UOL Notícias Internacional
 

17/02/2010

Pequena cidade japonesa pode impedir construção de nova base militar americana

Le Monde

É possível um pequeno município japonês de 40 mil habitantes derrotar Washington, impedindo a construção de uma nova base militar americana em Okinawa, arquipélago subtropical no sul do Japão? A recente eleição de um prefeito contrário ao projeto de deslocamento da base aérea de Futenma para Henoko, povoado de sua localidade, que levaria a sérios estragos ecológicos em uma baía rica em coral azul, reduziu a margem de manobra do governo Hatoyama.

De centro-esquerda, este se comprometeu a reequilibrar a aliança com os Estados Unidos – pedra angular da defesa do Japão, mas colocando o arquipélago em uma posição subalterna – e a renegociar o acordo de 2006 sobre a transferência da base de Futenma, objeto de uma queda-de-braço entre Tóquio e Washington. Luta de Davi contra Goliás, “egoísmo local”, ignorando os “interesses superiores da nação”, vontade popular democraticamente manifestada contra as exigências de um aliado hegemônico...

O primeiro-ministro, Yukio Hatoyama, deverá decidir o debate, no fim de maio, ao propor um outro local, sem excluir Henoko por enquanto. Ainda que o novo prefeito de Nago, Susumu Inamine, tenha sido eleito com uma estreita maioria, a mensagem dos eleitores é clara, como aconteceu em um referendo local de 1997 que não tinha valor impositivo para as autoridades centrais.

  • Abedin Taherkenareh/EFE

    Barack Obama ao lado do primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama durante a entrevista coletiva em Tóquio, quando anunciou que estebaleceria um grupo de trabalho de alto nível para tratar da continuação da presença de fuzileiros navais americanos na base de Okinawa

O impasse atual, dramatizado pelos pró-americanos em Tóquio e pelos neoconservadores em Washington, não questiona a aliança entre americanos e japoneses, cujo cinquentenário é celebrado este ano. Mas é mais do que um simples acidente de percurso. A questão do deslocamento da base de Futenma revela o desequilíbrio da aliança em detrimento do Japão e do fardo imposto aos habitantes de Okinawa, onde estão três quartos dos 47 mil soldados americanos mobilizados no Japão.

Durante décadas, Tóquio e Washington consideraram a questão das bases americanas em Okinawa sob um ponto de vista estratégico, ignorando os pedidos dos habitantes, oprimidos por subvenções destinadas a “comprar” sua cooperação. Independentemente dos méritos estratégicos das bases, a questão não se dá unicamente nesses termos para os habitantes que pagaram caro pela guerra e depois pela estabilidade regional.

Na primavera de 1945, a batalha de Okinawa esteve entre as mais mortíferas da guerra do Pacífico – 200 mil mortos japoneses, em sua maioria civis, e 12 mil americanos. Na sequência do Tratado de São Francisco (1952), pelo qual o Japão recuperou sua soberania, Okinawa permaneceu sob ocupação americana. Após sua restituição em 1972, os Estados Unidos concentraram mais bases ali. “Chave do Pacífico” durante a Guerra do Vietnã, Okinawa continuou sendo, com cerca de trinta bases, um “porta-aviões” dos Estados Unidos, a partir do qual eles projetam suas forças ao exterior: no Iraque e no Afeganistão.

Segundo pesquisas, a maioria (75%) da população é contra a presença das bases militares. Uma minoria se beneficia com elas. Mas, apesar dos subsídios do Estado, drenados por um lobby de empresas locais, o departamento de Okinawa é um dos mais pobres do Japão. Ainda que os habitantes não tenham tido o mesmo destino dos da ilha de Diego Garcia, no sul das Maldivas, expulsos entre 1968 e 1973 para que uma base fosse construída ali, centro nevrálgico da estratégia americana no Oceano Índico, 250 mil moradores de Okinawa foram deslocados de lá.

Durante os 64 anos de presença militar americana em seu arquipélago, os opositores conduziram uma “segunda batalha de Okinawa”: revoltas com a confiscação de suas terras, manifestações contra a Guerra do Vietnã, tumultos em 1970 em Koza, provocados por uma onda de criminalidade dos soldados da base de Kadena. Todas as lutas eram orquestradas pelas organizações pacifistas de esquerda e a questão de Okinawa era vista no resto do Japão como um problema local. Com o estupro de uma menina de 12 anos por três soldados americanos em 1995, a oposição às bases mobilizou movimentos de cidadãos. Em 1972, mais de uma centena de estupros foram cometidos por soldados, que foram beneficiados por um estatuto que os protegia da justiça japonesa.

Em 1996, Tóquio e Washington decidiram pela transferência da base de Futenma, “a mais perigosa do mundo”, por ela estar situada em pleno coração da cidade de Ginowan. Quatorze anos se passaram e, apesar de suas generosidades, Tóquio não conseguiu com que a população de Nago aceitasse essa transferência. Hoje, o governo Hatoyama deve enfrentar uma situação complexa: de um lado, uma oposição que se manifesta democraticamente contra a construção de uma nova base em Henoko; de outro, um acordo com as devidas formalidades sobre o deslocamento da base de Futenma. Segundo o escritor local, Shun Madoruma, os habitantes de Okinawa devem superar sua resignação em serem ignorados por Tóquio. Talvez seja isso que esteja acontecendo.
 

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h59

    -0,82
    3,256
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h08

    1,17
    63.968,90
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host