UOL Notícias Internacional
 

25/02/2010

Incertezas na reconstrução da cidade de Kashgar causa insatisfação de chineses muçulmanos

Le Monde
Bruno Philip
Enviado especial a Kashgar (China)

Ele avança tão rápido na noite fria que sua silhueta e seu gorro às vezes desaparecem nas curvas das ruelas mal iluminadas da cidade antiga. Abdullah (todos os nomes foram mudados) está com pressa: ele não quer ser visto levando estranhos para sua casa, que talvez a polícia já tenha identificado como jornalistas. Na condição de uigur, ele compartilha dos dois sentimentos predominantes em Xingjiang, província de maioria muçulmana na periferia ocidental da China: o medo e a desconfiança.

  • Elizabeth Dalziel/AP

    Muçulmanos rezam em frente a mesquita, em Kashgar, na China. A foto foi tirada antes da proposta de reconstrução da cidade, que causou reclamações por parte da comunidade islâmica

Essa caminhada forçada pela noite de Kashgar revela as feridas recém-infligidas a essa antiga cidade da Rota da Seda, que se não foi prometida à destruição pelo governo chinês, o foi pelo menos a uma “renovação” que poderá enfraquecer a alma da cidade. Aqui surge a sombra imóvel de uma grua que durante o dia executa seu trabalho de demolição. Ali, no lugar de um conjunto de casas do bairro antigo, esse enorme buraco se tornará uma grande rua arrancada a fórceps pelos parteiros da futura Kashgar. Em outras partes, as ruínas de moradias despedaçadas dão a impressão de se estar em uma cidade destruída por um terremoto. No fundo, a silhueta de um prédio com cerca de vinte andares se eleva contra a noite, iluminada pelas luzes da cidade nova.

A casa de Abdullah fica no fundo de uma estreita viela. Ali se respira Ásia Central: na sala situada no final de um labirinto de corredores, recoberta por tapetes, uma mesa baixa sustenta vasilhas com frutas secas, sonhos, samossas de carne. O anfitrião pega um jarro de metal para servir o chá: “Minha casa vai ser demolida, mas não sei quando. É tudo incerto”. Contrariado, ele constata: “Ninguém veio nos ver para dizer o que será feito, ou as nossas opções. Passaram agrimensores, mas eles não sabiam de nada. Estavam lá simplesmente para tirar as medidas da superfície da casa...”. Bombardeado por perguntas, sendo que até então ele evitara cuidadosamente as implicações culturais – e portanto políticas – de tais críticas, Adbullah acaba contando: “Essa casa tem mais de 300 anos. Foi meu avô que a comprou. Não sei por que precisam mudar tudo, destruir, criar problemas para nossas famílias, tirar as pessoas dos subúrbios. Aqui as coisas estão bem do jeito que estão”.

Ninguém sabe ao certo como ficará uma Kashgar “renovada”: bairros inteiros deverão ser refeitos no pretenso estilo “tradicional” da cidade antiga. Mas para acolher o quê? Restaurantes, lojas de luxo? Uma encarnação folclorizada do passado? O que ainda resta dos antigos bairros, ao redor da grande mesquita, não será em breve mais do que uma zona coberta por arranha-céus, como já acontece, em parte? Como diz Abdullah, é tudo incerto.

Faz quase dez anos que essa cidade, oásis situado na antiga Rota da Seda, é ameaçada: entre 2001 e o fim de 2009, cerca de 10 mil habitações já foram destruídas e, só no perímetro da grande mesquita, 5 mil famílias foram desalojadas. Mas tudo se acelerou na primavera de 2009, um ano após o terremoto de Sichuan (mais de 80 mil mortos): sob pretexto de facilitar as operações de resgate em Kashgar, na hipótese de um possível tremor de terra, as autoridades dessa joia arquitetônica da região autônoma uigur de Xinjian lançaram um grande projeto de “reconstrução da cidade antiga”. Custo da operação: US$ 440 milhões (R$ 801 milhões). 65 mil famílias, ou seja, 221 mil habitantes, metade da população, serão afetadas por esse projeto. As agências oficiais de notícias chinesas deram números de uma precisão notável, indicando que o plano prevê “a demolição de 13.513 casas situadas em 28 bairros” e “a construção de 10 mil imóveis (do tipo conjunto habitacional)”, para alojar as vítimas dessa grande revolução urbana.

Os responsáveis pela municipalidade na verdade acreditam que, em caso de catástrofes naturais, o trabalho dos paramédicos, dos bombeiros e das ambulâncias seria impedido ou retardado por causa do labirinto de ruelas que irrigam a cidade antiga. “São só pretextos par destruir a cultura uigur!”, acusa o estudante Noor. “A China não quer que o turismo se desenvolva demais aqui, porque assim nossa cultura seria conhecida por um número maior de estrangeiros. Os chineses querem assimilar nosso povo, querem eliminar tudo que é diferente, para que tudo se pareça com a China”.

Uma recente reunião de caciques do governo local, cujos trechos de discursos o jornal de Hong Kong “The South China Morning Post” conseguiu obter, parece confirmar as declarações do jovem: “Aqueles que imaginam que é na cidade antiga que se concentram a beleza e a história de Kashgar, estão enganados e se mostram extremamente irresponsáveis”, insinuaram os responsáveis durante esse encontro. A reconstrução da cidade é “uma questão política muito séria”, explicaram.

A reação do governo foi proporcional às realidades de um Xinjiang que é a “nova fronteira” do extremo ocidente da China. Após um intervalo de vários séculos durante o qual esteve ausente, o país retomou o controle dessas margens do império durante a segunda metade do século 19. Após a dinastia Tang (618 a 907), a China não foi mais capaz de impor seu controle sobre essa região, que em seguida foi dominada por diferentes confederações nômades turco-mongóis durante muito tempo. Foi preciso que os comunistas de Mao tomassem o poder em Pequim, em 1949, para que o antigo Turquistão oriental realmente voltasse para o seio da China eterna.

A gesticulação política, a reivindicação étnica, religiosa e cultural, bem como a violência militar, há muito tempo marcam essas fronteiras turbulentas. 1864: na região de Kashgar, estourou uma rebelião conduzida pelo uzbeque Yacoub Beg, que instaurou um efêmero “emirado”. 1933: constituição de uma República islâmica do Turquistão Oriental, após o rapto de emires locais. 1944: constituição de uma nova República do Turquistão Oriental, que logo se tornou satélite soviético...

Os uigures, que ainda hoje são a etnia mais numerosa em Xinjiang, são muçulmanos de rito hanafita, fortemente influenciados pela inspiração do misticismo sufi da Ásia Central. Em 1949, os chineses Han (etnia que representa a maioria da população da República Popular) representavam 6% da população da região. Ao final de um processo de colonização contínua, esses últimos são hoje 40%. Os uigures agora sentem como se estivessem sendo lenta mas certamente estrangulados pela expansão chinesa.

Sangrentos conflitos interétnicos (197 mortos e mais de 2 mil feridos), no início de julho de 2009 em Urumqi, capital de Xianjiang, estiveram entre os mais graves da história das últimas décadas na província. Nessa região tomada por movimentos de febre nacionalista – e mais recentemente islâmicas - , é inevitável que o projeto de reconstrução de Kashgar suscite uma forte oposição da população local, para a qual a reconstrução equivale à assimilação.

Em um bairro da cidade antiga, uma espécie de “aldeia de fachada”, onde, pagando uma entrada, pode-se visitar a olaria local, admirar os pátios das casas antigas, sentir um perfume antiquado, um jovem se dirige a nós, em inglês e em chinês: “Nem vale a pena olhar, não há nada escrito em uigur aqui!”

Mais tarde, um homem cujas funções não revelaremos, explica as linhas gerais do projeto: “As autoridades primeiramente começaram a realojar os mais pobres. Elas chegaram a filmá-los quando foram recebidos com música em prédios modernos longe do centro! Em seguida, serão traçadas ruas largas e reconstruiremos bairros inteiros. Cada família tem a seguinte escolha: ou ela aceita o apartamento oferecido pelas autoridades, ou uma indenização de 1.200 a 1.700 yuans (R$ 295 a R$ 418) por metro quadrado. As pessoas que recusarem essas duas propostas receberão 400 yuans por metro quadrado para reconstruir suas casas em um estilo antigo, mas dentro das normas sísmicas. Mas essas indenizações são insuficientes para renovar uma casa cujo estilo deveria ser, teoricamente, ‘harmonizado’ com a arquitetura tradicional”. Ele afirma, entretanto, que os conflitos de Urumqi teriam tido consequências sobre o projeto: “Desde o verão passado, as obras desaceleraram, pois as autoridades temem que uma destruição muito sistemática vire pretexto para novas violências contra chineses”.

  • Divulgação

    Cena do filme "O Caçador de Pipas", rodado justamente na zona rural de Kashgar, no oeste da China, cidade que agora passar por um grande processo de reconstrução após terremoto

As reações da Unesco, que no ano passado enviou uma missão de informação ao local, não serviram de nada. Pior, a agência da ONU foi usada pelos chineses: em um grande cartaz colocado em uma rua da cidade antiga, pode-se ler que ela “aplaude o projeto de reconstrução” e “acredita (que ele) reflete o verdadeiro interesse do povo”. Mentira, responde o escritório em Pequim da Unesco: segundo um email enviado ao “Le Monde” por Beatrice Kaldun, coordenadora dos programas culturais, a agência “se preocupa com esse tipo de intervenção que consiste em destruir uma porção substancial da antiga malha urbana”. A mentira não durou muito.

Mohammed vive há vários meses em um desses complexos para pessoas desalojadas. Esse conjunto habitacional leva o garboso nome de Cidade da Felicidade. Vinte e seis torres de seis andares, cada uma com 72 apartamentos de 50 m2, se estendem ao pé de uma falésia. Bem ao lado, vê-se a fábrica de cimento da bandeira vermelha que sopra sua poeira sobre o complexo industrial. Mohammed enumera a lista das queixas dos vários desalojados: “Nenhuma mesquita, nenhum pátio privativo para as mulheres, nenhum elevador para os idosos”. Em Kashgar, a cidade das pessoas felizes, ainda está por construir. Felizmente, na cidade pode-se ler a seguinte mensagem, pintada em grandes letras vermelhas sobre um fundo branco: “10 mil anos de vida ao grandioso Partido Comunista!”

Tradução: Lana Lim

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