UOL Notícias Internacional
 

18/02/2010

Europa é vítima colateral de guerrilha diplomática entre Suíça e Líbia

Le Monde
Agathe Duparc

Acreditávamos que o "caso Hannibal" estivesse circunscrito somente à crise suíço-líbia, nascida em julho de 2008 depois da breve detenção do filho do coronel Muammar Khadafi, por ter molestado suas empregadas. Mas essa disputa, que explica que dois homens de negócios suíços estejam retidos em Trípoli há um ano e meio, assume uma evolução europeia, altamente política.

Em 14 de fevereiro, as autoridades líbias decidiram, sem aviso prévio, suspender a concessão de vistos aos cidadãos dos 25 países do espaço Schengen e de impedir o acesso a seu território dos detentores de vistos válidos. Foi uma reação à política de restrição de vistos Schengen adotada pela Suíça contra o clã Khadafi.

  • Zohra Bensemra/Reuters

    O ditador líbio Muammar Gaddafi, que em setembro de 2009 comemorou 40 anos no poder

Na terça-feira (16) um porta-voz da Comissão Europeia informou que a UE desejava resolver a disputa o mais rapidamente possível e havia "feito contato com as autoridades suíças e líbias". Na véspera, a comissão havia comentado uma decisão "unilateral e desproporcional" por parte dos líbios. Representantes do espaço Schengen, ao qual a Suíça pertence desde 2008, deveriam se encontrar nesta quinta-feira para avaliar a situação.

À missão econômica francesa de Trípoli, um interlocutor confirma ao telefone que a decisão líbia já produziu efeitos. Portugueses convidados para a primeira edição do salão Líbio-Português, mas também italianos e franceses, foram recusados na segunda-feira (15) no aeroporto de Trípoli. "Isso não facilita as relações comerciais", acrescenta esse interlocutor, que se recusa a exprimir-se sobre o fundo da questão. O ministério das Relações Exteriores francês desaconselhou fortemente todos os franceses de visitar a Líbia.

A Itália, que mantém excelentes relações com o coronel Khadafi, acusou a Suíça, através de seu ministro das Relações Exteriores, Franco Frattini, de ter "feito reféns os outros países do espaço Schengen" para resolver "um problema bilateral".

Berna possui um direito de consulta que lhe permite recusar um visto Schengen (válido em 25 países) para os indivíduos que considerar indesejáveis em seu território por motivos de "ordem pública". Estes últimos devem então obter um visto para cada país da zona, o que complica os deslocamentos.

No domingo, o jornal líbio "Oea" revelou que 188 líbios eram visados: o coronel Khadafi e seus próximos, responsáveis parlamentares e governamentais, dirigentes militares e dos serviços de segurança. Mas uma fonte próxima do caso afirma que "esse número é falso", desmentindo também o fato de que Saif Al-Islam - o filho de Khadafi mais propenso a uma solução da crise - tenha sido impedido de ir ao Fórum de Davos e ao Festival de Cinema de Berlim, como relataram algumas mídias. "Ele não havia feito o pedido", ela explica.

Em Berna, o departamento federal de relações exteriores se recusa a fazer comentários. O porta-voz Lars Knuchel lembra que a política de restrição de vistos Schengen, "ainda em vigor", foi adotada "depois do sequestro em 18 de setembro de 2009 de dois suíços detidos durante 52 dias em local secreto pelos líbios", enquanto Berna havia apresentado suas desculpas aos Khadafi e aceitado a ideia de um tribunal arbitral internacional.

Desde então, os reféns, Rachid Hamdani, 69, e Max Göldi, 54, estão refugiados em sua embaixada em Trípoli. No início de fevereiro Hamdani foi inocentado pela justiça líbia das acusações de permanência e atividades econômicas ilegais. Como soube o "Le Monde", ele recuperou seu passaporte, mas sem o indispensável visto de saída.

Göldi foi condenado a quatro meses de prisão fechada e a uma multa de US$ 800. Agora é seu advogado líbio, Salah Zahaf, citado pela Agência France Presse, quem conduz o leilão, pedindo que o governo suíço julgue os "responsáveis pelos procedimentos ilegais" adotados pela polícia de Genebra ao prender Hannibal Khadafi, "para pôr fim ao sofrimento de seus dois cidadãos". Uma exigência considerada surrealista em Berna.

 

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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