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25/02/2010

Diminuição dos salários, cortes orçamentários: os irlandeses se dizem "adaptáveis"

Le Monde
Marie-Pierre Subtil
Enviada especial a Dublin (Irlanda)

Para os sindicalistas irlandeses, os tempos estão difíceis. O mais desagradável aconteceu no início de fevereiro. Em Atenas, manifestantes gritavam: “Não somos irlandeses, nós resistiremos!”, querendo dizer que os assalariados da ilha aceitavam bem facilmente seu destino.

O ministro das Finanças, Brian Lenihan, já em 2009 havia dito esta frase, sobre os cortes orçamentários que começara a impor: “Se isso tivesse acontecido na França, as pessoas teriam saído às ruas”.

Os funcionários públicos irlandeses estão de ressaca. Durante uma década eufórica, seus salários dispararam, até ultrapassar de longe os do setor privado. Mas o Tigre celta caiu tão rapidamente quanto subiu, e chegou a hora de prestar contas. E com o anúncio do orçamento de 2010, em dezembro, a austeridade: diminuição dos salários dos funcionários públicos – 5% para os cargos mais baixos, e 15% para os altos – redução de 4,1% dos auxílios sociais e do seguro-desemprego, imposto sobre combustíveis, baixa das bolsas... somente os aposentados não foram afetados.

Liz, funcionária do ministério da Saúde, viu seu salário diminuir 2% em janeiro de 2009, e depois 6% em março, e outros 6% em janeiro de 2010. Ela ganhava 2.600 euros por mês (cerca de R$ 6.400), e agora só recebe 2.100 (cerca de R$ 5.100). Às vezes, a pedido dos sindicatos, seus colegas não atendem ao telefone. Essa operação-padrão, “para nós, é a forma mais extrema de protesto”, diz. Em dezembro, ela atendeu ao chamado de uma greve de um dia, mas sem sair às ruas. “Nós somos adaptáveis, quando essa política de austeridade chegou, as pessoas não se surpreenderam, elas já esperavam por isso”, explica.

Muito grande, muito rápido
A Irlanda, com seus 4,5 milhões de habitantes, cresceu rápido demais, de maneira incontrolável. A bolha, inicialmente imobiliária, estourou em 2008: os bancos haviam feito empréstimos de maneira inconsequente a consumidores que sonhavam em se tornar proprietários. O Estado teve de salvar os bancos, e o país foi corroído por “loteamentos fantasmas”- estima-se que o número de casas vazias chega a 300 mil.

Simultaneamente, multinacionais como a Dell deixaram o país, em busca de uma mão-de-obra mais barata. O índice de desemprego chegou a 12,7% no fim de janeiro. Desde o início da crise, prevalece a ideia de que “sem o euro, seria a Islândia, não a Irlanda”.

Nas estradas é raro ver outros veículos além de carros alemães e 4 x 4. Mas as placas denunciam: os dois primeiros números são “05”? O carro foi comprado em 2005. “10”? Praticamente não se veem veículos adquiridos nesse ano.

A Irlanda não produz carros, mas o governo introduziu um incentivo para a compra de veículos para salvar a rede de concessionárias. O país vive sobre suas ruínas e aprende a consumir de outra forma, não tem mais vergonha de fazer suas compras nas redes alemãs de supermercados Adli e Lidl.

É porque os salários foram reduzidos não somente no setor público, mas também no privado. “Em fevereiro de 2009, todos os salários da empresa diminuíram em 10%”, explica Sharon, uma contadora de 29 anos. “Disseram que era isso ou a demissão”.

Os preços também estão caindo regularmente. Até 2008, o custo de vida em Dublin era um terço mais elevado do que em Paris. Hoje, seria idêntico. “O governo conduz deliberadamente uma política de deflação, é um erro”, acredita o secretário-geral da União dos Sindicatos, David Begg.

“Antes tarde do que nunca, mas eu teria começado mais cedo”, diz por sua vez o ex-ministro das Finanças, Alan Dukes, a respeito do plano de austeridade. “Se fazemos isso logo, é drástico no começo, mas os efeitos são mais rápidos”.

A “cura”, no caso, promete ser demorada: os cortes orçamentários, de 4 bilhões de euros (cerca de R$ 9,8 bilhões) em 2010, devem ser prorrogados durante três anos, no montante de 3 bilhões de euros por ano. O objetivo do governo é levar o déficit orçamentário (11,7% do PIB em 2009) para 3% do PIB em 2014.

Até o primeiro-ministro teve de fazer um esforço. Seu salário, que era de 285 mil euros anuais (cerca de R$ 700 mil) -mais do que o de Gordon Brown ou o de Nicolas Sarkozy- foi reduzido para 228 mil euros anuais (cerca de R$ 560 mil). Mas Brian Cowen continua sendo impopular, sobretudo porque um outro se revelou o homem forte do governo durante a crise: o ministro das Finanças. No início de janeiro, Brian Lehinan confirmou um rumor: sim, ele está com câncer de pâncreas. O que não o impede de permanecer em seu cargo.

Tradução: Lana Lim

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