UOL Notícias Internacional
 

19/02/2010

Em Argel, os comerciantes correm para a "Chinatown"

Le Monde
Jean-Pierre Tuquoi
Enviado especial a Argel (Argélia)

É o que se chama de “um bairro novo”: prédios de tijolo habitados antes de terminados; ruas que esqueceram de asfaltar. Bem-vindo a Boussareh 1, a “Chinatown” de Argel.

É uma denominação um pouco usurpada. Aqui, a cerca de meia hora do centro da capital, não há calhas de madeira coloridas, comida chinesa no cardápio dos botecos, ou lanternas. Somente alguns ideogramas pendurados nos postes lembram uma presença chinesa. Entretanto, ela é bem real. Há cinco anos que as dezenas de lojinhas do bairro estão quase todas nas mãos de comerciantes vindos do sul da China. A maioria delas abertas para a rua, elas não tem nada de suntuoso, e as lojas, todas idênticas, parecem mais com um depósito do que com butiques de luxo. Há camisas, calças e bolsas “made in China” penduradas nas paredes, e pilhas de calçados e cobertores dos lados.

  • Handout/Reuters

    Imagem do centro de “Chinatown”, paraíso das comprar para os chineses e turistas

No fundo, amontoam-se pacotes de tecidos. Tudo está à venda, a atacado ou a varejo. Os preços não são expostos, mas são baixos. “Viemos de longe, de Oran, de Constantine, de Ghardaia (cidade do sul)”, garante Djamel, um jovem que de vez em quando dá uma ajuda aos chineses. Os comerciantes, homens ou mulheres, muitas vezes jovens, não falam nem o francês nem o árabe dialetal. Quando um cliente entra na loja, a conversa se resume a pouco. Um indica o produto que lhe interessa; o outro diz o preço. O diálogo prossegue por meio de uma calculadora. O pagamento se faz em dinheiro. Sem nota.

”Francês quebrado”

Quando se trata de compra no atacado, intervém um intérprete que sabe o “francês quebrado”, falado somente em Boussareh 1. É uma língua aproximativa e maleável. Bastam alguns minutos para dominá-la. Seu vocabulário se limita a um punhado de palavras, e ignora a gramática. Em francês quebrado, “Où habites-tu?” [onde você mora?] se diria “Toi la Maison ou?” [você sua casa onde?]; não se diz “Eu não conheço”, e sim “Conheço não”...

A pobreza desse esperanto falado por alguns chineses e argelinos não facilita o comércio. As duas comunidades se ignoram, ainda que aconteçam casos de amor ocasionalmente em Boussareh 1.

Quando falam dos argelinos, os chineses mencionam sua lentidão. “Eles fazem tudo muito devagar”, diz a sra. Liu, de cinquenta e poucos anos, que mora em Argel há quatro para acompanhar seu filho, estudante de francês na universidade. “Não entendo por que mulheres como eu não podem entrar nas mesquitas”, diz.

Os argelinos são ainda mais severos. Os chineses? “Eles comem cachorro. Ficam o dia inteiro na internet, assistindo à televisão de seu país, ou jogando. Eles passam a semana inteira na loja, mas quando um fiscal aparece no bairro, eles baixam as cortinas para não pagar impostos”, resume Frial, uma jovem argelina, mestre em francês quebrado e ajudante de um comerciante.

Segundo ela, os chineses são cada vez mais numerosos no bairro. “Quando eles voltam de férias, é com tios, tias, primos”, afirma.

As estatísticas não dizem se a comunidade chinesa de Boussareh 1 está aumentando. Mais de 300 mil chineses moram na Argélia, contra menos de mil, dez anos atrás. Eles formam mais da metade da comunidade estrangeira da antiga colônia francesa.

“Isso antes do resultado da implantação de nossos empreendimentos”, ressalta o embaixador da China na Argélia, Yuhe Liu. “Atualmente, 10 mil de meus compatriotas trabalham na construção de uma estrada. Quando a obra terminar, eles voltarão para seu país”.

Nem todos, provavelmente. Alguns ficarão na Argélia. E, dentre eles, alguns virão morar em Boussareh 1.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h29

    -0,67
    3,152
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h31

    0,52
    68.711,87
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host