UOL Notícias Internacional
 

13/02/2010

Irã progride no nuclear militar, apesar das dificuldades técnicas

Le Monde
Natalie Nougayrède

Sofrendo a pressão da população, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, exibe as realizações iranianas no plano atômico como um meio de recuperar legitimidade.

Mas o poder iraniano também segue outra estratégia. Ele coloca os ocidentais diante de sucessivos fatos consumados, que aproximam o Irã da capacidade de produzir uma bomba atômica. Enquanto isso, toma cuidado para não ultrapassar o ponto de ruptura total que representaria a passagem aberta para a produção de material físsil ou uma saída retumbante do tratado de não proliferação.

O Irã evita assim adotar a via escolhida em 2003 pela Coreia do Norte e parece proceder por um lento avanço tecnológico, aproveitando a falta de reação radical da comunidade internacional.

  • 18.06.2008 - AFP

    O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad anuncia durante discurso em comemoração aos 31 anos da Revolução Iraniana que o país triplicará a produção de urânio enriquecido

No entanto, a passagem na última quarta-feira (10) a uma produção de urânio enriquecido a 20% no centro iraniano de Natanz representa uma virada sensível, que fornece argumento aos defensores de maiores sanções, na ONU ou em outros lugares.

Mesmo que as quantidades produzidas sejam pequenas, como constataram os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), trata-se da superação de um limite simbólico para um grau de enriquecimento de caráter militar (90%). O novo diretor da AIEA, o japonês Yukiya Amano, exprimiu sua "preocupação".

Os trabalhos iranianos se concentraram desde 2003 no acúmulo de urânio enriquecido a 4,5%, embora o país não possua qualquer central nuclear que pudesse usar esse combustível para a produção de eletricidade (o argumento oficial invocado). Para justificar agora a passagem para os 20%, o Irã argumenta com a falta de acordo com as grandes potências sobre um projeto de "circuito" de urânio proposto em outubro de 2009 pela AIEA depois de ter sido concebido pela administração Obama.

O Irã diz que quer utilizar esse urânio 20% em um reator de pesquisa em Teerã, que produz isótopos médicos para o tratamento de câncer. Mas ele não domina a tecnologia para alimentar esse reator, que foi entregue nos anos 1960 pelos EUA e abastecido de combustível até 1993 pela Argentina.

O verdadeiro objetivo seria outro, portanto. Segundo o especialista americano David Albright, do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, uma vez atingidos os 20%, a passagem para as etapas seguintes, 60% e depois 90% (grau para o material físsil), pode ocorrer sem grande dificuldade. Bastaria para tanto "superenriquecer" o urânio em uma pequena instalação que comporta "entre 500 e mil centrífugas", durante um período de cerca de seis meses. Essa instalação seria "dificilmente detectável pela AIEA ou por serviços de informações", estima Albright.

O que remete a uma pergunta lancinante: existem no Irã outros sítios nucleares clandestinos, ou esses trabalhos poderiam ser realizados em segredo? A revelação em setembro de 2009 do sítio de Qom, que passou anos escondido pelo Irã, despertou suspeitas de que haja outros. Ainda mais que o país anunciou, nesse ínterim, sua intenção de iniciar obras de "dez novos sítios de enriquecimento", sem precisar onde nem quando.

Se o Irã possui outros locais de enriquecimento secretos - substituindo o de Qom, já divulgado -, as atividades que se desenrolam em Natanz, sob o olhar dos instrutores internacionais, poderiam servir antes de tudo para atrair a atenção dos ocidentais enquanto eles aperfeiçoam aos poucos o domínio tecnológico.

Pois este seria na realidade muito relativo. "Não acreditamos que eles tenham atingido a capacidade de enriquecer no nível desejado", comentou na quinta-feira o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. As declarações de Ahmadinejad sobre a chegada de uma "potência nuclear" iraniana depois da passagem aos 20% se "baseiam na política e não na física", acrescentou Gibbs. "O programa nuclear iraniano encontrou uma série de problemas durante todo o ano de 2009."

A AIEA de fato constatou em novembro de 2009 que somente a metade das cerca de 8 mil centrífugas de Natanz estavam produzindo. O motivo? Em um estudo minucioso do programa iraniano publicado na quinta-feira, David Albright propõe explicações. Os iranianos encontraram problemas ligados à instalação com rapidez excessiva de um grande número de centrífugas. O urânio que eles utilizam conteria impurezas. E um trabalho de sabotagem conduzido pelos serviços secretos ocidentais, notadamente no nível dos circuitos de fornecimento de equipamentos, não seria estranho a essas inconveniências. É o motivo pelo qual Barack Obama, que hoje fala abertamente na "militarização" do programa iraniano, parece confiante em que ainda há tempo para a diplomacia e as sanções.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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