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27/02/2010

O Afeganistão não é tema de polêmica na França. Por quê?

Le Monde
Pierre Jaxel-Truer
  • O presidente da França, Nicolas Sarkozy, chega para o funeral de dois soldados franceses mortos no Afeganistão, em Vannes, França

    O presidente da França, Nicolas Sarkozy, chega para o funeral de dois soldados franceses mortos no Afeganistão, em Vannes, França

Na Holanda, a questão da presença das forças militares holandesas no Afeganistão se tornou um assunto delicado o suficiente para derrubar o governo de Peter Balkenende, em 21 de fevereiro. Na Grã-Bretanha, na Alemanha, e certamente nos Estados Unidos, o assunto está sempre em primeiro plano. Mas na França, onde 40 soldados foram mortos pelo conflito, a polêmica não pega. “É verdade que o interesse do público, assim como o das mídias, é claramente menor do que em outros países”, constata Jérôme Fourquet, vice-diretor do departamento de opinião do IFOP [Instituto Francês de Opinião Pública].

Por que essa relativa indiferença, apesar de 3.750 soldados franceses e 150 policiais terem sido recrutados, e de ter surgido em dezembro a questão do envio de novos reforços ao local? Para Fourquet, essa diferença se deve inicialmente à percepção do conflito. “Na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos a estratégia militar é vivida como uma verdadeira guerra. Esses países estiveram no Iraque, e o Afeganistão faz parte da continuidade. Não é o caso da França”, analisa Fourquet.

A outra razão tem a ver com o fato de que os políticos evitam fazer do tema um objeto de debate. Entretanto, “a população tem uma opinião bem sólida. Com um nível muito alto de oposição ao envio de tropas, superior àquele observado na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, e que vem aumentando”, constata Fourquet.

“Um novo caminho”
Segundo um estudo do IFOP realizado em janeiro, o número de franceses a favor do envio de novas tropas é muito pequeno (20%). Didier Billion, que trabalha com a questão afegã no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), também acredita que a questão é mais de ausência de debate político audível sobre o assunto do que de um desinteresse por parte dos franceses. “Os socialistas, ou seja, o principal partido de oposição, dizem que essa guerra começou mal, mas não se pode dizer que eles se empenham muito para defender essa posição”, acredita.

Jean-Christophe Cambadélis, que trabalha com a questão afegã no Partido Socialista, admite parte da crítica. “No dia seguinte ao 11 de setembro de 2001, nós fomos favoráveis à intervenção. Em 2008, quando avaliamos que a política conduzida não era boa, e pedimos por uma moção de censura sobre essa questão, a oposição não se manifestou. Estávamos em plena ‘sarkomania’”, garante.

E desde então? “Não dizemos não à guerra, não estamos pedindo por nenhuma retirada. Nossa posição é de promover um novo caminho para a paz. É menos ‘midiatizável’”, acredita Cambadélis. Sem arrependimentos: “Queremos chegar ao poder, então é lógico ter uma posição de tipo governamental, que leve em conta as manobras estratégicas do país”.

O presidente da Comissão dos Assuntos Externos da Assembleia Nacional, Axel Poniatowski (UMP), acredita que se o debate não é acalorado, é simplesmente porque a retirada das tropas francesas não seria uma boa solução: “Na terça-feira ouvimos Abdullah Abdullah, o principal opositor do presidente Karzai. Ele agradece nossa presença”, diz.

Durante o último debate organizado na Assembleia Nacional sobre o assunto, em 16 de dezembro de 2009, o local estava praticamente vazio. “Foi um debate superficial, sem votação, para dar a aparência de uma discussão”, critica Noël Mamère, do Partido Verde, que pede a retirada das tropas. O Palácio do Eliseu, que se manifesta o mínimo possível sobre o Afeganistão, se satisfaz com um debate morno.

Tradução: Lana Lim

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