UOL Notícias Internacional
 

24/02/2010

Países europeus disputam o controle da diplomacia da UE com executivos do bloco

Le Monde
Philippe Ricard e Jean-Pierre Stroobants
Em Bruxelas (Bélgica)

Catherine Ashton, a alta representante para os assuntos externos da União Europeia, terá de arbitrar: as capitais europeias e a Comissão iniciaram uma discreta queda-de-braço para colocar seus representantes nos postos-chave da diplomacia da União Europeia.

Esse conflito é evidente desde que José Manuel Barroso, presidente do Executivo, decidiu enviar um de seus protegidos para a liderança da delegação europeia em Washington. Até o próximo verão, João Vale de Almeida deve substituir o ex-premiê irlandês John Bruton nesse cargo estratégico. Vale de Almeida foi chefe de gabinete e conselheiro diplomático de Barroso, antes de assumir a direção geral de “relações exteriores” da Comissão no outono de 2009.

  • Virginia Mayo/AP

    O presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, em entrevista coletiva no final da cúpula da União Européia (UE), em Bruxelas (Bélgica)

A decisão tomada há uma semana por Barroso causou controvérsia na segunda-feira (22), durante uma reunião dos ministros das relações exteriores dos 27 países-membros, em Bruxelas. “Não é a pessoa que está em questão, mas sim o procedimento”, indicou Pierre Lellouche, secretário de Estado francês para Assuntos Europeus: “Nós queremos a aplicação do tratado, só isso: a alta representante deve nomear os chefes de delegação, e os Estados devem ser consultados”, insistiu.

Carl Bildt, ministro sueco dos Assuntos Externos, se valeu de uma carta a Ashton para contestar as circunstâncias da escolha de Vale de Almeida. “Não houve nenhuma consulta”, explicou na segunda-feira. “Em 2004, havíamos concordado que esse cargo seria atribuído a um político, e hoje um alto funcionário foi nomeado sem que ninguém pudesse discutir a respeito”, lamentou o chefe da diplomacia sueca. Juridicamente, o presidente da Comissão e a alta representante tinham o direito de decidir sozinhos, enquanto aguardam pela implantação do Serviço de Ação Externa (o futuro serviço diplomático comum aos vinte e sete países-membros), uma das principais inovações do Tratado de Lisboa. “Trata-se de uma mudança que deveria ter sido decidida em 2009”, se defendeu Ashton, vice-presidente da Comissão. Mas ela ressaltou que nenhuma decisão pôde ser tomada mais em razão do longo período de vacância ligado à nomeação da nova Comissão. Alguns Estados-membros suspeitam que Barroso quis colocar seus protegidos em cargos visíveis antes de perder o poder sobre as nomeações. “É um mau sinal se a Comissão começa a se apropriar dos cargos sem esperar pela criação do serviço diplomático externo”, se preocupa um diplomata belga. Os Estados-membros exigem entrar o mais rápido possível em um comitê de seleção dos candidatos.

O caso é ainda mais delicado pelo fato de estar atrasada a criação do serviço diplomático comum. Os Estados querem fornecer um terço da equipe da nova entidade, a maior parte deles vinda da Comissão e do Secretariado do Conselho. As capitais, com Paris à frente, querem colocar seus representantes na alta hierarquia do serviço. Elas também exigem ser associadas às nomeações diplomáticas, sendo que cerca de trinta chefes de delegações devem ser renovados a partir deste ano: na China, no Japão, na África do Sul, na Argentina, etc.

Depois que o Tratado de Lisboa entrou em vigor, as delegações da União Europeia (UE) viram suas prerrogativas reforçadas. Uma de suas missões seria coordenar as posições das embaixadas nacionais sobre todos os assuntos que envolvam a União.

Os Estados da Europa Central estão particularmente atentos. Para eles, a criação do serviço deve ser a ocasião de reforçar sua presença nas instituições. Cinco anos após a ampliação, os antigos Estados membros continuam pegando para si a parte do leão. “Não é normal que os novos membros não ocupem nenhum posto de envergadura”, comenta um alto responsável polonês. Mas Ashton pode ter outras preocupações, uma vez que acaba de nomear um ex-ministro lituano das relações exteriores para o importante posto de representante da UE no Afeganistão. Vygaudas Usackas foi preferido a dois outros candidatos, sendo que deputados europeus questionaram sua capacidade de assumir essa função. Pino Arlacchi, eurodeputado liberal italiano, levantou questões sobre seu conhecimento do problema afegão, e observou que Usackas havia sido alvo de duras críticas em seu país por aparentemente ter dissimulado parte da verdade a respeito de operações antiterroristas secretas da CIA na Lituânia.

O peso dos antigos Estados-membros em Bruxelas

A origem dos membros de gabinete da nova Comissão Europeia confirma o peso dos antigos Estados-membros nas instituições europeias. A França chega na liderança, com 23 representantes, entre os quais dois chefes de gabinete, à frente dos alemães (22, sendo 4 chefes) e dos britânicos (18 membros, sendo 5 chefes). Os franceses devem, entretanto, se contentar com dois porta-vozes entre vinte e sete. Segundo um estudo recente da Fundação Schuman, são os belgas que fornecem o maior contingente de funcionários europeus de todas as instituições (16,3%), à frente dos franceses (10,8%), dos italianos (9,8%) e dos britânicos (5,1%).

 

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h40

    0,05
    3,268
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h48

    0,74
    63.128,50
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host