive perto de Flúdir. Junto com seu filho ele administra uma plantação de 600 hectares. Além dos 300 carneiros dos quais o filho cuida, agora também há 70 cavalos. Stefán Jónsson tem uma confiança sólida no futuro de seu país. Assim como os pescadores, ele é contra uma entrada na União Europeia que marcaria o fim de um apoio direto à agricultura. Mas ele sabe que é mais favorecido do que os que moram na cidade, em especial aqueles que trabalham na construção civil. O ladrilheiro Johann está desempregado, o pintor Hilmar abandonou sua profissão, e Fridrik, paisagista, não tem mais clientes.

A Islândia espera. Ela espera que Eva Joly, que veio socorrê-la, encontre o dinheiro escondido nos paraísos fiscais. Ela espera por uma melhora, por um cliente para sua energia barata, por um novo empréstimo do FMI, por uma mudança. Ela só tem certeza de uma coisa: os dias vão ficando mais longos.

Tradução: Lana Lim

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