UOL Notícias Internacional
 

23/02/2010

Governo sudanês reabre negociações com o principal movimento rebelde de Darfur

Le Monde
Jean-Philippe Rémy
Em Johannesburgo (África do Sul)
  • Philip Dhilo/EFE

    Soldados do governo do Sudão se reúnem nas ruas do país para saudar o presidente sudanês, Omar Hassan al-Bashir, que é um dos mais bárbaros ditadores do mundo. Ele tem, inclusive, um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Internacional de Haia, que o acusa de sérias violações dos direitos humanos durante a guerra em Darfur, região de vários conflitos no país

Até que ponto o principal movimento armado de Darfur, o Movimento para a Justiça e Igualdade (JEM), está disposto a fazer as pazes com o governo sudanês, com o qual abriu negociações diretas, na segunda-feira (22), no Qatar, depois de ter assinado um cessar-fogo, no sábado, no Chade?

O texto assinado em N’Djamena ainda não passa de um esboço de paz, prevendo um cessar-fogo e um quadro de negociações entre o Sudão e o JEM. Mas o movimento, cujos líderes passaram pelo mesmo molde ideológico que os membros do governo sudanês (o das células islâmicas que chegaram ao poder em 1989), poderia se envolver ainda mais com as autoridades de Cartum.

Num futuro próximo, a assinatura do texto por Khalil Ibrahim, líder do JEM, após discretas negociações com Ghazi Salahuddin Atabani, o enviado para Darfur do presidente sudanês, abre a participação do JEM nas conversas entre o governo sudanês e outras facções de Darfur. Ele representa um “passo significativo para a paz em Darfur”, afirmou Ahmed Hussein Adam, porta-voz do JEM.

O movimento de Darfur, de longe o mais ameaçador para o Sudão, conseguiu atingir Omdourman, a cidade-gêmea de Cartum, a capital, em 2008. Para chegar lá, foi preciso que as colunas dos rebeldes do JEM partissem de suas bases disseminadas na fronteira entre o Chade e o Sudão com o apoio de militares chadianos, e que tivessem outras colaborações do exército sudanês antes de chegar às pontes sobre o Nilo, na entrada de Cartum.

  • Antony Njuguna/Reuters

    Refugiados sudaneses em Uganda esperam por repatriados. O Sudão registra desde 2003 um conflito armado entre rebeldes e milícias apoiadas pelo governo sudanês responsável pela morte de mais de 200 mil pessoas na região de Darfur, região mais castigada pelos conflitos

A operação havia fracassado, mas demonstrou o perigo que a capital corria.

Paralelamente, o JEM havia garantido a defesa de N’Djamena, a capital chadiana, e depois a do leste do Chade, diante dos ataques dos rebeldes chadianos equipados e financiados pelo Sudão. Portanto o movimento de Khalil Ibrahim foi pivô por procuração das ações militares no conflito que o Chade e o Sudão conduzem desde 2003.

Os dois países chegaram à conclusão de que era do interesse de ambos que esse conflito tivesse um fim, pelo menos por um tempo, para dar início a processos eleitorais que restaurariam sua legitimidade que estava muito desgastada. Eleições gerais estão previstas para acontecer no Sudão em 11 de abril.

Sob o sol do Sudão

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O presidente do Chade, Idriss Déby, foi até Cartum em 8 de fevereiro para manifestar suas intenções de pacificação. Ele também havia pressionado o JEM a se manter discreto no Chade, ou até a levar parte de suas tropas para o outro lado da fronteira, e a negociar com Ghazi Salahuddin Atabani.

Mas durante o fim de semana, membros do JEM que ficam no lado do Sudão entraram em combate com o exército sudanês. Nada que ameace, nesse estágio, o processo entre o JEM e o governo sudanês. Isso não significa, entretanto, que a paz está garantida em Darfur.

Faz cerca de dez dias que o exército sudanês conduz, na região de Djebel Mara, uma ofensiva contra os comandantes fiéis a um outro grande líder rebelde de Darfur, Abdel Wahid al-Nour, ex-presidente do Exército de Libertação do Sudão (SLA), agora à frente de uma das facções do movimento.

Abdel Wahid al-Nour vive exilado na França, e ele se recusa a participar das negociações antes que seja atendido um certo número de condições em Darfur.

Mais de 2 milhões de deslocados, cujos vilarejos foram atacados ou completamente destruídos, continuam vivendo em acampamentos. É pouco provável que esses deslocados consigam recuperar suas terras, e menos ainda que participem das eleições de 11 de abril.

Tradução: Lana Lim

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