UOL Notícias Internacional
 

26/02/2010

A ascensão de um Islã fundamentalista preocupa as autoridades catalãs na Espanha

Le Monde
Jean-Jacques Bozonnet
Enviado especial a Tarragona

Teria a velha fazenda abandonada na entrada de Valls, pequena cidade perto de Tarragona, sido sede de um “tribunal islâmico” na primavera passada? Os seis homens presos em novembro de 2009 por terem condenado à morte uma jovem marroquina acusada de adultério, seguindo a aplicação da sharia [lei islâmica], acabam de ser libertados sob fiança. A jovem, que hoje está de volta ao Marrocos, não compareceu à convocação do juiz de instrução. E o relato que ela havia feito de seu rapto, e depois de seu julgamento “por doze homens de turbante”, suscita sérias dúvidas.

Contudo, os “mossos” (a polícia do governo da Catalunha) a levaram a sério, investigando durante meses antes de lançar suas redes nos meios muçulmanos ultraconservadores, bem implantados na região tarraconense. “Talvez não tenha acontecido nada, mas o fato de que isso possa ter parecido plausível demonstra uma construção do medo em torno do salafismo”, acredita o antropólogo José Moreiras, da universidade Rovira i Virgili de Tarragona.

A Catalunha se preocupa com a ascensão do discurso fundamentalista no seio da comunidade muçulmana, que possui 350 mil membros, entre os quais 250 mil marroquinos. Das 180 mesquitas registradas, mais de cinquenta seriam controladas por associações ligadas ao salafismo. “Isso não nos dá medo, mas estamos em alerta porque há pessoas que passam mensagens de não-integração e de hostilidade ao país que as recebe”, admite Mohammed Chaib, deputado socialista do Parlamento catalão.

Esse muçulmano de origem marroquina pede por um melhor reconhecimento da comunidade muçulmana que, mesmo após trinta anos de presença, ainda deve se contentar com garagens, porões ou antigos prédios industriais como locais de culto. Nenhuma municipalidade aceitou a construção de uma mesquita. “Existe também uma crise no modelo de organização do islamismo na Catalunha”, diz José Moreiras. “Essa ausência de organização, de doutrina e de autoridade no seio da comunidade favorece o discurso simples e estruturado do salafismo”.

Em sua mercearia, Said Hamduni afirma com tranquilidade que faz parte desse movimento. Instalado em 1992, esse marroquino é vice-presidente da Associação dos Muçulmanos de Reus e de seu cantão, um subúrbio de Tarragona que possui cerca de 16 mil muçulmanos. “É verdade que o salafismo encontra muito sucesso na região”, reconhece o próspero comerciante. “Desde 1993-1994 organizamos todos os anos, na semana santa, um congresso salafista que reúne de 3 mil a 4 mil pessoas, e para o qual palestrantes de alto nível vêm da Arábia Saudita, da Síria, do Egito, da Líbia, etc”.

A presença desinibida desse movimento começa a suscitar a reação de políticos. No dia 12 de fevereiro, um membro da Convergència Democràtica de Catalunya (CDC, direita), Àngel Colom, exigiu a “expulsão” dos imãs mais agressivos. Um escândalo considerado “eleitoreiro” por seus adversários, a alguns meses das eleições regionais. “Aqueles que acendem o pavio não são os cidadãos, mas, sim, os partidos políticos”, lamenta Mohammed Chaib. “Eles correm o risco de destruir os esforços de muitos catalães e muçulmanos em favor do diálogo e da harmonia”.

Diante das polêmicas que se multiplicam, Said Hamdouni finge espanto: “Nossas mesquitas são abertas, eles que venham escutar nossos discursos; constatarão que dizemos não à assimilação, e sim à integração”. Ele reconhece que “ver pessoas vestidas de forma diferente pode causar medo em algumas pessoas”, então ele sorri: “Certamente uma falta de informação de nossa parte”.

Pressão sobre as mulheres
Na Catalunha, o debate sobre o uso do véu e o código de vestimenta é uma questão sobretudo dentro da comunidade. “Como todo comunitarismo, o salafista utiliza a visibilidade da religião para seu desenvolvimento”, explica José Moreiras. “Ele não impõe o véu, mas o apresenta como um ‘complemento’ da prática religiosa”. Depois do caso do pseudo-tribunal islâmico de Valls, a imprensa local mencionou diversos casos de pressão sobre mulheres muçulmanas por parte de “brigadas da moral” de inspiração salafista.

Fatima Ghailan passou por essa amarga experiência. Essa jovem mãe de família marroquina sofreu durante meses ameaças e agressões verbais por parte da Associação Muçulmana de sua cidade, Cunit, entre outras razões porque ela se veste à maneira ocidental. “Quando fui contratada pela prefeitura como mediadora intercultural, o imã temeu pelo seu poder, pois ele não era mais o único interlocutor da comunidade”, ela explica.

À petição da Associação que exigia sua demissão, ela respondeu por meio de uma queixa na justiça. Hoje, o procurador pede cinco anos de prisão para o imã, por “ameaças, violências e calúnias”. Para Mohammed Chaib, “somente a comunidade muçulmana pode refutar o fundamentalismo”. Ela ainda precisa se organizar para que as autoridades locais, bem como o governo catalão, possam visar claramente o interlocutor certo. Em Cunit, Fatima Ghailan ainda não entendeu “a atitude ambígua” da prefeita socialista no momento de arbitrar entre sua mediadora e o imã.

Tradução: Lana Lim

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