UOL Notícias Internacional
 

19/02/2010

"Tolerância zero" nas praias do Rio

Le Monde
Jean-Pierre Langellier

No Rio de Janeiro, agora a ordem reina nas praias. Para a aparente satisfação do milhão de banhistas que as invadem nesses tórridos fins de semana de verão austral. E também para o descontentamento dos milhares de cariocas que trabalham duro para ganhar a vida na areia branca, alugando cadeiras e guarda-sóis ou como vendedores ambulantes de todo tipo.

A operação “Choque de Ordem”, lançada em todo o Rio pelo prefeito Eduardo Paes, atingiu no início de dezembro, início de alta temporada, as duas praias mais chiques e mais cheias, Ipanema e Leblon. Antes de chegar a Copacabana e, no ano que vem, aos cerca de 50 quilômetros de costa marítima do Rio.

  • 06.02.2010 -Luiz Morier/Agência O Globo

    Cariocas lotam as praias na zona sul do Rio de Janeiro; operação "Choque de Ordem" limita a prática de esportes na praia e proíbe a venda de comida que não seja industrializada

A alegre desordem da praia onde outrora rebolava a lendária “Garota de Ipanema”, cantada por João e Astrud Gilberto, há alguns anos se tornou, sob pressão da multidão, uma adorável bagunça.

Para chegar ao mar, abria-se caminho com dificuldade entre as cadeiras e os corpos. Pequenos comerciantes, em número cada vez maior, munidos de seus braseiros, preparavam junto de seus clientes camarões grelhados e espetinhos de queijo quente que há várias gerações enchem os estômagos dos cariocas estendidos ao Sol.

Adeus camarões, adeus queijo: o decreto que os proíbe é formal. Está fora de cogitação cozinhar, grelhar ou assar qualquer tipo de comida na praia. Somente os alimentos de fabricação industrial, por causa da higiene, continuam autorizados para venda. Quanto às bebidas, o decreto municipal quase fez uma ilustre vítima, o coco verde cortado pelo vendedor com um facão e cuja água fresca mata a sede dos frequentadores por meio de um canudinho.

Depois de ter anunciado sua proibição, o prefeito voltou atrás. Teria sido um atentado excessivo aos prazeres da praia. Entretanto, pode-se dizer que ele tem argumentos de peso: as montanhas de resíduos de cocos representam metade das 10 a 30 toneladas de lixo recolhido todos os dias em Ipanema. Por fim ele decidiu aumentar o número de lixeiras na cidade, dando um voto de confiança à autodisciplina de seus cidadãos.

Operação de ordem em praias é mal recebida no RJ

Outros alvos da autoridade municipal, os jogos de bola e de raquete são proibidos à beira do mar entre 8h00 e 17h00 e limitados ao fundo da praia, perto do asfalto. E Deus sabe como são numerosos esses esportes tipicamente brasileiros, onde a juventude carioca exibe seus músculos: o “altinho”, onde a bola não pode cair no chão, o “frescobol”, um ping-pong de praia, o “futvôlei” – como seu nome indica – ou o mais recente, o “beach tennis” .

Os grandes perdedores da operação são os 200 proprietários das “barracas” de Ipanema – os estandes de locação de mobiliário de praia – e seus muitos empregados. Seu comércio é estritamente limitado: 80 cadeiras e 40 guarda-sóis para cada barraca. “Antes, eu alugava o dobro durante o fim de semana”, reclama Julio. Nildo reforça: “Nos bons dias, não tenho mais nada para alugar já às 10 da manhã. Estou perdendo clientes. E não posso mais vender nem sanduíches, nem salada de fruta”.

Os vendedores sofrem outras proibições. Eles não podem mais estacionar na rua os carrinhos de onde descarregavam seu material, atrapalhando a circulação. Seus estandes devem ter um espaço de 20 metros entre eles e ficar alinhados. Os empregados devem usar uma camiseta como uniforme. Os guarda-sóis são vermelhos ou amarelos, e não podem mais ostentar publicidade. A praia parece uma grande colcha de retalhos bicolor.

O pior é ter de montar e desmontar todos os dias sua nova barraca, um modelo imposto pela prefeitura. “É um quebra-cabeça”, resmunga Alexandre. “Leva uma hora e meia para instalar. E não dá para fazer sozinho. Perdemos porcas e parafusos na areia. Além disso, o material não é muito sólido”. Maria sente falta de sua antiga barraca, que ela montava “em cinco minutos”. Marcio convida o prefeito “a vir nos ajudar uma manhã, para ver”.

Cuidado, malandros! Os guardas municipais não estão longe, tendo por palavra de ordem: “Tolerância zero”. Eles armaram suas grandes tendas no centro da praia e fazem rondas frequentes, a partir das 6 da manhã. Confiscam o material dos esportistas desobedientes, multam os vendedores teimosos e ameaçam suspender a licença dos reincidentes.

Os vendedores se consolam um pouco, descobrindo todas as manhãs um céu obstinadamente azul, pois a chuva continua sendo seu pior inimigo. Fenômeno raríssimo no verão tropical úmido do Rio, o Sol brilha sem parar há quase um mês. O carioca nunca vira o termômetro flertar por tanto tempo com 40 graus à sombra.

Ao impedir as nuvens de chegarem até aqui, o El Niño deixa as pessoas felizes. Os cariocas, que voltaram de férias, depois do trabalho se dedicam a uma nova moda: mergulhar na água do mar em banho-maria e se bronzear na areia, à luz dos potentes projetores que balizam a orla urbana.

Nessa semana de Carnaval, quando se canta e dança noite afora, antes de dormir durante o dia à sombra ardente dos guarda-sóis, o luar sobre a praia também está mais quente do que nunca.

Tradução: Lana Lim

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